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Saturday, October 24, 2026

Aquilo que tem mesmo de saber sobre o Estripador de Lisboa

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Agora que o Podcast Plus do Observador deu origem a uma peça de teatro imersivo, contamos o que tem mesmo de saber sobre os crimes e a investigação ao Estripador de Lisboa.

31 de julho de 1992, Póvoa de Santo Adrião. Quando a brigada de homicídios da Polícia Judiciária chegou ao barracão onde tinha sido encontrado o corpo seminu de uma mulher, percebeu imediatamente que não estava perante apenas mais um crime — e eram muitos os que, nessa altura, chegavam diariamente ao piquete, consequência de uma crise social impulsionada pela pobreza e, sobretudo, pela toxicodependência, que atingia valores recorde.

Quando analisaram a vítima, os agentes da PJ souberam logo que aquele não tinha sido um crime dito comum. A mulher não tinha sido assaltada, conservava num dos sapatos várias notas, quatro mil escudos no total. Em contrapartida, estava praticamente irreconhecível e coberta de sangue, tal tinha sido a violência do ataque de que tinha sido alvo. Na barriga tinha um corte profundo, longitudinal, através do qual lhe tinham sido arrancados os intestinos.

Aquilo que a PJ não tinha como saber é que aquele não seria um crime isolado. Dentro de alguns meses, surgiria outra vítima. E depois outra; sempre mulheres, sempre prostitutas, o modus operandi do assassino a revelar-se mais aprimorado a cada morte.

Apesar de todas as diligências da polícia, o assassino em série, que rapidamente ganhou nome nos corredores da sede da Gomes Freire e nas páginas dos jornais — “Estripador de Lisboa” — nunca seria apanhado. Apesar do pânico generalizado, também não voltaria a matar.

“A Caça ao Estripador de Lisboa”: o Podcast Plus do Observador transforma-se em espectáculo de teatro imersivo

O caso, que acabaria arquivado, é ainda hoje considerado um dos maiores falhanços dos homicídios da Polícia Judiciária portuguesa, que na altura tinha uma taxa de resolução que rondava os 90%.

Agora que o Podcast Plus do Observador que recuperou toda a história dos crimes e da investigação acaba de ser adaptado à cena, estas são as quatro coisas que tem mesmo de saber sobre “A Caça ao Estripador de Lisboa”. A peça de teatro imersivo, com o mesmo nome, estreia já na próxima quarta-feira, dia 28 de outubro, nas instalações da Comunidade Hindu, em Lisboa.

As vítimas

Maria Valentina Pereira Lopes tinha 22 anos e foi a primeira, a vítima encontrada deitada no chão de um armazém de produtos químicos na Póvoa de Santo Adrião, nos arredores de Lisboa. Como as outras duas que lhe haviam de suceder, mortas às mãos do Estripador de Lisboa, era prostituta.

Chamavam-lhe Tina. Vivia no bairro da Quinta da Quintinha, na Póvoa de Santo Adrião, com os pais, três sobrinhos, ainda menores, e quatro irmãos. No total, tinha oito: metade rapazes, metade raparigas, uma delas sua gémea.

A família vivia com dificuldades. Tina deixou a escola no fim do ciclo preparatório, altura em que começou a fumar haxixe, e com apenas 13 anos evoluiu para drogas mais pesadas. Quando foi assassinada, “injetava cerca de 15 a 18 contos de heroína por dia”, contou um dos seus irmãos à polícia. Seria justamente para pagar a droga que se prostituía.

A partir do momento em que o corpo dela foi encontrado, rodeado de lixo e entulho num barracão devoluto por baixo da linha de comboio, junto à estação de Entrecampos, tudo mudou. A morte de Fernanda tinha evidentemente sido cometida pela mesma pessoa. Também naquele caso o assassino tinha levado consigo parte dos intestinos da vítima. Mas havia diferenças

Maria Fernanda Matos não era toxicodependente. Tinha 24 anos e, para poder pagar o quarto onde vivia, com o companheiro e as duas filhas, uma delas recém-nascida, numa pensão na baixa de Lisboa, também se prostituía.

