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Tuesday, September 15, 2026

A história de Annie Silva Pais no novo podcast plus

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Começa agora mais um Explicador da Rádio Observador. Esta manhã sobre o novo podcast Plus, Os Escândalos de uma Revolucionária. É uma série narrada pela atriz Bárbara Branco, com banda sonora original de Frankie Chaves, guiões da jornalista Inês André Figueiredo. Connosco está também o subdiretor do Observador, João Santos Duarte. Muito bom dia aos três, muito obrigada por se juntarem a nós. A Bárbara junta-se a nós mais daqui a pouco. Frankie Chaves, a guitarra está em condições?

Está bem.

Sobreviveu.

Sobreviveu.

Ótimo. Teve aqui um pequeno incidente.

Está tudo bem.

Está tudo bem? Precisamos dessa guitarra ao longo da conversa. João Santos Duarte, começo por ti. Antes de mais, aqui um pequeno teaser: O Escândalos de uma Revolucionária conta a história de Ani Silva Pais, é filha única do último diretor da PIDE, próximo de Salazar, que abandonou tudo para se juntar à revolução cubana. O que levou o Observador a escolher esta história?

É mais uma grande história. Nós nos podcast Plus, como vocês sabem, estamos sempre à procura de contar grandes histórias. E esta é daquelas histórias que vai ao encontro daquele chavão que diz que a ficção muitas vezes supera a realidade. Portanto, é uma história, de certa forma, muito cinematográfica até. É também fácil às vezes romantizá-la, porque é uma história que não é assim tão simples como parece ou às vezes é contada. E também podemos falar sobre isso, mas de fato é uma história com muitas dimensões e começando logo por essa premissa que parece improvável. Como é que a filha de um homem-

De alguém tão próximo de Salazar.

Exatamente, que é o diretor da PIDE, da Polícia Política, acaba por se juntar à revolução cubana.

Che Guevara.

E depois é isso, é uma história que mete personagens históricas muito icônicas. Temos Fidel Castro, temos Che Guevara, temos obviamente Salazar. A dada altura, mais à frente no podcast, vão perceber que de certa forma, embora de forma um pouco indireta, mas está lá na história também, envolve Pablo Escobar.

Já estava em atividade nessa altura.

Só estrelas. É uma história que perfeitamente a Netflix também poderia pegar. Já houve uma série, para ser honesto, há uns anos houve uma série na RTP, Cuba Libre, sobre esta história, mas obviamente nós decidimos ir a ela e contá-la, porque é uma história incrível.

A Inês André Figueiredo junta-se a nós à distância. Olá, Inês, bom dia.

Bom dia.

Como é que foi selecionar aquilo que devia entrar no podcast e aquilo que poderia ficar de fora? É difícil, não?

É muito difícil. Durante o processo, dei por mim muitas vezes afogada em documentos oficiais, livros nas bibliotecas, na Torre do Tombo. E a pensar que, de fato, esta é uma história de Hollywood, que qualquer um de nós poderia delirar ao ver um grande filme internacional no cinema, com a história de alguém que é filha de um homem totalmente fiel à ditadura. Não estamos só a falar de uma pessoa que trabalhava para Salazar ou trabalhava no regime político de Salazar. É alguém que era realmente fiel a essa pessoa e Ani Silva Pais vê-se num país como Cuba e encanta-se pela revolução. E no fundo, mais do que isso, mais do que esse encantamento, a verdade é que troca toda a vida de luxo que tem, uma vida de diplomata, a viver nas melhores casas de Havana, a comer a melhor comida, como nos chega a dizer uma das pessoas que entrevistamos, a frequentar as melhores festas, e que deixa tudo para ser uma pessoa, no fundo, normal, uma cubana, com tudo o que isso implica. Claro que não podemos dizer que a Ani Silva Pais era uma pessoa qualquer, porque obviamente conhecia as mais altas figuras da política cubana. Há histórias no podcast sobre esse encantamento por Che Guevara, sobre o fato de conhecer Fidel Castro, do próprio fazer questão de a cumprimentar no meio de uma multidão antes do discurso. E além disso, e levantando aqui um bocadinho o véu, mas não contando muito, também teve duas relações longas com duas pessoas muito próximas do regime. Primeiro, um médico de Fidel Castro, que era muito próximo dele, e depois um ministro do regime cubano. Por isso estamos a falar de alguém que sempre se rodeou de pessoas importantes, mas a verdade é que vivia numa casa que pertencia ao Estado, usava as senhas de racionamento, trabalhava para o regime. Portanto, no fundo, foi alguém que se integrou 100% na sociedade cubana.

