A artimanha de Morgado

Na semana passada, no espaço televisivo de que dispõe, Miguel Morgado anatematizou dez deputados portugueses do Parlamento Europeu e proclamou-os indignos de voltar a usar com propriedade a palavra democracia. Como estou incluído nessa infamante lista de democraticidas, entendi ter a obrigação de esclarecer o assunto de modo a não correr o risco, por omissão preguiçosa, de passar a ter o estatuto público de um adulador de tiranos e tiranetes. Não era possível desfazer o equívoco sem desvelar a artimanha do seu autor. Morgado, desprezando o dever de rigor a que se deveria sentir ética e intelectualmente vinculado, cometeu uma infração mental simplista que se resume em escassas palavras: confundiu a parte com o todo, identificou uma moção concreta da autoria da direita democrática e de alguma extrema-direita com uma declaração geral e apartidária de solidariedade com Ceuta. Ao dizer “a moção”, em vez de “uma moção”, absolutiza o que é relativo, unifica o que é parcial. O método é velho. Confesso que me causou estranheza a sua utilização por Miguel Morgado. Estranheza e desilusão.
Num curto texto que escrevi, pela razão acima apontada, limitei-me a dizer o óbvio e pensei que o caso ficava encerrado. Não ficou. Miguel Morgado, na sua coluna do Observador, voltou ao tema e renovou as considerações ardilosas e ofensivas. Não perderei tempo com algumas minúsculas perfídias que salpicam o artigo e têm mais a ver com o histrionismo do estilo do que com a substância do texto. Limito-me ao que julgo que realmente importa e merece ser contraditado e esclarecido.
Comecemos pelo mais básico: votar contra uma moção que enfermava, a meu ver, do vício de tudo subordinar ao objectivo de atacar o Governo espanhol, não só não significa menosprezar o dever de solidariedade com Ceuta, como até tem o sentido oposto. O tema é demasiado sério para se admitir a contemporização com aproveitamentos partidários circunstanciais. Exigia-se um consenso entre as grandes famílias políticas estruturantes da vida democrática europeia. Tal não foi possível por um motivo claro: o PP quis aproveitar a ocasião para erodir e isolar um Governo confrontado com uma circunstância especialmente difícil e condicionou nesse sentido, com o seu peso, a família política europeia que integra, o PPE.
Ora, isto permite-me passar ao segundo ponto que quero abordar. Miguel Morgado acusa-me de sectarismo, de cultivar um espírito de seita, de não ter autonomia suficiente para criticar o Primeiro-Ministro espanhol. Aqui entramos no campo do delírio. Miguel Morgado não desconhecerá, por certo, a minha ruptura pública com a direcção do meu próprio partido aquando do surgimento da famigerada geringonça e do longo período em que o meu único horizonte era o da solidão política. Sempre pensei e agi como um homem livre. Há quem o proclame, eu tenho o privilégio de dizer que o pratico. De o dizer e de o demonstrar com factos concretos. A título de exemplo, refiro apenas as posições que recentemente assumi sobre a Venezuela e sobre Cuba. É por isso mesmo que não reconheço ao Miguel Morgado a autoridade para pôr em causa o meu apego à liberdade crítica ou o meu compromisso com a democracia.
Na minha reação às considerações de Miguel Morgado, apelei à dimensão liberal presente no posicionamento político de alguém que se apresenta como um respeitável conservador. Entendo que há aspectos da tradição liberal que são nosso património comum e devem ser reforçados neste tempo tão afeito a fanatismos e dogmatismos primários. Quando me lembram o meu lado liberal, levo sempre isso em conta de um elogio. Pelos vistos o Miguel Morgado toma isso como pouco menos que um insulto.
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