Era antidrogas, o que não significa que não tivesse um vício: o jogo. Na madrugada em que foi assassinada, Nanda, como era conhecida, tinha estado a trabalhar e, depois, tinha seguido diretamente para o bingo, na Avenida de Roma. Como perdeu tudo, quando o salão de jogo fechou, já depois das 2h da manhã, resolveu regressar à zona da Avenida 5 de Outubro, no centro de Lisboa, para tentar arranjar mais clientes.

Era a primeira noite do ano, 1 de janeiro de 1993. Valentina tinha aparecido morta há já cinco meses, mas o caso não tinha sido propriamente notícia, era “apenas” mais uma prostituta vítima de violência, os jornais despacharam a ocorrência com breves. A comunidade não estava em alerta e a polícia também não imaginava que andava um serial killer à solta.

A partir do momento em que o corpo dela foi encontrado, rodeado de lixo e entulho num barracão devoluto por baixo da linha de comboio, junto à estação de Entrecampos, tudo mudou. A morte de Fernanda tinha evidentemente sido cometida pela mesma pessoa. Também naquele caso o assassino tinha levado consigo parte dos intestinos da vítima. Mas havia diferenças.

A primeira: ao contrário de Tina, Nanda resistiu ao agressor, o relatório da autópsia revelou que a morte se deveu a uma “fratura do crânio com contusão do encéfalo, associada a feridas corto-perfurantes torácicas e abdominais”. A segunda: o corte na barriga era mais longo e menos errático. O assassino estava a evoluir.

Quando o cadáver de Tina foi encontrado, uma das mulheres que costumavam prostituir-se na mesma zona que ela, fez questão de ir à polícia, oferecer-se para ajudar na investigação. Chamava-se Maria João Rodrigues Vieira André dos Santos, tinha 27 anos e também era toxicodependente, viciada em heroína. Apesar de não ser propriamente amiga de Valentina, sentia que devia fazer tudo o que pudesse para ajudar a resolver o crime.

“A Caça ao Estripador de Lisboa”: de que é feito o teatro imersivo?

Maria João tinha 18 anos quando os pais perceberam que consumia drogas. Ao longo dos anos seguintes, fizeram de tudo para que se desintoxicasse, mas depois de vários internamentos e curas falhadas, acabaram por reconhecer a derrota. Mudaram-se para uma casa que tinham em Alvalade, com o filho mais novo, Maria João ficou sozinha no sexto andar em Santo António dos Cavaleiros onde até então a família tinha morado.

Apesar de à distância, os pais continuavam a enviar-lhe dinheiro, o que fez com que Maria João, que não trabalhava nem estudava, conseguisse subsistir. Mudou tudo dois ou três anos antes dos crimes do Estripador: o irmão mais novo de Maria João também começou a consumir drogas e a fazer desacatos em casa, as despesas da família aumentaram e os pais deixaram de conseguir dar-lhe tanto dinheiro — e Maria João começou a prostituir-se.

Horas antes de morrer, na noite em que a RTP emitiu a primeira reportagem sobre os crimes do Estripador de Lisboa, 14 de março de 1993, Maria João tinha sido vista no parque de estacionamento do Pingo Doce da Póvoa de Santo Adrião, encostada a um carro azul, a conversar com o homem que estava lá dentro.

Na manhã seguinte, o corpo dela seria encontrado com sinais de violência extrema, junto à entrada de um armazém de produtos alimentares, a escassos metros do barracão onde Tina tinha sido assassinada sete meses e meio antes.

O modus operandi

Existem três tipos de homicídio múltiplo. O homicídio em massa, que acontece quando alguém mata várias pessoas no mesmo local. O homicídio por dispersão, em que as mortes acontecem, não em simultâneo, mas umas após as outras, e em locais diferentes. E o homicídio em série, que acontece de forma repetida mas não seguida, usando sempre o mesmo modus operandi.

A médica legista Isabel Pinto Ribeiro, que fez as autópsias de Valentina e Fernanda, transmitiu imediatamente à PJ que o autor dos crimes seria muito provavelmente o mesmo, porque o modus operandi usado, apesar de não completamente igual, apresentava muitas semelhanças.

O cadáver de Maria Valentina apresentava “vestígios de esganadura”, o de Maria Fernanda tinha sofrido uma “fratura da base do crânio”. Nos relatórios das autópsias, pode ler-se que ambas sofreram pancadas violentas na cabeça que as terão deixado em coma ou inanimadas; a que se seguiu a extração dos intestinos por estiramento, ainda em vida. Com a autópsia de Maria João, os resultados não seriam muito diferentes, apesar de, nitidamente, o assassino ter mostrado uma “evolução”, de crime para crime. Se ao cadáver de Valentina faltava parte do intestino, ao de Maria João faltava parte do intestino, parte do estômago, um rim, o fígado e o baço.

