Brasileiro demonstra manobra consagrada em 'Jornada nas Estrelas'
O físico brasileiro Nickolas de Aguiar Alves, estudante de doutorado pela UFABC (Universidade Federal do ABC) e atualmente na Escola Normal Superior, na Itália, analisou uma das mais impressionantes manobras de voo espacial apresentadas na saga "Jornada nas Estrelas", que acabou de completar 60 anos na última terça-feira (8). E a tal Manobra Picard funciona mesmo.
Trata-se de algo que acontece em um dos primeiros episódios de "Jornada nas Estrelas: A Nova Geração", série estrelada por Patrick Stewart como o capitão Jean-Luc Picard. No episódio "A Batalha", vemos uma manobra que Picard teria usado para se esquivar de uma nave inimiga, fazendo com que sua própria nave parecesse estar em dois lugares ao mesmo tempo.
O truque só é possível porque, no universo fictício da série, há a tecnologia de dobra espacial, que permite que a nave viaje mais depressa que a luz. Picard ali ordenou apenas um pequeno pulso de dobra, fazendo com que, por um breve período, a nave ultrapassasse os próprios raios de luz que havia emitido antes de entrar em dobra. Da nova posição, mais próxima, a luz chegaria mais depressa, fazendo com que a nave aparecesse em dois lugares ao mesmo tempo, confundindo os inimigos.
O episódio é de 1987, mas Alves só o viu pela primeira vez em 2021, o que serviu como inspiração inicial. "Eu queria eventualmente fazer um trabalho sobre a manobra, mas não tinha ideia do que eu poderia falar sobre que os físicos já não soubessem muito bem", diz.
A sacada só veio mesmo em julho deste ano, quando ele voltou sua atenção para o fato de que, embora viagem acima da velocidade da luz no vácuo seja província exclusiva da ficção científica, não é esse o caso quando se fala de objetos viajando em um meio material. Em algumas circunstâncias, eles podem viajar mais depressa que a luz (naquele meio específico). Alves tentava entender certos processos desse tipo envolvendo partículas e desenhou alguns diagramas que o remeteram ao que vira no episódio. "Acho que físicos trabalhando com outras coisas parecidas já sabiam desse tipo de coisa. Porém, ao longo dos meus estudos, ninguém tinha me falado! Por isso decidi escrever um artigo pedagógico explicando esse efeito."
O estudo foi aceito para publicação no American Journal of Physics e mostra que a Manobra Picard poderia mesmo funcionar, mas seria um pouco diferente da vista no episódio. Não haveria apenas duas imagens da nave (uma da posição inicial e outra da final), mas também uma terceira imagem, em razão da aceleração envolvida. "Em certo sentido, o episódio mostra uma terceira imagem, porque mostra um borrão. Porém, tem alguns detalhes incorretos: a imagem nova aparece antes do borrão, e o borrão deveria aparecer de trás para a frente", explica Alves. "Vale mencionar também que esse efeito de ver a nave ‘andando para trás’ mostra como é estranho pensar sobre coisas andando mais rápido do que a luz."
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Ainda não é um caminho de pesquisa para desenvolvermos dobra espacial, mas é um lembrete potente de como a ficção científica em geral, e "Jornada nas Estrelas" em particular, pode instigar a curiosidade científica e a paixão pelo conhecimento. Talvez nunca consigamos viajar pelas estrelas mais depressa que a luz, mas, na nossa imaginação, já estamos lá.
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