Vale a pena arriscar 600 mil euros para partilhar jornais?

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Vamos falar de uma coisa que não se fala tanto quanto se devia. A rubrica chama-se "Não Fala de Outra Coisa", mas era preciso falar mais disso. Falar do luto, da importância de fazer o luto como deve ser, do impacto que o luto, o sofrimento após a morte de um familiar, uma pessoa próxima, tem a todos os níveis: na saúde psicológica, na saúde física, também no rendimento no trabalho. E isto a propósito de uma entrevista dada por Karl Becker, um professor emérito da Universidade de Kyoto, ao "Público". Ele é investigador, dedica-se ao estudo da morte e dos processos de luto. É uma entrevista muito interessante, foi publicada na passada sexta-feira, e que levanta várias questões sobre a forma cada vez mais diferente em relação ao passado, como vivemos o luto, como fazemos o luto e o impacto que isso pode ter na saúde das pessoas e na quantidade de pessoas que podem ser afetadas por isso. Ele diz que a maioria das pessoas que vivenciam o luto, talvez 80% ou mais, não sofre grandes alterações na sua condição físico-psicológica. No entanto, há cerca de 14%, talvez até 18% das pessoas, que sofrem alterações médicas, físicas e psicológicas, e estas condições colocam peso adicional no sistema de saúde. Ele dá o exemplo do Japão, onde existe uma população muito envelhecida, tal como é em Portugal, o que significa que nos próximos 20 anos, uma parte significativa desta população irá morrer naturalmente, com todas as consequências que depois advêm daí para as pessoas, para os familiares e todas as perturbações que daí podem resultar. Ele diz que o luto pode ter, e tem, um impacto na produtividade laboral, não só no absentismo, mas também naquilo que ele chama presenteísmo. O regresso, não é? O regresso, mas em que as pessoas de facto não estão em condições para trabalhar, estão muito longe disso. Ele dá aqui um exemplo de um estudo nos Estados Unidos, que em média, por morte, perdem-se $ 9 mil por ano devido ao absentismo e $ 10 mil por ano devido ao presenteísmo. Este é o nome que ele dá e significa cerca de $ 19 mil por morte. Eu acho que esta seja a informação mais relevante. Quando lhe perguntam quais os principais fatores que contribuem para uma maior dificuldade em lidar com o processo de luto, ele dá aqui vários casos, várias situações que podem contribuir para essa dificuldade. Claro, tem a ver com o grupo etário, com o parentesco, a forma como a pessoa morreu. Há muitos outros elementos, mas ele diz que o fator mais significativo depois no impacto da forma de lidar com o luto, foi a satisfação com a cerimônia fúnebre. Os rituais são importantes. Os rituais são importantíssimos. Ele diz que quando as pessoas têm uma experiência positiva com o funeral, a probabilidade de desenvolverem efeitos adversos na saúde é significativamente menor. E há dois fatores aqui que acabam por ter peso na insatisfação com as cerimônias fúnebres. O primeiro está relacionado com as pessoas que estão presentes no funeral. De início, muitas pessoas não se importam que o funeral seja pequeno, não sentem necessidade de convidar determinadas pessoas. No entanto, isso pode ter um efeito posterior, mais tarde. E também porque as pessoas presentes no funeral têm uma maior tendência a contactar a pessoa depois, para saber como está. Como é que está, como é que está a reagir. Para convidar, por exemplo, para tomar um café. E o segundo fator está relacionado com a forma com que o agente funerário lida com a família, com aquela pessoa em particular. Sentir que só está preocupado com o negócio, isso tem um impacto negativo na forma como a pessoa experiencia o luto. E por último, a questão da presença de muitas pessoas no funeral. É aqui que ele diz, nesta resposta, em média, cerca de 10% das pessoas que participam no funeral irão mais tarde contactar a pessoa em luto. E ele acha que é muito preocupante este dado. Nas sociedades ocidentais, atualmente, há uma diminuição do número de pessoas que assistem aos funerais, e ele acredita que isso pode ter um impacto grande na saúde, na forma como se vive o luto. Também o fato de as crianças hoje já não serem levadas aos funerais, não terem esse contato. São poupadas. São poupadas. Ele diz que as crianças que têm contato com a pessoa que morreu acabam por ter benefícios a médio prazo para a sua vida psicológica, para a sua saúde, até física. Ele diz que é importante esse contato com a morte, sobretudo em sociedades em que a morte foi hospitalizada. A maior parte das mortes ocorre em contexto hospitalar, ou seja, deixou de haver esta proximidade com a morte. É uma entrevista muito interessante, está no "Público", é um tema que me interessa bastante e sobre o qual acho que deveríamos todos refletir.