E, Inês, só para nos contextualizar, Ani Silva Pais tinha que idade, mais ou menos, nessa altura?

Nessa altura ela tinha por volta de 30 anos, isto já foi em 1965.

Já não era uma adolescente.

Não, ela já casou até mais tarde do que era habitual nessa época, e essa também é uma das histórias contadas no podcast, a forma como a mãe procurava a pessoa ideal para ela casar e depois acaba por se casar com um diplomata, o que podemos dizer que agradou muito à família Silva Pais. Neste caso, casou com um diplomata russo que estava a trabalhar em Lisboa, e daí essa possibilidade, essa abertura de portas para irem viver para Cuba.

É muito gira também, desculpa, Inês, a história como eles se conhecem. Era um diplomata suíço e ele põe um anúncio no jornal

Sim, ele estava muito sozinho pelo que sabemos, porque vivia sozinho em Lisboa, fazia as suas passeatas ao fim de semana, mas no fundo fazia uma vida entre casa e embaixada da Suíça em Lisboa e acaba por fazer um anúncio no jornal, que na altura até foi um bocadinho censurado por um funcionário do Diário de Notícias, porque ele queria pôr algo mais do que o funcionário achava que era possível. E tudo começa aí. Não é a Ani Silva Pais que responde ao anúncio, mas é uma amiga que vê que pode haver ali uma possibilidade de Raymond Kendo, o diplomata suíço. Já são muitas histórias. O diplomata suíço acaba por conhecer então essa amiga da Ani e, por sua vez, a filha do diretor da PIDE, que na altura ainda não era diretor da PIDE. No fundo, o crescimento também a nível da carreira diplomática de Raymond Kendo, acontece ao mesmo tempo que Fernando Silva Pais alcança esse que foi o maior cargo da sua carreira política.

Franquês Chaves, és o autor da banda sonora original. Bom dia, bem-vindo. Aceitaste logo o convite sem pensar duas vezes no que é que eu me vou meter?

Sim. Eu, por acaso, não conhecia a história, mas fui procurar, fui pesquisar e vi que precisamente já tinha havido até um programa na RTP sobre esta história. E a história realmente é fascinante. E tem este quê de ser em Cuba, entre Lisboa e Cuba, e eu adoro música cubana.

Precisamente por aí. Como é que se traduz musicalmente o contraste entre a cinzenta PIDE e a energia da revolução em Cuba numa só banda sonora?

Pois, esse era o desafio. Eu agarrei-me mais à parte mais colorida de Cuba e fui às minhas referências de música cubana, sendo um lisboeta, mas já ouvi bastante música cubana e tenho as minhas referências, alguns discos que gosto bastante, a começar por uma banda sonora já muito antiga de um filme que era "Os Reis do Mambo", com o Armand Assante.

E o Antonio Banderas.

Antonio Banderas, em que foca já muito alguns músicos cubanos cruciais, como o Arturo Sandoval e a Celia Cruz, a Linda Ronstadt. Eu aprendi a tocar de ouvido algumas músicas aí. Portanto, foi a minha primeira imersão à música cubana. E depois, mais tarde, com o Buena Vista Social Club, do Ry Cooder.

Foi um sucesso a todos os níveis.

Com o Marc Ribot, um disco também que foi crucial, que eu adoro, que é o Marc Ribot, "Los Cubanos Postizos", que é uma imersão à música cubana de uma forma de quem não é cubano. O Marc Ribot é americano, o Ry Cooder também, mas entraram neste universo e foi um bocadinho isso que eu tentei fazer.

Vou pôr aqui a música de fundo, só para termos aqui.

Boa. Chamei a música "Cuba Mia" por isso mesmo, porque é a minha visão.

É uma visão de fora, mas respeitando essa tradição. Já tinhas feito algum projeto do gênero, de uma banda sonora para um podcast?

Bandas sonoras, sim, mas cubanas, não.

