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Sunday, October 18, 2026

Por que voltar a ser iniciante assusta quem já chegou à liderança

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ARTIGO: Construir uma reputação de competência traz confiança, mas também pode aumentar o medo de experimentar — e limitar o que ainda podemos aprender

Liderança  (Gorodenkoff/Shutterstock)
Liderança (Gorodenkoff/Shutterstock)

Publicado em 18 de outubro de 2026 às 07:00.

RESUMO +

Ao estrear como colunista, a autora reflete sobre liderança e vulnerabilidade e questiona se a reputação de competência pode reduzir a disposição para experimentar algo novo. A partir das ideias de Brené Brown e de um curso sobre resiliência e ansiedade no HarvardX, ela relata o medo de escrever e destaca o desafio de aceitar novamente o papel de iniciante.

Existe uma contradição curiosa em ocupar posições de liderança por muitos anos. Quanto mais avançamos na carreira, mais construímos experiência, confiança e reputação em determinados territórios. Sabemos onde somos bons, conhecemos nossas fortalezas e nos acostumamos a transitar por situações complexas com algum repertório. Talvez por isso seja especialmente desconfortável decidir sair desse lugar e experimentar algo completamente novo, onde toda a experiência acumulada não garante que seremos bons.

Quanto da nossa disposição para experimentar algo novo se perde à medida que construímos uma reputação de competência?

Essa reflexão me fez voltar a Brené Brown e à sua definição de vulnerabilidade. Ela não fala de vulnerabilidade como fraqueza, mas como aquilo que experimentamos diante da incerteza, do risco e da exposição emocional. Talvez exista pouca coisa mais vulnerável, depois de muitos anos construindo competência e reputação, do que escolher entrar em um território no qual ainda não sabemos se seremos bons.

Foi exatamente o que aconteceu comigo quando recebi o convite para escrever esta coluna.

Passei boa parte da minha vida profissional falando. Reuniões, apresentações, conversas, entrevistas, palcos. Adoro contar histórias e nunca tive muito medo de uma plateia. Na escola já era assim: falar, eu estava sempre falando. Escrever era outra história.

Quando percebi que estava entrando voluntariamente em um território no qual não tinha nenhuma certeza de que era boa, “paniquei”. Aprendi o verbo com uma ex-chefe inglesa. Provavelmente uma tradução livre de to panic, mas achei perfeita. Quem nunca conjugou o verbo “panicar”?

Meu coração acelerou e rapidamente apareceu aquela conhecida voz interna: “Como alguém vai se interessar pelo que eu tenho para escrever? Não tenho nada tão incrível assim para dizer.” Minha primeira reação foi achar graça da intensidade da reação. Afinal, era só escrever um artigo.

Então comecei a pensar que talvez o desconforto não estivesse exatamente em escrever. Talvez estivesse em outra coisa. Depois de décadas construindo experiência, competência e reputação em determinados territórios, é bastante desconfortável escolher entrar em um novo papel no qual nenhuma dessas coisas garante que seremos bons.

Pouco antes desse convite, eu havia terminado um curso sobre resiliência e ansiedade, no HarvardX. Uma das ideias que mais me marcou foi simples: evitar aquilo que nos causa medo pode trazer alívio no curto prazo, mas também pode contribuir para mantê-lo. Aproximar-se gradualmente daquilo que tememos nos permite testar se a ameaça é realmente aquela que imaginávamos.

Eu tinha estudado isso pensando em medos bem diferentes. De repente, estava diante de um pequeno laboratório particular. O convite chegou. Eu paniquei. Minha cabeça rapidamente produziu uma lista bastante convincente de razões pelas quais talvez eu não devesse fazer aquilo.

Então pensei: talvez seja justamente aqui que eu precise colocar em prática algo que acabei de estudar. Sentei para escrever e aconteceu uma coisa interessante. Lembrei de uma época em que escrever não me assustava absolutamente nada.

Na infância e na adolescência, eu tinha diário. Como tantas meninas da minha geração, escrevia páginas e páginas sem pensar se escrevia bem. Não havia audiência, likes, comentários ou algoritmo e, principalmente, não havia julgamento, pelo menos não de fora. O diário era só meu. Ali eu escrevia sobre amizades, namoricos, brigas, medos, tristezas, alegrias, sonhos. Tentava dar nome ao que sentia, voltava a situações que não tinha entendido, fazia planos, mudava de ideia.

Mas existe uma diferença entre aquela menina e a mulher que está escrevendo este texto. Aos 15 anos, eu não tinha uma reputação profissional para proteger, não precisava demonstrar competência, ninguém iria avaliar. Não precisava ser boa. Décadas depois, a situação é bem diferente.

Quanto mais construímos uma trajetória, mais acumulamos experiência e confiança naquilo que sabemos fazer. Passamos anos desenvolvendo competências, aprendendo com erros, reconhecendo nossas forças e entendendo onde podemos contribuir. Passamos também a ser reconhecidos por isso. Esse reconhecimento é bom. Construir uma reputação de competência é resultado de muito trabalho. Mas talvez exista um lado menos óbvio dessa conquista.

