Trump impulsiona campanha com ataques pessoais e difamações em disputa pelo Senado
Na terça-feira (3), cidadãos americanos vão às urnas eleger representantes das casas legislativas do país nas midterms, ou eleições de meio de mandato. Em meio à queda de popularidade do presidente Donald Trump, líder do Partido Republicano, seus correligionários usam difamação e ataques pessoais contra adversários na campanha.
No Kansas, o senador Roger Marshall, republicano que se vê em disputa apertada, afirmou, sem qualquer fundamento, que seu adversário democrata "provavelmente está aliciando crianças".
No Texas, os republicanos têm retratado James Talarico, candidato democrata ao Senado, como uma "aberração" e insinuado que ele é gay, vegano às escondidas e obcecado por crianças transgênero por ter feito declarações em apoio a elas no passado.
Já no Michigan, os republicanos têm atacado Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado, com declarações islamofóbicas. O presidente Donald Trump descreveu El-Sayed como um "jihadista cruel e violento".
Diante da reação negativa à alta dos preços e tentando superar a impopularidade do presidente, republicanos de todo o país têm difamado seus adversários com ataques falsos, incendiários e profundamente pessoais na reta final do pleito.
Eles seguem o exemplo de um presidente que repetidamente reescreveu as regras do discurso aceitável na política dos Estados Unidos. Poucos ataques enfrentaram resistência dentro do partido, mas alguns republicanos dizem estar preocupados com essa tendência de agressividade.
"É terrível", disse o ex-senador Jeff Flake, republicano do Arizona e crítico de Trump. Flake, que apoia candidatos dos dois partidos nas eleições de meio de mandato, afirmou que os republicanos haviam enveredado por um caminho sombrio em sua comunicação: "Fomos nos tornando cada vez mais grosseiros, rudes e vulgares. Parece que chegamos a um novo patamar".
A estratégia corre o risco de afastar eleitores moderados que consideram a retórica exagerada ou ofensiva, disseram analistas políticos. Mas ela pode ser eficaz para mobilizar a base republicana. Os democratas, que condenaram amplamente os ataques republicanos, temem que essas mensagens convençam alguns eleitores.
Os próprios democratas também recorreram, por vezes, a ataques marcadamente pessoais, acusando republicanos de corrupção. E alguns democratas imitaram a abordagem grosseira do presidente: o gabinete do governador da Califórnia, Gavin Newsom, por exemplo, publicou mensagens nas redes sociais neste ano sugerindo que vários conservadores eram gays.
Contudo, nestas eleições de meio de mandato, os ataques republicanos se destacam pela virulência.
Há muito tempo, as campanhas políticas dos Estados Unidos são inundadas por ataques negativos e duvidosos de ambos os partidos —em falas de debates, propagandas televisionadas e discursos de campanha—, mas este ciclo acirrado pode estabelecer um novo padrão.
Alguns cientistas políticos avaliam que esta temporada eleitoral degenerou na campanha mais negativa e sombria da história moderna dos Estados Unidos.
"É a pior", disse Christina Greer, professora de ciência política da Universidade Fordham. Ela atribuiu o tom ao desejo dos candidatos de formatar suas mensagens para as redes sociais e ao fato de os republicanos imitarem Trump: "Ele abriu um portal para a degradação do nosso sistema eleitoral".
No Texas, o vice-presidente JD Vance insinuou em um comício que Talarico era gay, provocando suspiros de espanto na multidão. "Um sujeito dessa idade tão obcecado e concentrado em crianças transgênero – não sei quanto a vocês, mas eu jamais gostaria de ver o histórico da internet desse sujeito", acrescentou Vance, referindo-se a declarações anteriores de Talarico em apoio a jovens transgênero.
Talarico tem namorada. O ataque fazia parte de um amplo esforço republicano para retratá-lo como extremista. Com isso, Trump passou a se referir a Talarico como "Talafreako" (algo como "Talaestranho", em tradução livre do inglês).
Uma porta-voz do Comitê Nacional Republicano do Senado sugeriu que os democratas haviam provocado os ataques contra si mesmos. Em comunicado, a porta-voz, Bernadette Breslin, afirmou que El-Sayed havia "prometido apoio" a um regime terrorista e disse que, "se Talarico não queria ser chamado de inimigo da carne, não deveria ter anunciado que sua campanha se tornaria vegana".
