Canções para a Crise da Habitação

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Esta semana no Isto Não Passa na Rádio, o tema é: canções para a crise da habitação.
"There's a house on my block that's abandoned and cold. The folks moved out of it a long time ago. And they took all their things, and they never came back. It looks like it's haunted with the windows all cracked. Everyone calls it the house, the house where nobody lives. Once it held laughter, once it held dreams. Did they throw it away? Did they know what it means? Did someone's heart break? Or did someone do somebody wrong? Well, the paint is all cracked. It was peeled off of the wood. The papers were stacked on the porch where I stood. And the weeds had grown up just as high as the door. There were birds in the chimney and an old chest of drawers. It looks like no one will ever come back to the house where nobody lives. Oh, once it held laughter, once it held dreams. Did they throw it away? They know what that means. Did someone's heart break? Or did someone do somebody wrong? So if you find someone, someone to have, someone to hold. Don't trade it for silver, oh, don't trade it for gold. 'Cause I have all of life's treasures and they're fine and they're good. They remind me that houses are just made of wood. What makes a house grand? Oh, it ain't the roof or the doors. If there's love in a house, it's a palace for sure. But without love, it ain't nothing but a house, a house where nobody lives."
Como se fosse preciso apresentá-lo, Tom Waits, na abertura do Isto Não Passa na Rádio. "House Where Nobody Lives", escolha do Tiago Pereira para um programa com canções para a crise da habitação. São muitas as que de alguma forma tocam nesse tema. Essa ideia de casa, de conforto, de lar, de sítio a que pertencemos e a que queremos sempre regressar, mesmo quando andamos a viajar pelo mundo. São várias as ideias que podem incorporar aqui as escolhas que fizemos esta semana de canções para a crise da habitação. Olá, Tiago. Bem-vindo.
Olá, Nelson. Foi uma introdução bonita.
Foi a que se conseguiu arranjar.
Só faltou dizer uma coisa: nós temos canções, mas não temos soluções.
É verdade, infelizmente, porque esta era uma crise que precisa de soluções.
Pois é.
O Tom Waits é um tipo que canta muito bem.
Canta muito bem, ainda que algumas pessoas, uma porção, espero que ínfima, da humanidade não concorde.
São pessoas que não interessam a ninguém.
São pessoas que têm problemas. Ainda assim, também lhes desejo uma casa. Vê lá como eu sou.
Mas essa já não tem solução.
Olha, "House Where Nobody Lives", canção de 1999 do álbum "Mule Variations". Não sei se se aplica esta expressão ao Tom Waits, não é um gajo necessariamente pop. É um tipo menos comercial.
É o disco mais pop, talvez.
Talvez o maior sucesso comercial dele. É o álbum mais domesticado, mais radio friendly, eventualmente, com mais gêneros. Tem várias destas pseudo baladas. Esta é uma canção em que a personagem diz que há uma casa no seu quarteirão, onde já viveu gente, agora não vive ninguém há muito tempo. Em tempos teve uma família, carinho, amor, etc. E agora não tem nada. E no fim ele diz: "Pois, uma casa, mas uma casa é só um pedaço de paredes, se não tiver pessoas e amor dentro". Verdade, mas também dá jeito ter a casa antes pra poder depois pôr lá a família. Portanto, é uma pescadinha de rabo na boca.
É o ovo e a galinha, o que é que nasce primeiro? O amor da família ou é preciso uma casa para crescer?
Eu acho que as duas coisas ajudam-se mutuamente, parece-me a mim, e complementam-se. E o título é muito interessante, que é uma casa onde não vive ninguém. Diz quem sabe, não sou eu que não sou especialista.
Eu não, também não.
Não sou jurista.
Também não sou jurista.
Mas diz por aí, há números sobre isso.
Parece que há bastantes.
Muita casa-
Bastantes até
...sem ninguém viver. É triste.
É um bocadinho.
É triste.
Olha, fui um bocadinho básico na minha primeira escolha, porque lembrei-me da "Minha Casinha". Claro que a versão dos Xutos & Pontapés é mais conhecida e acho que já poucos não saberão que se trata de um original, não dos Xutos & Pontapés, mas que começou por ser interpretado pela Milu. A "Minha Casinha" também surge no filme "A Costa do Castelo", em 1943, mas pelas internets encontramos diferentes versões da Milu a cantar a "Minha Casinha", com diferentes orquestrações.
Milu que teria feito 100 anos este ano.
É?
É verdade.
Olha, parabéns.
Mas foi em 1926.
E ela canta, de resto, o tema no filme de 1943, "Costa do Castelo". Mas vamos a uma outra versão não tão afadistada da Milu a cantar a "Minha Casinha", que entronca um bocadinho naquilo que estávamos a dizer das famílias, o sítio onde se cresce.