E para um podcast?

Para podcast também não, penso que não.

É muito diferente em relação a uma banda sonora de uma série ou de um filme?

Eu vi isto um bocadinho com o imaginário de filme.

Estavas a ver as imagens.

Estava a ver, eu li. Portanto, eles cederam os primeiros dois episódios, penso eu. Em guião ainda ou em voz? Em guião. Eu li aquilo e realmente isto está muito bem feito. O João todo babado. Entra-se no mundo e a maneira como a história está contada, entra-se no mundo, quase como se de um filme se tratasse. E a música ajuda. Já lá estamos.

Está a chegar a Bárbara Branco. Olá, bom dia. Bem-vinda.

Estou horrivel, desculpa.

Não faz mal.

Não faz mal. Sim, e tu bem-vinda. Obrigada por teres aceitado o nosso convite. Bárbara, já agora, dar voz a uma história real e jornalística, exige assim um trabalho diferente de dobrar ou de ficção ou atuar no palco. Como é que foi esta experiência?

Completamente diferente. Eu nunca tinha tido uma experiência deste gênero, de narrar, nem uma história real, nem absolutamente podcast nenhum. Tinha feito assim uma coisa de ficção, só, mas com esta dimensão não tinha feito nada e é um trabalho completamente diferente.

Como é que se encontra o tom certo?

Com muita ajuda da Tânia, do João.

Da Tânia Freirinhas e do João Santos Silva.

Sim. Mas acho que ajuda muito ter um bom guião e ter bons ganchos em cada um dos episódios. Isso é uma coisa que este podcast tem, como vão poder acompanhar e ouvir. E ajuda muito porque é meio caminho andado. Grande parte do meu trabalho está feito quando o texto é bom. Sempre.

Já conhecias a história, Bárbara?

Já conhecia, sim.

Da série, talvez.

Exatamente. Tomei conhecimento nessa altura e, portanto, sabia, mas não sabia com esta profundidade, com este detalhe.

Inês, tinha aqui uma pergunta para te fazer, porque há pouco falavas das entrevistas. Conseguiste entrevistar ainda muitas pessoas com ligação direta à história? Essa foi a parte mais difícil de todo o podcast, a reconstituição da história, porque já passaram muitos anos e grande parte das pessoas que viveram naturalmente nessa altura já morreram, não só os pais, mas também o marido, a avó, uma tia muito próxima da família. Nesse capítulo, obviamente, a existência de documentos históricos foi fundamental, não só telegramas, mas também as comunicações entre Silva Pais e Salazar, que estão todas na Torre do Tombo, os postais que a Ani enviava à família e que a prima, que é uma das entrevistadas neste podcast, nos cedeu, muitas fotografias que ela enviava. Já agora, não só de Cuba, mas de várias partes do mundo, porque vamos perceber que ela trabalhava como tradutora e intérprete para o regime e por isso viajou por muitas dezenas de países. Mas, no fundo, havia aqui uma frustração de cada vez que se percebia que mais alguém estava morto, por assim dizer, ou mesmo que alguém da família de Silva Pais, como aconteceu com uma das pessoas, não quis falar. Mas depois acabou por se abrir um rol de notícias muito positivas quando Rui Ferreira, por exemplo, um jornalista e amigo da Ani, que viveu em Cuba e vive nos Estados Unidos, aceitou o convite e rapidamente nos disse que conhecia outro amigo que tinha transportado correspondência entre a Ani e os pais. Quando eu percebi que o filho do embaixador José Fernandes Fafe tinha estado lá com a Ani ou que a prima tinha convivido longamente com ela, apesar da grande diferença de idades, mas também tinha muitas memórias dos tios. Portanto, é um processo de altos e baixos, de frustrações e momentos de felicidade, em que obviamente cada conquista é um passo. Às vezes, cada vez que havia uma notícia positiva, é um passo à frente na construção da história, mas para nós também funciona muito como mais uma olfada de ar fresco quando estamos a tentar contar algo. E infelizmente, isso que dizia, a parte de muitas pessoas já terem morrido, foi um entrave, mas felizmente não foi suficiente para não contarmos a história. Felizmente, foi possível contar.

Sabia-se que ela estava desaparecida, estava tudo num desespero. Até se falou muito que podia ser espionagem.