Quanto mais somos reconhecidos pelo que fazemos bem, mais desconfortável pode ser entrar em um território onde ainda não sabemos se seremos bons.

Ser iniciante pode parecer mais arriscado quando já nos acostumamos a ser experientes. Podemos não ser bons. Podemos ser julgados. Podemos descobrir que aquilo que nos fez competentes em um território não nos garante absolutamente nada no seguinte.

Talvez o medo não seja apenas o de fracassar. Talvez exista também o medo de contradizer a imagem de competência que levamos tanto tempo para construir. Porque, ao longo de uma carreira, não construímos apenas um currículo. Construímos também uma narrativa sobre quem somos: sou boa nisso, é isso que sei fazer, é aqui que agrego valor, é assim que as pessoas me reconhecem.

Essas certezas ajudam a construir nossa identidade profissional. Fiquei pensando se elas também podem, em algum momento, começar a delimitar nosso território. Talvez esse seja um paradoxo especialmente relevante para quem ocupa posições de liderança.

Quanto mais avançamos, mais somos chamados a decidir, orientar e transmitir segurança. Ao mesmo tempo, continuar aprendendo exige quase o movimento contrário. Exige fazer uma pergunta que talvez pareça óbvia, pedir ajuda, admitir que não sabemos, começar alguma coisa em que outras pessoas têm muito mais experiência, mostrar um trabalho sem saber exatamente como ele será recebido. Exige aceitar, por algum tempo, não ser tão bom.

Brené Brown tem uma expressão de que gosto bastante: vulnerability hangover. Aquela espécie de ressaca que aparece depois que nos expomos e começamos a pensar: “Por que eu fiz isso?” Vulnerabilidade é muito mais confortável quando falamos sobre ela em teoria do que quando somos nós que estamos vulneráveis. Talvez ser iniciante tenha um pouco disso.

A experiência nos dá repertório, confiança e capacidade de julgamento. Não há nada de errado em querer preservar tudo isso. Mas talvez valha perguntar qual é o preço quando, junto com essa segurança, começamos também a proteger demais a imagem de competência que construímos.

E a pergunta que fica para mim é:

Será que proteger demais a reputação que construímos pode, em algum momento, começar a limitar aquilo que ainda podemos nos tornar?

Não tenho a resposta.

Sei que ainda estou com medo de não ser boa escrevendo esta coluna. Suspeito que, depois de apertar “enviar”, vou experimentar minha primeira vulnerability hangover como colunista. Talvez seja exatamente esse o ponto: depois de muitos anos sendo reconhecida pelo que sei fazer, estou escolhendo experimentar algo novo sem a segurança de saber se serei boa.

Fazia tempo que eu não me sentia iniciante.

'Perguntas frequentes'

Por que experimentar algo novo pode ser difícil para líderes experientes? +

Segundo a autora, profissionais experientes podem temer que o desempenho em um novo território contradiga a reputação de competência construída ao longo da carreira. Ser iniciante exige admitir dúvidas, pedir ajuda e aceitar a possibilidade de não ser bom de imediato.

O que é vulnerabilidade segundo Brené Brown? +

Segundo Brené Brown, vulnerabilidade é aquilo que uma pessoa experimenta diante da incerteza, do risco e da exposição emocional. A autora associa essa definição à decisão de assumir um papel no qual ainda não sabe se terá um bom desempenho.

Por que a autora teve medo de escrever a coluna? +

A autora teve medo porque, apesar da experiência com reuniões, entrevistas, apresentações e palcos, não possuía a mesma confiança na escrita. O convite despertou dúvidas sobre o interesse dos leitores e sobre sua capacidade como colunista.

O que a autora aprendeu no curso sobre resiliência e ansiedade? +

Em um curso no HarvardX, a autora aprendeu que evitar situações que causam medo pode trazer alívio no curto prazo, mas também contribuir para manter esse medo. A aproximação gradual permite testar se a ameaça corresponde ao que a pessoa imaginava.

O que significa vulnerability hangover? +

Vulnerability hangover, expressão de Brené Brown citada pela autora, é a espécie de ressaca que surge após uma exposição emocional. É o momento em que a pessoa questiona por que decidiu se mostrar vulnerável.

Como a reputação profissional pode limitar o aprendizado? +

Na reflexão da autora, a reputação pode limitar o aprendizado quando preservar uma imagem de competência se torna mais importante do que entrar em territórios desconhecidos. A questão central é se essa proteção excessiva reduz as possibilidades de transformação profissional.

Para quem decide. Por quem decide.

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Claudia Neufeld é conselheira da Make-A-Wish Brasil, Senior Advisor e mentora de executivos. Com quase 30 anos de carreira, foi VP de Marketing e CMO da Disney Brasil por dez anos, com passagens por Unilever, Faber-Castell e Digipix.

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