Claro.
Ela diz que parece que é na casa dos pobres onde há sempre mais alegria.
Que saudades eu já tinha da minha alegre casinha, tão modesta como eu. Como é bom meu Deus morar assim no primeiro andar, a contar vindo do céu. O meu quarto lembra um ninho e o seu teto é tão baixinho que eu ao ir pra me deitar, abro a porta em tom discreto, digo sempre: "Senhor teto, por favor, deixe-me entrar". Tudo podem ter os nobres ou os ricos de algum dia, mas quase sempre o lar dos pobres tem mais alegria. De manhã salto da cama e ao som dos pregões d'Alfama, trato de me levantar. Porque o sol, meu namorado, rompe as frestas do telhado e a sorrir vem me acordar. Corro então toda ladina, minha casa pequenina vem dizendo só que estou. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer, diz o povo e tem razão. Tudo podem ter os nobres ou os ricos de algum dia, mas quase sempre o lar dos pobres tem mais alegria.
Os pobres têm mais alegria, Tiago. E a casinha da Milu é modesta, é em Alfama, é um primeiro andar.
Sim, temos que contextualizar esta canção no seu tempo, no seu período.
É verdade.
Mas eu gosto muito da versão. Retiremos o essencial.
Eu gosto muito de ouvir a Milu a cantar a "Minha Casinha".
Claro, e bem. Só estou a falar aqui de uma filosofia intrínseca.
Claro. Era aquele Portugal, amigo.
Como dizia, pobretes, mas alegretes.
Exatamente.
Pois é.
Olha, "A Casa do Manel", de B Fachada, escolha do Tiago Pereira. Por quê, Tiago?
Porque a casa do Manel, pra já é o B Fachada, eu gosto muito do B Fachada. Às vezes passamos demasiado tempo sem ouvir o B Fachada. Ele em 2010 editou o "B Fachada é para meninos", que é supostamente um disco para crianças. Pronto, e depois nós vamos ouvir aquilo do alto da nossa idade adulta e percebemos que afinal isso também é pra mim, porque é pra toda gente, isso é que é bonito. E esta cantiga é a história de um garoto que vai à casa do Manel, que vai lá pra brincar, pra conversar, para imaginar como é que ele e o amigo vão ser quando forem mais grandes, para fazerem memórias, entendes, Nelson? Porque as casas também servem pra isto.
É verdade.
Para construir memórias e para teres um sítio onde regressar. É bom regressar a casa.
Até não é? Principalmente quando estamos fora.
E é isso. E pronto. E, portanto, vamos à casa do Manel.
Fui a casa do Manel para conviver, talvez para conversar. Ver as miúdas passar, brincar. Fugir e desaparecer. Esquecer a escola e o dever. Fazer as coisas por prazer. Fantasiar com grandes perigos, fazer planos muito amigos para viver. Daqui a muitos anos, os dois num país qualquer. Tu na frente e eu atrás, a defender, talvez a conquistar. Um golo para te ver marcar e festejar. Contigo mais um versus inimigo para escrever, na história que há de se contar. Se a Guida agora está a olhar, vou-te dizer: aproveita para fintar, que esta aula já está quase a terminar. Vim da praia com os meus pais ao fim do dia, a pensar na companhia, do meu amigo a cantar e eu a tocar. Fazemos um rock selvagem, escondidos numa garagem, que a tua tia consentiu em emprestar. Canções de tipas mais crescidas, letras bem desenvolvidas, que eu invento depois do jantar. Naquelas horas que não temos para brincar.
Bem fechada a casa do Manel. Esta semana no Isto Não Passa na Rádio temos canções para a crise da habitação. Este universo do lar e da nossa casa está aqui a ser explorado também com as nossas escolhas. E lembrei-me de uma canção chamada "To Build a Home", que é difícil hoje em dia, imagina.
É muito difícil.
Já é difícil alugar ou comprar, quanto mais construir.
Sim, está aí uma bela ideia.
Cinematic Orchestra, 2007, o álbum "Ma Fleur", e aqui a colaboração com o Patrick Watson. Fui buscar a versão mais curta desta canção, uma espécie de radio edit ou album edit, que é mais curta do que os seis minutos do original desta "To Build a Home", que depois foi uma música também muito usada em anúncios, bandas sonoras. Não sei se hoje em dia, se ela fosse de agora, seria muito usada em TikToks, mas lembra-me que a "To Build a Home" serviu para sonorizar muitas outras coisas e achei interessante trazê-la aqui também, porque tem uma sonoridade bastante diferente daquela que estamos a explorar nesta primeira parte. Já regressamos com mais canções que nos remetem para este ambiente da habitação.