Esta é a história de Ani Silva Pais, a filha do último diretor da PIDE. No Estado Novo, fugiu do marido diplomata com a ajuda de Fidel Castro e juntou-se aos cubanos. E no 25 de abril, voltou para ajudar a fazer a revolução em Portugal e para tentar salvar o pai. Episódio um: a filha do diretor da PIDE desapareceu. "Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frankie Chaves.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.

Segunda parte do Explicador esta manhã, precisamente sobre os escândalos de uma revolucionária, o novo Podcast Plus do Observador, que conta a história de Ani Silva Pais, a filha única do último diretor da PIDE, que abandonou tudo para se juntar à revolução cubana. Temos estado à conversa com a atriz Bárbara Branco, que narrou toda a série, Frankie Chaves, autor da banda sonora original, a autora e jornalista Inês André Figueiredo e o João Santos Duarte, diretor adjunto do Observador. João, já ouvi dizer aqui nos corredores que a Bárbara acertou logo no tom. Isso é mentira.

Não está tão longe da verdade assim. É muito interessante. Há duas histórias muito giras em relação à Bárbara e até ao Frankie, e é também giro para os ouvintes falar desta questão dos bastidores. Quando surgiu esta história, e obviamente nós tentamos pensar sempre em narradores e opções de narradores e tentar um pouco pensar no perfil do ator e na história, surgiu-nos logo o nome da Bárbara para esta história da Ani. E foi giro porque quando a Bárbara veio, logo uma das primeiras perguntas é: já conhecias a história? E ela confessou que sim, que já conhecia. E ela, de facto, estava muito por dentro da história mesmo antes de os guiones terem chegado, porque há uns anos ela tinha participado num casting para uma coisa sobre esta história. Portanto, foi uma grande coincidência.

Estava destinado.

Algum dia me tinha que cruzar com a Ani.

Mas, de facto, a Bárbara surgiu logo, porque nós muitas vezes imaginamos um personagem para o narrador. Ou pode ser o investigador da judiciária que está a investigar o crime, ou pode ser uma espécie de agente secreto. E aqui não era bem um alter ego da Ani, mas era alguém que trouxesse essa frescura, essa liberdade, essa irreverência. E daí pensarmos logo na Bárbara. O Frankie também é giro porque nós-

O Frankie é giro. É o que nós temos.

É uma história engraçada.

Lá está, vamos cortar esse.

Exato, e tu cortas esta. Eu acho que talvez quase desde o primeiro que o nome do Frankie andava ali. Nós obviamente temos também uma lista de músicos, de grupos, e vamos sempre pensando.

E depois tem a availability.

Mas nunca era bem a história, não tinha chegado o momento.

Aqui foi o quê? Cuba?

Também, não sei, mas achamos que uma guitarra ficava bem e tivemos um feeling que ia resultar bem, e resultou muito bem. Porque ele depois fez uma música extraordinária. Obviamente são todas incríveis, mas esta é uma das minhas favoritas.

Podemos ouvir um pouco, Frankie, trouxeste a guitarra?

Aqui, de lado.

Como é que se começa a desenvolver?

Como é que se começa? Qual é o processo?

Fazemos o briefing, esta malta fez o briefing.

Fez-me o briefing.

E tu depois...

E eu, lá está, comecei a imaginar o que seriam as imagens, o que seria o ambiente. E isso geralmente noutras bandas sonoras que fiz é crucial porque

É o mergulhar no mundo imagético de uma história. E eu comecei a tocar. O que eu costumo dizer é abrir a porta pra música entrar e contar a história. Acho que a primeira frase que eu

Foi um bocadinho isto.

Já estávamos em Cuba agora.

Completamente. Depois comecei a perceber a questão da relação da parte irreverente da Ani, mas também a parte da relação amorosa que ela teve. Ela devia ser uma mulher superapaixonada e apaixonante.

Estavas a falar, Frank, da questão dos ambientes, como eles marcam e orientam também o processo criativo, mas também pensaste ou foste à procura das características da personagem, da protagonista do podcast para encontrares essas frases.

