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Friday, September 11, 2026

Tarifas não conterão China, que tem como impulso concorrência interna acirrada, diz economista

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A escalada protecionista promovida pelos Estados Unidos e pela União Europeia não será capaz de frear o avanço industrial e tecnológico da China, que é impulsionado por um modelo que há décadas promove uma competição interna acirrada por crescimento.

A avaliação é do economista chinês Hongbin Li, professor da Universidade Stanford, ex-docente da Universidade Tsinghua e autor de "The Highest Exam: How the Gaokao Shapes China" ("O Exame Supremo: Como o Gaokao Molda a China", que não foi publicado no Brasil), no qual escreve sobre o vestibular chinês, herdado de um milenar exame imperial.

Considerado uma das principais referências globais em desenvolvimento do país asiático, ele diz que as tarifas protegem setores ineficientes nas economias ocidentais sem alterar a dinâmica de mercado.
A liderança chinesa em setores como o de veículos elétricos decorre, para ele, de uma concorrência interna implacável, e não unicamente de subsídios estatais.

Segundo o economista, esse ambiente ultracompetitivo, no qual autoridades públicas locais disputam metas de crescimento econômico como executivos de empresas, gerou um excesso de capacidade instalada que não cabe apenas no consumo doméstico.

Na entrevista, Li analisa ainda as raízes históricas do Gaokao e explica por que a rápida automação das fábricas chinesas pressiona o emprego e mantém o consumo doméstico como o principal nó estrutural de Pequim.

Como resposta às restrições no Ocidente, o economista projeta que as empresas chinesas acelerarão as vendas e a migração de investimentos produtivos em mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Abaixo, os principais trechos da conversa com o economista, que esteve em São Paulo entre os dias 19 e 21 de agosto para participar do Encontro Anual de Líderes da Fundação Estudar.

O sr. é autor de um livro sobre o Gaokao, o maior vestibular do mundo. Como esse exame ajuda a explicar a economia chinesa?
O Gaokao é o exame nacional de admissão ao ensino superior na China, realizado aos 18 anos, após 12 anos de educação formal.

Cerca de 15 milhões de estudantes prestam o Gaokao a cada ano, e o ensino superior chinês admite cerca de 30 milhões de alunos anualmente no total de matrículas e cursos, ou seja, cerca de metade dos alunos de universidades do mundo todo.

É um sistema muito grande. Como o resultado define o acesso às melhores universidades, a preparação começa muito cedo, aos quatro ou cinco anos, com os estudantes passando por uma sucessão de testes ao longo de toda a vida escolar. O Gaokao foi instituído nos anos 1950 por Mao Tsé-Tung, mas deriva diretamente do exame imperial chinês (Keju), criado há cerca de 1.400 anos, na Dinastia Sui.

Na hierarquia social tradicional da China, havia quatro classes: no topo, os altos funcionários públicos (mandarins); em segundo, os camponeses e agricultores; em terceiro, os artesãos e trabalhadores técnicos; e, na base, os comerciantes.

China, terra do meio

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Historicamente, os cargos oficiais eram hereditários. Para quebrar o poder das famílias locais e garantir lealdade direta ao trono, o imperador criou o exame imperial: qualquer pessoa aprovada tornava-se funcionário público. Era uma ferramenta de governança política. Tratava-se de um mecanismo arcaico de meritocracia para promover mobilidade social e estabilidade política, com reflexos atuais.

É importante ter em mente que o teste não nasceu como um projeto pedagógico, mas como uma ferramenta de gestão estatal, para o imperador governar o país. E até hoje os formados pelas melhores universidades ainda buscam frequentemente carreiras no setor público.

A China expandiu a educação de forma dramática, e a economia chinesa cresceu cerca de 10% por muitos anos, por 30 anos. Hoje ainda é mais lento, mas ainda é 5%.

Todas as pessoas querem entrar na universidade na China. Essa é a maneira de se movimentar na sociedade, as pessoas acreditam nisso.

Como você vê o atual estado da economia chinesa, e o que esperar para o futuro?
No meu livro, eu chamo o sistema de exames da China de um torneio de hierarquia centralizado. E uma das razões pelas quais a China cresce tão rapidamente é relacionada a isso.

Quando a China começou as reformas nos anos 70, com Deng Xiaoping, o país ainda era uma economia planejada, não havia mercado. As autoridades públicas, que no nível local dominam a economia, controlavam todos os recursos, e não tinham incentivos para usar recursos para o desenvolvimento econômico e crescimento econômico.

Então, o governo central decidiu usar o crescimento econômico como um indicador de desempenho para avaliar as autoridades públicas locais, para fazê-los competir uns contra os outros. Qualquer coisa que possa crescer na economia local será promovida.

