'Tradwives' vão ao cinema e à literatura em retratos ácidos de mulheres submissas
A influenciadora Virgínia, cristã e conservadora, trabalha ensinando mulheres a cuidar da casa, do marido e dos filhos. Nas redes sociais, ela propaga seus credos e diz que toda mulher de bem deveria segui-los. Virgínia ganha dinheiro com isso.
Essa influenciadora fictícia protagoniza o filme "Virtuosas", que leva aos cinemas um retrato crítico das chamadas "tradwives", ou esposas tradicionais. O termo se refere a mulheres que defendem uma divisão tradicional de papéis de gênero, na qual o homem é o provedor e a mulher se dedica à casa, à família e a Deus.
O filme, que estreou na quinta-feira, dia 24, importa para o cinema brasileiro um debate que se alastra por obras internacionais. No livro americano "Bons Tempos", por exemplo, uma influenciadora "tradwife" é transportada para o século 19 para ver como era viver sem direitos básicos.
Provocativa, a obra viralizou no TikTok e escalou ao topo da lista de mais vendidos dos principais jornais dos Estados Unidos. Um filme já foi encomendado. O livro britânico "A Dona de Casa Perfeita", por sua vez, narra como a fachada de uma "tradwife" é ameaçada quando outras mulheres decidem investigar o passado dela.
Há uma razão para essa onda, diz Cíntia Domit Bittar, a diretora do filme "Virtuosas". "As ‘tradwives’ são personagens ambíguas, algo sedutor para a dramaturgia."
O filme dela irritou mulheres conservadoras antes mesmo de estrear. A influenciadora e empresária Marina Lenk, por exemplo, usou o Instagram para dizer aos 642 mil seguidores que "Virtuosas" foi feito para "ridicularizar as mulheres cristãs que estão em busca de sua melhor versão".
Lenk disse isso sem ter visto o filme. Ela fez o vídeo tendo como base apenas o trailer de dois minutos. "Não vi nem vou ver", afirma em entrevista. A mineira não se considera uma "tradwife", e diz que ainda está em busca de se tornar uma virtuosa.
A expressão mulher virtuosa é bíblica. Consta no versículo 31:10, parte do livro dos Provérbios, do Antigo Testamento. A mulher virtuosa só pode fazer bem ao marido, acorda antes do raiar do Sol, e prepara a comida da família, segundo a Nova Versão Internacional da Bíblia. Mais adiante, o provérbio afirma que ela "entrega-se com vontade ao seu trabalho" e que "administra bem o seu comércio lucrativo". O texto pode variar em cada versão da Bíblia.
Por causa desses trechos, Lenk diz se sentir legitimada por Deus para ser submissa ao marido e também trabalhar fora. É diferente do modelo mais difundido pelas "tradwives", que defendem a dedicação exclusiva às funções domésticas, embora elas também se guiem pelo texto bíblico.
"Muitas virtuosas defendem as carreiras, mas isso é contraditório", afirma Bittar, a diretora de "Virtuosas". "É importante ter dinheiro e sucesso, só que há um teto simbólico. O homem ainda precisa ser o provedor."
A catarinense pesquisa há quase 20 anos o avanço do conservadorismo e do fundamentalismo religioso no Brasil. Bittar já fez curtas e queria estrear na direção de um longa-metragem falando de negacionismo. Na época da pandemia, quando as "tradwives" viralizaram nas redes, pensou que elas rendiam um filme.
Enquanto estudava, a diretora descobriu mais acerca das virtuosas. No Brasil, essa ideia já foi propagada por diversos grupos religiosos, geralmente evangélicos.
Um exemplo é o Godllywood, criado por Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo. O grupo surgiu nos Estados Unidos em 2009 e foi trazido ao país no ano seguinte. Em encontros femininos, Cardoso dizia querer resgatar o que considerava a essência da mulher tradicional, criada por Deus.
Reuniões desse tipo ainda existem e migraram para o ambiente digital, com comunidades em aplicativos como o WhatsApp. Bittar, a cineasta, diz que o provérbio da mulher virtuosa vem sendo distorcido numa estratégia de controle por meio da fé.
"É importante que existam espaços para mulheres nas igrejas. O problema é quando eles são usados para o retrocesso. É perigoso uma mulher ouvir de outra que mulheres não deveriam votar, por exemplo". Para ela, "Virtuosas" se encaixa no gênero terror. "Não um com Freddy Krueger, ou como ‘O Exorcista’, mas é. Me assusta um movimento que busque o retrocesso."
Isso atormenta também a britânica Sarah Clarke Child, que escreveu o livro "A Dona de Casa Perfeita" com o pseudônimo Liane Child. "Suspenses envolvem narradores não confiáveis", diz.
As ‘tradwives’, segue dizendo a escritora Sarah Clarke Child, funcionam tão bem em histórias de suspense por terem uma narrativa que é pouco confiável. "Elas vendem seu estilo de vida como fácil, mas há luzes, tripés e edição por trás dessa suposta simplicidade. Vivem uma mentira."
Child atualiza uma discussão que já apareceu em obras antigas. Exemplo é o livro "O Conto da Aia", de Margaret Atwood, que leva a submissão feminina ao extremo. Na história publicada em 1985, mulheres perdem a autonomia e são estupradas para gerar filhos à casais da elite. O livro rendeu as séries de TV "The Handmaid’s Tale" e "Os Testamentos".
No Brasil, a editora Darkside, especializada em suspense e horror, relançou "Mulheres Perfeitas", de Ira Levin, dizendo que a história se relaciona ao fenômeno "tradwife". O livro, porém, saiu em 1972, cinco décadas antes do termo ganhar popularidade.
Há quem veja o provérbio da mulher virtuosa de forma mais positiva. Elas não deveriam ser entendidas como passivas, mas figuras de sabedoria e autoridade, afirma a dissertação de Beatriz Cavalcanti de Sant’Anna, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, a USP.
Bittar, a diretora, preferiu exagerar na alegoria para escancarar seu desgosto. Por isso, no filme, fez da protagonista uma pessoa irredutível e persuasiva. Virgínia é uma vilã, aos olhos da cineasta.
Virgínia ensina suas pupilas a acordar às 5h30 para preparar marmitas. Mostra depois como elas devem pôr para dormir os bebês, e ainda ensina a arrumar a mesa de jantar. No fim do dia, dá dicas de como gravar vídeos para as redes. "Se existissem dez Virgínias, o Brasil já teria endireitado", afirma uma das personagens.
A ironia é que existe mesmo no país uma influenciadora chamada Virgina Fonseca, com 56 milhões de seguidores no Instagram. Mas é só uma coincidência que, afirma a diretora.
A atriz Bruna Linzmeyer, que dá vida à personagem, diz que usou as redes sociais para entender como se comportam mulheres virtuosas. Ela se inspirou também em mulheres da política. De corte chanel e roupas muito alinhadas, o visual da personagem lembra o de Michelle Bolsonaro, mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro, candidata ao Senado.
"Michelle não foi uma referência direta", afirma Linzmeyer. "Mas o cinema dá imagens
e você relaciona com seu repertório. Se as pessoas estão enxergando a Michele, isso diz algo."
O filme abre com uma palestra de Virgínia, inspirada nos encontros entre mulheres virtuosas que a diretora estudou. Bittar diz ter ouvido em uma palestra que mulheres casadas devem transar mesmo sem
vontade porque isso é tão essencial quanto escovar os dentes.
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