Out in the garden where we planted the seeds. There is a tree as old as me. Branches were soiled by the colour of green. Ground had arose and passed its knees. By the cracks of its skin, I climbed to the top. I climbed the tree to see the world. When the gusts came around to blow me down. Held on as tightly as you held on me. Held on as tightly as you held on me.
Canções para casas, para a crise da habitação. É o mote para as nossas escolhas no Isto Não Passa na Rádio esta semana. Eu sou o Nelson Ferreira, está por cá o Tiago Pereira. Olá, Tiago, bem-vindo de volta.
Cá estamos.
Escolheste o Dan Auerbach?
Sim.
"Going Home".
Sim, quando o Dan Auerbach ainda era-
Dos Black Keys?
Não, ele continua a ser, mas agora está aborrecido.
Com os Black Keys?
Sim.
Ok.
É o que eu acho. Também vale o que vale.
Sentes que eles estão chateados?
Não!
Ele lançou um disco há pouco tempo, há um ano.
Sim, mas andam em círculos.
É a mesma coisa.
Andam em círculos.
Ok.
E então, o que eu acho? Acho que ele em 2009 fez um álbum a solo. Ele sozinho com as suas dores, as suas angústias, os seus dilemas.
E alguma coisa diz respeito?
Sim, senhor. É um belíssimo disco. No ano a seguir-
Gosto muito de um projeto que eles têm, que é Black Rock.
Sim.
Que é meio pop. Gosto desse disco.
É verdade. No ano a seguir, não sei se te lembras, saiu o Brothers, o álbum que talvez tenha dado a fama global aos Black Keys. É um ótimo disco. Podemos dizer que foi o momento de graça desta rapaziada. Ele fez este álbum a solo, que é uma coisa muito rock, blues e muito americano, ele lá no seu estúdio com as suas guitarras. Gosto muito, tem belas canções e tem esta cantiga, que é a cantiga que fecha o disco, que é um clichê enorme, que é fechar o disco com uma canção que diz: "Adeus, vou para casa".
É quase dizer: "Vou regressar aos Black Keys".
Sim, pois. E foi. E a canção é: "Eu estive fora, fiz aquilo que podia fazer e quis fazer, e fiz isto e vi aquilo, mas agora vou para casa". Eis que dizíamos, Nelson, há bocado, isto de voltar para casa é uma maravilha e até dá ótimas canções.
"Going Home", Dan Auerbach. Tinha uma canção deste género, Tiago, que vou deixar de fora, o "Coming Home" do Leon Bridges. Foi um dos primeiros grandes sucessos também do Leon Bridges. Tem um pouco essa ideia de regressar a casa depois de ter viajado muito, ter andado em turnê. E esse regresso a casa sempre tão desejado por quem viaja muito.
Ainda bem que não escolheste o "Burning Down the House".
Não, mas lembrei-me, claro. Lembrei-me também da "Casa no Campo" da Capicua. Faz parte do disco de estreia de 2012 da Capicua, mas depois acabei por trazer aqui a versão que ela gravou com o Miss Isaac em 2014 no álbum "Sereia Louca".
É para expressares um desejo teu.
É um desejo de todos nós. Uma casa no campo.
Ou na praia.
Ou na praia. Se bem que eu acho que o que a Capicua até se refere aqui é ao facto de viver no campo, ser a sua primeira habitação e não ter essa conotação de a casa no campo ser a segunda casa.
Sim, aquela mudança para a ruralidade.
A mudança definitiva e fazer dessa a sua casa principal. Parece-me que é um pouco por aqui que vai a letra desta canção da Capicua, que é supertalentosa e que também captou bem esse sentimento de uma casa num ambiente mais rural, que pode ter muito mais vida do que algumas urbanas nesse ponto de vista, de ter a porta sempre aberta, de ter animais, de ter mais plantas, de ter quintal. É uma ideia bastante idílica numa altura em que se discute crise da habitação, poder sonhar com tanto espaço. Isso era o que todos nós desejaríamos e gosto muito da descrição que é feita nesta "Casa no Campo" da Capicua.