É por isso que quando você vai para a China e encontra autoridades públicas, eles não parecem com políticos, parece com empreendedores. Querem atrair investimentos internacionais, promover negócios privados.

É claro que esse sistema não é perfeito, tem seus próprios problemas, porque as autoridades públicas locais só se importam com o crescimento, e ignoram outros pontos como a desigualdade, o meio ambiente, outros pontos que são importantes para a sociedade.

Hoje a China aborda isso incluindo outras metas na avaliação local, mas o crescimento ainda está no centro da avaliação das autoridades públicas locais. Isso é muito importante para entender a China.

Esse modelo explica o sucesso da economia chinesa?
Sim. Por exemplo, hoje na China existem 500 empresas de veículos elétricos. Muitas cidades têm fábricas de veículos elétricos, e por isso quando você vai para a China e olha os carros, não consegue reconhecer os modelos, porque há muitos.

Isso significa que há uma competição intensa, que produz tanto que os chineses não conseguem consumir. Por isso vão vender para fora. A maioria dessas empresas de veículos elétricos não poderão sobreviver no futuro, e muitas serão forçadas a fechar. Mas se 30 sobreviverem, serão as melhores, por causa da competição. Quando pensamos no sucesso da China, a razão não é que o governo dá subsídios. A principal razão é por causa da competição.

As forças do mercado são muito importantes, você tem que reduzir custos para sobreviver. É por isso que conseguem fazer carros tão bem desenhados, tão funcionais, mas ao mesmo tempo muito baratos.Isso é muito importante para entender de onde vem e para onde a China está indo. É um mercado tão competitivo que você pode imaginar que muitas novas tecnologias virão da China no futuro, especialmente na manufatura.

Esse é um lado da economia. O outro é que o consumo está fraco, diferentemente da economia da Europa ou dos EUA. A produção é muito forte, mas o consumo é fraco.

Por que o consumo está enfraquecido na China?
A China fez um bom trabalho nas últimas quatro ou cinco décadas, transferindo o trabalho da agricultura para a manufatura. Mas o problema hoje é que a manufatura não está contratando muitas pessoas.
Há muitos robôs na China. Eu já visitei talvez mais de mil fábricas na minha vida, 50 delas em um ano. A maioria dos economistas senta em seu escritório escrevendo papers, eu gosto de visitar fábricas.

Já visitei uma cidade com cerca de 300 mil pessoas onde o foco é a produção de armações de óculos, onde havia muitas clínicas especializadas em reparar dedos. Isso porque usavam uma máquina muito pesada para pressionar as hastes, e era muito fácil colocar o dedo por acidente na máquina. Isso foi nos anos 1990. Hoje você vai à fábrica e não tem ninguém, são máquinas, é tudo automático.

Então no futuro vai ser cada vez mais difícil criar empregos de baixa habilidade. Isso significa que você só pode criar empregos de alta habilidade, basicamente aqueles engenheiros que operam as máquinas.

Com isso, ou as pessoas não trabalham ou estão no setor de serviços, que está em toda a China, como a entrega de alimentos. Mas mesmo nesse setor há máquinas fazendo o trabalho das pessoas, como máquinas de entrega de comida em hotéis. Você pega o elevador e tem essa pequena máquina entregando comida. Isso tudo é desafiador para a criação de empregos e criação de renda para os pobres. Não é fácil, e o governo sabe disso.

Folha Mercado

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Como as tarifas atingem a China? Isso pode significar maiores investimentos em países emergentes?
Não é surpreendente que outros países imponham tarifas à China, porque há muitos fabricantes de produtos eficientes e mais baratos.

Para ser franco, as tarifas não podem lidar com essa questão, porque a crença econômica da China é da eficiência. Se você tem uma tarifa, é sinal que suas empresas não são eficientes o suficiente.

Qual é a melhor estratégia? A China, na década de 1980, não tinha nenhuma fábrica de automóveis. O que ela fez? Deixou todas as companhias de automóveis irem para a China, para produzir, vender automóveis a clientes chineses.

A Volkswagen mudou a produção para a China para produzir um modelo chamado Santana, e teve muito sucesso, porque o mercado era muito grande. E hoje as empresas alemãs querem ter empreendimentos na China com tecnologia chinesa, para produzir veículos elétricos, vendidos somente no mercado chinês. Querem ficar lá para permanecer competitivos, aprender para poder produzir carros melhores na Alemanha.

O mercado mundial é grande o suficiente para receber os produtos e investimentos chineses, em especial os países emergentes como o Brasil.

RAIO-X | Hongbin Li

Professor titular da Universidade Stanford e codiretor do Stanford Center on China’s Economy and Institutions. Economista, dedica sua pesquisa à transição e ao desenvolvimento da economia chinesa, investigando temas como capital humano e mercado de trabalho

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