Vamos agora falar não da morte de pessoas, mas de práticas que levam à morte de jornais. É um caso inédito de dois homens que vão ser julgados por partilharem jornais online. E a história começa há mais de nove anos, quando um homem de 42 anos que vivia na Suíça decidiu montar um esquema de pirataria de imprensa. Eu penso que já todos nós recebemos nos últimos anos, com maior ou menor frequência, versões integrais de jornais e revistas em PDF que amigos enviam. Neste caso, era um esquema industrial. O arguido comprava assinaturas digitais legítimas, estas claro, de várias publicações portuguesas. O objetivo era apenas o de ficar com os ficheiros, ficar com a versão PDF de jornais e revistas e depois partilhar ilegalmente na internet. E para financiar o pagamento destas assinaturas, ele pedia contribuições financeiras aos próprios utilizadores da rede. Era todo um negócio. Era todo um negócio, ele era um intermediário, no fundo. E com este apoio, ele foi criando e geriu canais em plataformas de mensagens digitais, nomeadamente no Telegram, onde disponibilizava gratuitamente os ficheiros em PDF a milhares de membros. E o alerta no setor surgiu no verão de 2020, já lá vão uns aninhos, quando o grupo Impresa, o grupo do Expresso e da SIC, descobriu que as edições digitais do jornal Expresso estavam a ser distribuídas em massa. O grupo alertou de imediato as autoridades e alterou a forma como os assinantes aciam ao jornal e avançou também com queixa-crime para tentar travar o prejuízo financeiro. Entretanto, o esquema ganhou novas dimensões com a entrada de um segundo suspeito, um sargento da Força Aérea Portuguesa, 37 anos. Ele passou a colaborar neste tal grupo do Telegram e expandiu a divulgação das notícias através de páginas próprias nas redes sociais e nos anos seguintes, a justiça e as empresas tecnológicas começaram a fechar o cerco. Decisões dos tribunais em 2021 e 2022 e da própria plataforma do Telegram resultaram no bloqueio de dezenas de canais, mas a comunidade de pirataria principal, esta já somava cerca de 10 mil membros ativos. As investigações do Ministério Público chegam agora ao fim. O processo está agora numa fase que entra num campo inédito. É a primeira vez em Portugal que a partilha ilícita de jornais online chega a tribunal, com uma acusação feita. Os homens são acusados dos crimes de usurpação e aproveitamento da obra usurpada. E neste julgamento, a empresa exige uma indemnização superior a 630 mil euros pelos prejuízos causados. E se forem considerados culpados, os dois arguidos incorrem em penas de prisão também que podem ir até aos três anos, além, obviamente, das pesadas multas, coimas financeiras. De facto, aquelas partilhas que muitas vezes chegam a nós são coisas de amigos, é aquela solidariedade de amigos. Portanto, aquela pirataria do bem, se quisermos. Aqui não era a pirataria do bem. Aqui era um negócio, só lhes faltava mesmo escrever as notícias, não é investigar, escrever as notícias.
E pagar aos jornalistas.
E pagar aos jornalistas, já agora. O correto eles faziam pelos vistos e faziam bem.
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