Certo. Isso, e também da história. A história tinha que ser uma história misteriosa, a música tinha que ter algum mistério, daí estes acordes que não se percebe onde é que quer ir, é meio misterioso. Depois levanta o véu quando vai para os acordes maiores. E aqui eu balanço.

Olha, a Bárbara já dança.

Que bom. Caramba, bom.

Então é um bocadinho tentar compor. E é ótimo termos uma história pra conseguirmos contar a história.

E tens que dar suporte a vários tipos de sentimentos ao longo da história.

Certo.

Alegria, tristeza, coisas que correm bem.

A esperança.

Isso foi uma das coisas que eu quis, sendo um tema apenas para uma banda sonora com seis episódios, tentei ser o mais abrangente possível em vários ambientes. Ou seja, isto foi a primeira coisa, mas depois fiz uma introdução mais de guitarra clássica para eles poderem utilizar em algumas partes. Depois a música cresce, vai até termos convidado o Manuel Pinheiro pra fazer percussões. Isolamos as percussões também pra eles poderem utilizar as percussões ao longo da história, dos seis episódios. Tentei que a música em três minutos, penso eu que está em três minutos.

Três minutos.

Três minutos e sete.

Três minutos e sete. Tivesse o maior leque possível de ambiências para poderem contar a história.

E tem também uma parte de guitarra portuguesa, o que é giro, que é essa fusão entre Cuba e-

Entretanto, quis fazer. Depois, entretanto, comecei a pensar: "Ok, ela veio de Lisboa, vamos tentar fazer o cruzamento entre Cuba e Lisboa" e encaixámos uma guitarra portuguesa assim ao de leve, só pra ter uma textura mais lisboeta.

Vamos ouvir também a Inês, trazê-la de volta aqui à conversa. Inês, houve um artigo no Expresso em 2002, do José Pedro Castanheira e do Valdemar Cruz, que deu origem a uma peça de teatro que estreou também em 2008, creio. Entretanto, também já falámos aqui, foi produzida uma série na RTP, o "Cuba Libre". Sem revelar muito, porque não estamos aqui para estragar as surpresas, o que é que podemos esperar de novo neste podcast sobre Ani da Silva Pais?

Olha, já agora aproveitar que estamos aqui publicamente e agradecer à Bárbara Branco e ao Frank „Chaves", porque de facto vocês disseram, mas também quero sublinhar, porque de facto trouxeram uma qualidade incrível ao podcast, agradecer-lhes por isso, porque hoje temos a certeza que foram as escolhas perfeitas, e não há dúvida disso.

Eles sorriem, eles estão a sorrir.

Estamos sem jeito.

Inês.

Obrigado.

Eu destacaria um episódio curioso, e que houve aqui uma alteração ao longo do guião, porque estas coisas funcionam mesmo assim. Mas quando começámos a vasculhar a segunda relação de Ani Silva Pais com uma figura política do regime, aconteceu algo inesperado, porque é daqueles momentos em que se percebe que se continuarmos a puxar por determinada coisa, vamos descobrir mais e mais, e foi isso que aconteceu. Deu pra perceber que aquele homem estava ligado de alguma forma ao famoso caso Oshoa, que é um caso relacionado com droga, que tem dimensões políticas enormes em Cuba, e que se tornou um escândalo a nível internacional devido às decisões da justiça cubana, e percebemos que poderíamos explorar essa parte. E foi assim, é difícil haver um argumento mais extraordinário do que um caso que mete droga, Pablo Escobar, parte da elite cubana e que no fim disto tudo, há um elo de ligação entre a história e a vida da Ani Silva Pais, não direta, mas indiretamente. E essa foi uma das partes mais surpreendentes do trabalho, que deu uma vida completamente diferente ao podcast. Mais um pormenor que pudemos ir atrás. Também não vou desfazer o mistério.

Claro.

Mas essa é uma das partes que eu destacaria, uma das novidades que conseguimos trazer a este podcast.

E como é que se gera o equilíbrio entre a dimensão humana e o contexto político, sem cair em julgamentos ou romantizações?

Sim, lá está. Como dizia no início, esta é uma história muito complexa. E aliás, esta história em particular de que a Inês falava é interessante, porque o último amor da vida de Ani foi o José Manuel Abrantes Fernandes, que ela tratava precisamente por Zé Manel, que era o ministro do interior de Fidel, tinha sido a guarda-costas dele e tinha sido diretor responsável pela polícia política do regime cubano. Ela, que era filha do diretor da polícia política de Salazar.

