4 destaques — e um problema — do show do Helloween em São Paulo

Banda trouxe sua turnê de 40 anos para a Suhai Music Hall, em apresentação marcada por entrosamento entre vocalistas, boas escolhas de setlist e som embolado
Igor Miranda (@igormirandasite)
Exceção feita ao período de pandemia, o Helloween nunca ficou tanto tempo sem vir ao Brasil como agora. Três anos e cinco meses após um show arrasador no Monsters of Rock 2023, a banda alemã de power metal retornou ao país, parada obrigatória de suas turnês desde 1996, para dois shows: em Porto Alegre, na última quarta-feira, 16, e São Paulo, no sábado, 19.

A performance na capital paulista, realizada na Suhai Music Hall e com ingressos esgotados, encerrou a agenda de 2026 da atual tour, comemorativa dos 40 anos de fundação do grupo. Há uma década, eles são um septeto, reunido com integrantes de diferentes eras para fazer justiça ao seu legado e construir uma nova história. Michael Kiske (voz), Andi Deris (voz), Kai Hansen (guitarra e voz), Michael Weikath (guitarra), Sascha Gerstner (guitarra), Markus Grosskopf (baixo) e Daniel Löble (bateria) são os membros atuais.

Confira abaixo uma lista de destaques positivos — e um, infelizmente, negativo — do show feito pelo Helloween em São Paulo, de acordo com o jornalista Igor Miranda. O conteúdo foi retirado do site IgorMiranda.com.br.
1) As vozes — e seus entrosamentos
Embalados por um instrumental irretocável, Michael Kiske e Andi Deris são os capitães da festa. Para além de conduzirem a plateia — com destaque a Deris, um frontman e tanto — e terem o show desenhado de modo a privilegiar suas interações, cantam uma barbaridade. Kiske, aos 58 anos de idade, preserva alcance vocal muito similar ao que demonstrava em seus 20 e poucos, bem como timbre e capacidade de interpretação raríssimos. É um dos maiores de seu ofício da história do heavy metal. Deris, 62, sabe disso, então assume um papel de coadjuvante de luxo. Fora que está cada vez melhor desde que passou a dividir a função — e a se desgastar menos — com o retorno de Michael.

2) Escolha de setlist
Para a atual turnê, comemorativa de seus 40 anos de história, o Helloween fez algumas escolhas surpreendentes. Resgatou “March of Time” e ainda a colocou na abertura, voltou a tocar “The King of a 1000 Years” (é incrível ouvi-la com Kiske junto a Deris) e retomou “We Burn”, “Twilight of the Gods” e “Hey Lord!”. Alguns cortes precisaram ocorrer — a exemplo de “If I Could Fly”, “How Many Tears” e “Forever and One (Neverland)” — e a “fase Andi” segue pouco representada, mas é a vida. E os clássicos incontestáveis seguem lá, então ninguém saiu chateado desse show.
Na apresentação em São Paulo, houve espaço até para “I’m Alive”, tocada ao vivo pela primeira vez nesta tour, ainda que presença constante em excursões anteriores. Para sua entrada, o grupo abdicou de “Hell Was Made in Heaven” e do trecho acústico de “In the Middle of a Heartbeat”.

3) De Elvis a Beatles
Um dos momentos mais incríveis do show consistiu em dois trechos inusitados de músicas que não são do Helloween. Antes de se preparar para uma versão parcialmente acústica de “A Tale That Wasn’t Right” junto a Andi Deris, Michael Kiske pegou o violão e começou a cantar e tocar “Suspicious Minds” (Elvis Presley, seu ídolo máximo) e “Yesterday” (Beatles). Mais uma demonstração do poderio de sua voz: o alemão, consagrado pelos agudos impressionantes, também é capaz de desfilar uma interpretação delicada e profunda.
4) Acerta até quando erra
Até quando o Helloween erra, acaba acertando. Três passagens chamaram atenção nesse sentido. Logo na abertura, “March of Time”, Dani Löble faz a virada de encerramento do solo antes que este acabe de fato. O baterista logo percebe e tenta reverter, mas não retoma o andamento original por completo. O resultado fica mais “reto”. Felizmente, não compromete. Já em “I’m Alive”, Michael Kiske volta a cantar antes do fim do solo — e fica com uma impagável cara de tacho quando percebe o equívoco. Já no bis, em “Eagle Fly Free”, o mesmo Kiske se perde após o primeiro refrão e deixa de exercer sua função em dois momentos, em busca de tentar pegar o jeito novamente.
Nenhum desses erros comprometeu a performance de modo decisivo. Tem até um charme ao mostrar uma banda tocando verdadeiramente ao vivo, em tempos nos quais o uso de material pré-gravado se torna cada vez mais recorrente no âmbito dos shows.

O problema: o som
O único ponto realmente negativo da apresentação do último sábado, 19, residiu na qualidade do som, que, embora tenha melhorado um pouco, esteve embolado e estridente ao longo de quase toda a noite — ao menos em pontos específicos das pistas premium e comum. Não combinou com a produção visual de palco, talvez uma das mais caprichadas do metal na atualidade, seja pelas belas artes de telão, os curiosos interlúdios narrados pelo “Keeper” ou jogo de iluminação climático a depender da canção. De resto, tudo nos trinques.
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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Jornalismo Digital. Começou em 2007 a escrever sobre música, com foco em rock e heavy metal. É colaborador da Rolling Stone Brasil desde 2022 e mantém o site próprio IgorMiranda.com.br. Também trabalhou para veículos como Whiplash.Net, revista Roadie Crew, portal Cifras, site/canal Ei Nerd e revista Guitarload, entre outros. Instagram e outras redes: @igormirandasite.
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