O Estripador de Lisboa, na avaliação da psicóloga, ainda hoje na PJ, seria um assassino em série de tipo hedonista, porque, para além de matar, apresentava comportamentos adicionais com o corpo das vítimas, levando inclusivamente troféus depois dos crimes. Mas a motivação dos crimes não seria sexual — até porque nenhuma das vítimas apresentava sinais de violação

Apesar dos gargalos de garrafa ensanguentados encontrados nas cenas do segundo e do terceiro crime, as armas dos crimes nunca foram identificadas a 100% pela polícia. Mas, nos relatórios que escreveu, a médica responsável pelas autópsias determinou que os homicídios teriam sido cometidos com instrumentos “mais contundentes do que cortantes”. Logo na autópsia de Fernanda, Isabel Pinto Ribeiro admitiu a hipótese de o Estripador ter usado um gargalo de garrafa partido.

As três vítimas também correspondiam ao mesmo perfil: eram prostitutas, que trabalhavam à noite, dentro dos carros dos clientes ou nos locais onde foram encontradas mortas. Todas estavam — e costumavam estar — sozinhas em locais ermos, durante a noite ou madrugada. Eram as três baixas e franzinas e duas delas eram toxicodependentes, e, também por isso, alvos aparentemente fáceis de derrubar.

O perfil do assassino

Cristina Soeiro é psicóloga. À data do terceiro crime do Estripador, tinha 25 anos e trabalhava há três como formadora no Instituto da Polícia Judiciária, mas nunca tinha visto um morto nem nada que se parecesse. Apesar de estar na PJ, o trabalho dela era outro: dava aulas aos futuros agentes e inspetores, ensinava-lhes técnicas de liderança, estratégias para interrogar testemunhas de crimes ou entrevistar vítimas.

Mas isso estava prestes a mudar: a brigada de homicídios estava há meses a investigar e não estava mais perto de encontrar o assassino das prostitutas, era preciso tentar tudo — e essa necessidade daria origem ao primeiro perfil psicológico de um criminoso alguma vez traçado em Portugal.

No dia 14 de dezembro de 1993, Cristina Soeiro, que foi uma das agentes da PJ que fez a ligação aos agentes do FBI que, na altura, também estiveram em Lisboa para dar uma ajuda aos agentes sobre como identificar e caçar um serial killer, apresentou finalmente o seu relatório. Ao longo de 15 páginas datilografadas, a psicóloga forense detalhou não apenas as características mais latas do perfil psicológico de indivíduos homicidas em série, mas também uma avaliação do próprio Estripador de Lisboa.

À partida, segundo Cristina Soeiro, os homicidas em série serão indivíduos de raça branca, entre os 25 e os 34 anos, descritos como “inteligentes, amistosos, sossegados e organizados”, mas com problemas psicológicos, ou até um historial de internamentos. Vivem sozinhos ou com um familiar mais velho, com quem mantêm uma forte relação de dependência afetiva e emocional, e profissionalmente têm desempenhos fracos, executando, na maioria, funções indiferenciadas.

O Estripador de Lisboa, na avaliação da psicóloga, ainda hoje na PJ, seria um assassino em série de tipo hedonista, porque, para além de matar, apresentava comportamentos adicionais com o corpo das vítimas, levando inclusivamente troféus depois dos crimes. Mas a motivação dos crimes não seria sexual — até porque nenhuma das vítimas apresentava sinais de violação. Seria ainda uma pessoa geograficamente estável, já que cometia os homicídios em zonas próximas e parecia estar a diminuir o intervalo de tempo entre crimes — se bem que, depois da terceira vítima, tenha parado subitamente.

Para isso, em entrevista para “A Caça ao Estripador de Lisboa”, a psicóloga também apresentou uma explicação. Para parar, um assassino em série não tem necessariamente de morrer, como frequentemente se pensa: “Às vezes estes indivíduos iniciam a agressão por descontrolo, por perdas. A perda de alguém que era estruturante na vida dele, por exemplo. Geralmente é algo externo que desequilibra o indivíduo e que leva ao início, mas algo reestruturante e novo também pode levar o indivíduo a parar”.