Lá está, porque a Ani, quando dizia a questão de romantizar, e para contextualizar, ela casa-se com o diplomata suíço, vai para Cuba, porque o diplomata suíço vai viver para Cuba, é alguém que vem de uma família muito conservadora, que tem uma relação muito tensa com a mãe, que diz que a mãe, de certa forma, tem ciúmes dela, porque a Ani é muito bonita, a mãe também é uma senhora muito bonita, e que se quer libertar da família, num primeiro momento, vê o casamento como uma forma de libertação. E quando chega a Cuba adota os ideais da Revolução Cubana, que depois acaba por se transformar numa ditadura também. Aliás, é muito curioso, há muitas coincidências históricas. No ano em que a Ani desaparece, em que ela abraça a Revolução Cubana, em 1965, é também o ano em que Cuba adota o regime do partido único. Já havia muitos sinais que aquilo ia dar em tudo, menos numa democracia, como é óbvio. Há aqui um lado de ela abraçar ideais que existiam. Havia um projeto social, inicialmente na Revolução Cubana, de educação, de saúde, mas a história é complexa também a esse nível.

Porque tem motivações pessoais até para esse empenhamento político.

E as opiniões oscilam. No podcast dizemos, quem a conheceu diz que ela, de certa forma, era mais fidelista que o Fidel, mas também há quem diga que havia nela também um certo lado de ingenuidade. Mas o fato é esse, é que ela assumiu completamente a forma de vida cubana. Ela vestia a farda de miliciana, tinha as senhas de racionamento, embora nunca deixando ter alguns pequenos privilégios. Ela nunca cortou a relação com o pai, nem vice-versa. Uma coisa é a relação de amor pai e filha e outra coisa são as vicissitudes e os acontecimentos da vida. E uma história gira é que os pais enviavam-lhe coisas pela mala diplomática para Havana. Obviamente, ela vivia como uma cubana, mas também tinha acesso a alguns privilégios que os cubanos não tinham.

João, deixa-me só dizer. Não sei se vocês conseguem ouvir.

Perfeitamente.

Não sabia se estava a dar.

Sempre.

Deixa-me só acrescentar aqui ao que o João estava a dizer, que de fato isto podia ter sido um capricho de uma jovem que se encantou, que se apaixonou pela revolução e que se juntou a ela durante uns tempos, mas não foi. A Ani Silva Pais voltou a Portugal durante um período específico de tempo para o 25 de Abril, mas na verdade viveu até o fim da vida em Cuba, acaba por morrer em Cuba. E isso mostra que a opção dela foi muito mais do que um encantamento espontâneo, foi algo mesmo em que ela acreditava.

E ela chegou a falar sobre a revolução portuguesa?

É um dos episódios. Bruno, vais estar a ouvir.

Não perco, quarto episódio.

Eu posso ouvir todos.

Já podes ouvir todos que estás a ouvir.

Exatamente, estás a ouvir a versão do teu premium.

Mas basicamente há um episódio, só para explicar a quem nos ouve, há um episódio em que a Ani Silva Pais regressa a Portugal, a convite de uma importante figura do 25 de Abril, não vamos dizer tudo, mas que vai estar em Portugal e vai trabalhar para a revolução, por assim dizer, vai fazer parte desse pós-25 de Abril, e isso também embarca, obviamente, a história dela. E já agora, algumas das pessoas com quem falámos, são pessoas que a conheceram cá, nessa versão de alguém que regressou, que viveu essa história e que depois acaba por voltar a Cuba após o 25 de Novembro.

Bárbara, foram muitas horas de estúdio?

Foram menos horas do que era previsto.

Esperava.

Correu bem.

A dificuldade inicial é sempre encontrar o tom. Como é que contamos esta história? Que abordagem é que decidimos, o que é que optamos? De que forma conseguimos contar uma história e contá-la bem, com todas as suas nuances e com todas as suas peripécias e contornos, mas sem também condicionar o ouvinte. Porque também era importante para mim, através da voz, passar esta história, mas sem fechar espaço à interpretação de quem a ouve e sem fechar o mistério e esta coisa toda, principalmente no primeiro episódio, este mistério, este desaparecimento dela, passar isso tudo sem fechar espaço à interpretação dos ouvintes.

