‘100 Dias’ é uma bela homenagem a um brasileiro que ousou não desistir

Longa, que relembra a jornada de Amyr Klink para atravessar o Atlântico em 100 dias, estreia no Festival do Rio neste sábado (10)
Henrique Nascimento (@hc_nascimento)
Em 1992, quando nasci, Amyr Klink poderia ter cruzado o Atlântico, refazendo o percurso de Lüderitz, na Namíbia, à Praia da Espera, na Bahia, quase trinta vezes. Apesar de impressionante, o feito demorou muitos anos para chegar ao meu conhecimento, perdido em meio a diversas trocas de gerações desde que o navegante ousou se lançar sozinho ao mar naquele mês de junho de 1984, em um barco a remo, para entrar para a história.
À época, o acontecimento virou notícia, depois um livro autoral — Cem Dias Entre Céu e Mar, que entrou para a lista dos mais vendidos no Brasil —, e agora chega aos cinemas em 100 Dias, que faz a sua estreia na 28ª edição do Festival do Rio neste sábado (10).
Dirigido por Carlos Saldanha (A Era do Gelo, Cidade Invisível) — que era apaixonado pela história de Amyr na adolescência e dedicou cerca de oito anos de sua vida ao projeto antes de vê-lo chegar às telonas —, o longa acompanha a odisseia do navegante desde o seu primeiro dia, com todos os seus desafios e riscos, em um jornada para provar a si mesmo que era capaz do que quer que colocasse o seu empenho.
Enquanto Amyr navega, visitamos lembranças do navegante e nos aproximamos de sua história. Nós nunca o conhecemos em sua totalidade, mas acompanhamos como a viagem derruba paredes levantadas pela arrogância da juventude e aquela certeza totalmente equivocada que temos, quando jovens, de que já sabemos tudo sobre todas as coisas.
Entre céu e mar, Amyr lida com os mais diversos sentimentos: medo, solidão e frustração, mas também felicidade, alegria e tantos outros. Filipe Bragança, que despontou na carreira de ator no remake de Chiquititas (2013-2015), é o responsável por conduzir o espectador por esses momentos. Ao ser questionado por este jornalista sobre como acessou essas emoções a partir de uma experiência tão única quanto a de Amyr, o ator foi direto e raso: “Ah, é o meu trabalho.”
O destaque fica, então, para o trabalho de Saldanha. Com anos de experiência em animação, o cineasta sabe como trabalhar com imagens e entrega um espetáculo estonteante, que vão desde cenas mais simples, como uma dança em família durante uma festa de rua, até um encontro de Amyr com baleias — para mim, uma das cenas mais lindas de todo o longa.
Não vejo Amyr Klink como um herói nacional, como muitos o veem, mas um brasileiro nato, representante de um povo que, quando quer algo, corre atrás e consegue. E 100 Dias é um filme à altura de seu feito. Uma conquista pessoal, sim, mas que o coloca entre personalidades como Fernanda Montenegro, Ayrton Senna, Pelé, Maria Bethânia, Chico Buarque, Sônia Braga, Oscar Niemeyer, Gilberto Gil, Wagner Moura, Gal Costa, Walter Salles, Caetano Veloso, Kleber Mendonça Filho e tantos outros, que nos dão orgulho de ser brasileiro.
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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, em São Paulo, Henrique Nascimento começou como estagiário na Veja São Paulo e passou por veículos como SBT, Exitoína, Yahoo! Brasil e UOL antes de se tornar coordenador do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.
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