Os candidatos democratas rebateram as afirmações. El-Sayed disse ser leal à Constituição dos Estados Unidos. Talarico afirmou não ser vegano e que sua campanha "funciona à base de churrasco".
A Casa Branca não respondeu de imediato a um pedido de comentário do jornal.
Lá Fora
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Flake disse que a grosseria de alguns ataques republicanos decorria de uma combinação de desespero dentro do partido e imitação de Trump. Mas afirmou ver um "lado positivo" na reação negativa enfrentada por alguns dos "imitadores" de Trump, como nas críticas republicanas a uma propaganda eleitoral que ganhou repercussão na disputa pelo governo de Ohio.
O anúncio foi produzido pela campanha de Vivek Ramaswamy, candidato republicano a governador. O comercial apresentava a mãe de sua adversária democrata, Amy Acton. Ela já declarou não falar com a mãe desde os 12 anos, quando seu padrasto foi acusado de estuprá-la.
O atual governador de Ohio, o republicano Mike DeWine, classificou o anúncio como "profundamente, profundamente perturbador", embora Trump e Vance o tenham defendido.
O ex-presidente Barack Obama, durante um comício em Ohio, disse estar perplexo com o fato de que "os padrões de comportamento tenham caído tanto a ponto de alguém poder veicular um anúncio como esse".
Outros ataques republicanos passaram praticamente sem contestação dentro do partido. Depois que Marshall insinuou que seu adversário democrata, Adam Hamilton, era um "aliciador de crianças," não houve críticas republicanas significativas.
E não houve indignação entre os republicanos depois que Trump usou um insulto transfóbico para se referir à candidata democrata ao Senado na Carolina do Sul, Annie Andrews, chamando-a de "Annie Traveco". Andrews é uma mulher cisgênero.
Um porta-voz de Hamilton, Tyson Brody, afirmou em comunicado que Marshall estava "recorrendo a difamações cada vez mais desequilibradas e inexplicáveis". Andrews divulgou um anúncio no qual disse não apoiar a participação de mulheres transgênero em esportes femininos nem cirurgias de transição de gênero em menores.
Durante a campanha em Michigan, Mike Rogers, candidato republicano ao Senado, tem levado com frequência apoiadores que questionam a lealdade de El-Sayed aos Estados Unidos.
Em um comício de Rogers em Plainwell, no estado do Michigan, na quinta-feira (29), o senador Tim Sheehy, republicano de Montana, disse à multidão: "É melhor vocês terem medo", sugerindo que apoiar El-Sayed seria um passo em direção à adoção da lei islâmica em Michigan. "Do outro lado desta disputa, temos um islamista radical que odeia este país."
Questionado mais tarde sobre as declarações de Sheehy, Rogers disse aos repórteres: "Vocês não me ouviram dizer nenhuma dessas coisas".
El-Sayed afirmou em um comício no domingo que "toda a campanha" de Rogers consiste em apontar para ele, seu nome e sua fé.
"Mas meu nome e minha fé não são o motivo pelo qual vocês não conseguem pagar pela gasolina", disse El-Sayed. "Meu nome e minha fé não são o motivo pelo qual vocês não conseguem comprar mantimentos."
Ataques islamofóbicos há muito fazem parte da política dos Estados Unidos. No passado, porém, candidatos dos dois partidos procuravam rechaçá-los. Em 2008, o candidato republicano à Presidência, o senador John McCain, defendeu seu adversário, Barack Obama, quando uma mulher em um comício disse não confiar nele porque "ele é árabe". McCain respondeu: "Não, senhora, ele é um homem de família decente".
Neste ano, os democratas dizem temer que os ataques islamofóbicos contra El-Sayed tenham repercutido entre alguns eleitores e estejam prejudicando suas chances em uma disputa crucial na batalha pelo controle do Senado.
"Não vou dizer que sejam os piores e mais horríveis de todos os tempos", afirmou Mike McGuinness, prefeito democrata de Pontiac, Michigan, sobre os ataques republicanos à fé e às origens de El-Sayed. "Mas eles certamente são fortes candidatos a entrar para o Hall da Fama."
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