Tu já conhecias a história, mas houve algum momento da vida da Ani que te tenha causado mais impacto?

O que eu conhecia da história da Ani eram traços gerais e, na verdade, o casting já tinha sido há muito tempo e já não me lembrava de grandes pormenores. Foi um bocado redescobrir a história dela com todos estes contornos novos. Eu não tinha realmente a noção da dimensão de uma data de coisas da história dela. E acho que foi isso, ou seja, foi uma dificuldade em encontrar um tom geral, mas a partir do momento em que o comboio começou a andar, só paramos no fim.

Como é que é o vosso processo de trabalho? Porque a Inês fez os guiões, tu dás voz aos guiões. Há muitas adaptações, isto é, o ritmo de leitura já lá está ou tem que haver pequenas alterações no guião original?

O que eu sinto é que nós não tivemos que alterar muitas coisas. Às vezes alteramos pequenas palavras ou frases, para não se tornar repetitivo, algumas palavras têm mesmo que ser alteradas. Mas eu sinto mesmo, e isto é mesmo genuíno, de coração, eu acho que estes guiões estavam muito certeiros à partida. Não foi preciso mexer em quase nada. Foi só lê-los, porque gosto de os ler em casa e gosto de saber o que estou a fazer, mas foi mesmo chegar aqui e trabalhá-los em equipa. E foi muito imediato e foi muito fácil construir este podcast. Claro que muitas horas de trabalho investidas aqui, principalmente Acredito eu na sonoplastia.

Era isso que eu ia perguntar. João, temos estado aqui a elogiar tanto a Bárbara Branco, e muito bem, e o Frankie Chaves.

Mas grande parte do trabalho é sonoplastia.

Há todo um trabalho na sonoplastia e também da Tânia Pereirinha, que nos está a ver ali de fora, a coordenadora dos Podcast Plus. Toda uma equipe que está por trás de mais uma série.

Sim, precisamente. E neste caso acabamos até por ter três sonoplastas a pegar neste projeto. Começou o Pedro Oliveira, também o Artur Costa e a Mariana Sousa Aguiar, embora, obviamente, havia um caminho único, uma estratégia que tínhamos definida, mas acabou por ter esse pormenor interessante. E sim, o objetivo é sempre o mesmo, e as pessoas que forem ouvir vão mais uma vez perceber isso, que no fundo é transportar as pessoas para dentro da história.

Vamos ouvir aqui um excerto?

Uhum.

Há pelo menos uma coisa que não bate certo. Ani escreveu duas cartas na mesma data. Raymond recebeu a primeira, onde a mulher o informava de que iria partir nesse mesmo dia para a Europa. Na segunda, enviada a Roberto Meléndez, a portuguesa também anunciava que iria viajar para o mesmo destino, mas só no dia seguinte. A maior prova de que algo de muito errado se está a passar reside no próprio papel da carta enviada a Meléndez. Esta mensagem não foi escrita em papel de telegrama. Vem numa folha com o timbre do Habana Riviera, o hotel cassino inaugurado dois anos antes da Revolução Cubana, no bairro de El Vedado, pelo gângster russo-americano Meyer Lansky. Esta mensagem é a primeira indicação que Raymond Candau tem de que a mulher, afinal, talvez estivesse mesmo no avião que aterrou na véspera na capital cubana, vindo da Cidade do México.

Quero ouvir já, hoje.

Como é que se sentem ao ouvir isto? É que ficam os dois tão atentos, a Bárbara e o Frankie. Como é que se sentem?

Este é o primeiro episódio.

Qual é a sensação? Olha, eu fico arrepiada.

Eu ouvi o episódio ontem à noite, logo passado uns minutos depois de ter saído. E a verdade é que a gravar, nós passámos algumas horas em estúdio a gravar isto. E a verdade é que nunca sabemos o resultado final, nunca sabemos o que é que vai acontecer. E a verdade é que, digo mesmo, e parabéns à equipe d'O Observador, porque eu acho que a sonoplastia está incrível e transporta-nos mesmo para lá.