Eu sei o que eu quero. Quero, de preferência, não sair da minha casa. Aquela casa, especificamente, essa casa. Eu sei que eu não vou abrir mão da minha horta. Isso não é questão de idade, eu acho que isso é uma questão de oposição. Eu quero uma casa no campo como Elis Regina. Plantar os discos, os livros e quem sabe uma menina. Por mim até podem ser mais, um amor como os meus pais. Os dias como os demais, sem serem todos iguais. Casa no campo com a porta sempre aberta. Deixar entrar amigos, partir à descoberta. Ter a minha cama grande, a colcha predileta e um cão desobediente em cima da coberta. Eu quero uma casa completa com um pedaço de terra e com o espaço quero tempo. Adormecer na relva, longe da selva de cimento. Eu acrescento que quero cultivar mais do que mero conhecimento. Quero uma horta do outro lado da porta e quero a sorte de estar pronta quando a morte me colher. Quero uma porta do outro lado da morte e ter porte de mulher forte quando a vida me escolher. Quero uma casa no campo que cheire a flores e frutos, gomas e sucos, doces e sumos. Cozinhar para quem quer comer, comer como sei viver. Com apetite, já disse que não quero emagrecer. Comer de colher de sopa, fazer pão, estender a roupa. Faço pouco das bocas que me dizem para crescer. Eu quero rasgar janelas nas paredes cujas pedras carregar com as mãos que uso para escrever. Casa no campo com lareira e fogo brando, que ilumine todo o ano o sorriso de quem amo. Quero uma casa no campo que pode ser na cidade, mas tem de ser de verdade, mesmo não tendo morada.
Onde é que aprendeste o que é o infinito?
Foi na contracapa de um livro da Anita.
Diz-me qual é o teu perfume favorito.
Pão quente, terra molhada e manjericão.
Onde é que aprendeste o que é o infinito?
Foi na contracapa de um livro da Anita.
Diz-me qual é o teu perfume favorito.
Pão quente, terra molhada e manjericão.
Diz-me qual é o teu perfume favorito.
Pão quente, terra molhada e manjericão.
Pão quente, terra molhada e manjericão.
"Anda viver comigo, colamos o nosso umbigo e não passaremos frio no nosso lugar estranho. Anda viver comigo, colamos o nosso umbigo e não passaremos frio no nosso lugar estranho."
Capicua com "Mr. Isaac" em "Casa no Campo", a versão acústica que faz parte do disco "Sereia Louca". Há uma versão com DJ One e Pedro Geraldes em 2012 no disco de estreia de Capicua. Gosto muito desta "Casa no Campo", gostava de ter uma, quem sabe um dia, não vai acontecer da maneira que as coisas estão. E o Tiago gostava de ter uma casa em Itália.
Nem desta, nem de outra.
Sim, é o que é. Olha, por que a Itália? Por quê?
Eu acho que é sempre bom voltar.
Espaguete.
E a Mina passa por aqui, volta e meia.
É verdade.
E ela em 60 gravou esta-
Tu e as tuas italianices.
Sim, gravou esta canção "Il Cielo in una Stanza", que é o céu num quarto.
Ok.
É uma canção romântica sobre como é possível estar num quarto aparentemente fechado, mas estás tão feliz que dali vês o mundo.
É o teu mundinho. É um bocado essa a ideia.
Como se não houvesse teto. Ora é bonito, é uma imagem bonita, mas eu volto a insistir nisto. Para isso, tens que primeiro ter a casa, para depois poder estar lá e imaginar que para lá daquelas quatro paredes e daquele teto, há toda uma fantasia, um mundo, uma alegria e um sonho.
Tinhas aquelas estrelinhas que davam cor para pôr no teto.
Não tenho nada disso. E portanto, queria só deixar aqui esta nota: para sonhar é preciso ter os pés na terra. Neste caso, ter um teto ajuda a sonhar, porque senão não sonhas, só te preocupas, sem nunca arranjar uma solução e isso é desagradável. Olha, gira aí.
Mina, escolha do Tiago Pereira no Isto Não Passa na Rádio, quase a fechar a edição desta semana com canções para a crise na habitação. E eu fui aqui buscar uma canção para fechar, que também vai um bocadinho a um assunto que já aqui falámos, que é essa ideia da casa onde crescemos, a casa da nossa infância, o que é que aconteceu a essa casa e esse sentimento sempre muito nostálgico que temos em relação a esse espaço, que é o quarto onde crescemos, a casa onde crescemos. Foi mais ou menos isso que cantou a Françoise Hardy no "La Maison où j'ai grandi", exactamente, a casa onde eu cresci. De resto, para um álbum com o mesmo nome de 1966 E que olha com nostalgia para essa entidade quase que é a casa.
Tu não foste capaz de ver-me escolher Itália e não trazeres aqui uma francesa.
É verdade. Acho que ficava bem aqui uma coisa bem europeia. Até porque a crise da habitação é uma coisa europeia.
Uma pessoa a comer canoli e tu tens que comer um croissant?
E porque não? São duas grandes cozinhas.
Eu por mim junto os dois.
Vamos a isso. E é com essa junção que fechamos o Isto Não Passa na Rádio esta semana. Estamos de regresso hoje a uma semana com mais canções para um outro tema qualquer. Um abraço, Tiago.
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