E é necessário mesmo um excelente trabalho, como aliás tem sido feito sempre em todos os podcasts. Frankie, já falámos do teu processo criativo em relação a esta banda sonora. É muito diferente estar a fazer um trabalho destes, em que dão um guião e tens de preencher sonoramente esse guião das tuas composições. Os processos funcionam de forma muito diferente ou arranjas maneira de depois transformar aquilo também numa coisa muito tua?

Eu acho que é mais fácil quando há um guião, porque há um guião, há uma linha a seguir. Quando eu estou a compor as minhas músicas, às vezes é difícil, isto para dizer que a inspiração não chega todos os dias. Às vezes tem que estar aqui a tocar muitas horas até agarrar uma ideia e depois trabalhá-la, perceber se há espaço para uma letra, do que é que vou falar.

Aqui já tens ali as coordenadas.

Aqui há uma coordenada, há um guião, há uma linha orientadora que ajuda bastante. E depois tive a sorte de ser música cubana. Eu nunca tinha gravado música cubana, nunca tinha feito nada, mas já tinha tocado muito porque tinha ficado apaixonado por essa banda sonora e por outros discos que segui na altura e fui aprendendo de ouvido algumas coisas, porque muito passa por guitarra, porque eles utilizam a guitarra, utilizam um instrumento cubano. Como é que se chamava aquilo? Tive quase para mandar vir. Lembras que nós falámos disso? Já não me lembro do nome, mas é um instrumento com quatro cordas. Não, três cordas, chama-se tres, exatamente, tem três cordas. Mas que é quase uma variante, uma guitarra, portanto, é muito baseado em guitarras e isso puxa muito por mim. Eu sou guitarrista há cima de 20 anos.

Ainda vai sair daí um novo álbum com inspiração cubana.

Estavas a ir.

O mote está lançado.

O mote está lançado.

João, o Estado Novo é um poço quase sem fundo de histórias, mas esta tem aqui uns ingredientes que a tornam muito especial.

Tem, sim. Desde logo, o fato de ser esta história muito incomum. De teres a filha do Sousa Paz que de repente passa para a Revolução Cubana. E é muito interessante porque o desaparecimento é em outubro, só é comunicado no final do ano. Demorou dois meses até os representantes diplomáticos em Portugal comunicarem ao Franco Nogueira, ao ministro dos Negócios Estrangeiros, depois comunicar a Salazar. Na sequência, o Silva Paz apresenta a demissão, que Salazar não aceita. Na verdade, por vários motivos. Por um lado, diz o historiador que entra no nosso podcast, Salazar terá visto no Silva Paz, de certa forma, mais uma vítima até do que ele achava que era a decadência dos costumes e do pensamento ocidental e tudo mais. Mas, por outro lado, obviamente, tinha que abafar o caso. Ou seja, o que era agora se o diretor da PIDE se demitisse e a história obviamente nunca ficaria a ser conhecida, porque havia a censura. Era conhecida, provavelmente, nos meios mais pequenos, mais íntimos do regime, mas a demissão acabou por não ser aceite. E depois, de fato, é uma história que tem uma transversalidade histórica muito grande. Começa em 65, na perspectiva em que é o ano em que ela se junta à Revolução Cubana, atravessa o 25 de Abril, quando ela depois regressa a Portugal e de fato colabora com o movimento das Forças Armadas, até acabar depois, mais tarde, na morte dela já em 1990. E tem tudo isto, como te dizia no início. Portanto, uma história que tem Salazar, que tem Fidel, que tem Che Guevara, que tem Pablo Escobar.

E o Frankie Chaves.

E a Bárbara Branco.

Sim. E portanto, de fato, como dizias, o Estado Novo obviamente é um manancial grande de histórias e nós nos Podcast Plus já fomos a algumas, mas esta de fato tem ingredientes que não havia como não querer contar esta história.

Bárbara Branco, Frankie Chaves, João Santos Duarte, Inês André Figueiredo, muito obrigada por terem estado conosco esta manhã. Estivemos a falar do "Os Escândalos de uma Revolucionária", o novo Podcast Plus d'O Observador. A cada terça-feira sai um novo episódio, mas se é assinante Standard ou Premium d'O Observador, não tem de esperar para ouvir a série completa que já está disponível no nosso site.

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