Porque é que o Estripador de Lisboa nunca foi apanhado?

Os suspeitos

Carlos Ademar Fonseca, um dos agentes da brigada de homicídios responsável pelos casos, garantiu em “A Caça ao Estripador de Lisboa” que a PJ olhou para dezenas e dezenas de suspeitos. Alguns foram descartados rapidamente, outros nem tanto. Ao longo dos seis episódios do Podcast Plus foram apresentados os 13 alvos mais relevantes da investigação. Todos eles foram abandonados, sem qualquer acusação.

SUSPEITO NÚMERO 1

Dionísio Pereira de Carvalho tinha sido namorado de Valentina e, de acordo com a família dela, seria a única pessoa que lhe poderia querer mal: durante a relação tinha sido por várias vezes violento, obrigava-a a prostituir-se para lhe dar o dinheiro, chegou a prendê-la na barraca onde moravam juntos, nas Galinheiras, e a ameaçar que a matava.

SUSPEITO NÚMERO 2

Na verdade, o “homem do Renault 5” havia de revelar-se não um suspeito, mas dois. Quando começam a entrevistar prostitutas de rua, os agentes da PJ deparam-se com vários relatos que davam conta de homens violentos ao volante de um Renault 5. Algumas mulheres diziam que o carro era branco, outras descreviam um modelo bege. Até perceberem que havia dois homens em Lisboa a maltratar prostitutas, os agentes ainda iriam demorar algum tempo. No final, concluíram que, apesar disso, nenhum deles podia ser o Estripador de Lisboa.

SUSPEITO NÚMERO 3

José Luís era casado, trabalhava como carpinteiro e morava na Póvoa de Santo Adrião. Teria sido visto a falar com Maria João na noite em que ela morreu, no parque de estacionamento do Pingo Doce onde tanto ela como Valentina angariavam clientes durante a noite. Para além disso, deu-se o caso de ter como segundo nome nada menos do que o nome próprio que um vizinho ouviu uma voz de mulher gritar durante a noite do crime: “Luís, não me faças isso!”. Interrogado pela PJ, José Luís admitiu que tinha estado à conversa com a vítima: era amigo dela e seu cliente ocasional há já alguns anos. Mas negou qualquer envolvimento no crime.

SUSPEITO NÚMERO 4

Também se chamava Luís e morava num dos prédios vizinhos da torre em Santo António dos Cavaleiros onde vivia Maria João. Era solteiro, vivia sozinho, trabalhava como barman. E teria sido visto por um outro vizinho, cerca de uma semana antes do homicídio, a “torturar” a vítima. Interrogado pela PJ, o vizinho Luís garantiu que estava só a tentar que ela lhe fornecesse drogas e que nunca lhe faria mal.

SUSPEITO NÚMERO 5

Chamava-se Luís Campos, era professor de Química no Instituto Superior de Agronomia e autor de romances policiais. Mais tarde havia de adotar o pseudónimo Frank Gold, mas, quando escreveu “O Estripador de Lisboa”, ainda assinou com o nome de batismo. O livro foi publicado em abril de 1984, oito anos antes dos homicídios de Tina, Nanda e Maria João. Os investigadores acharam muito estranho o facto de o primeiro crime descrito ser muito parecido, no método e até no local onde ocorreu, com a primeira morte. O escritor chegou a ser considerado suspeito, mas nem sequer foi interrogado pela polícia.

Dez anos antes dos crimes, enquanto era estudante de Medicina, João C. trabalhou no Instituto de Medicina Legal. Era um tipo pouco amigável e calado, estranho, que acabou por ser despedido depois de se descobrir que tinha roubado órgãos de cadáveres, para depois os dissecar na cave

SUSPEITO NÚMERO 6

O “homem do corta-papéis” foi denunciado em março de 1993 por uma mulher que ligou para o piquete da PJ. Maria Cândida fez queixa dele, contou que lhe tinha oferecido boleia para casa e depois a tinha tentado apunhalar. Garantiu que, enquanto o fazia, gritava: “Por causa de putas como tu é que o meu pai me deixou na miséria”.

O homem, casado, com duas filhas, a morar em Odivelas, foi posto sob escuta. A PJ gravou 18 cassetes e não descobriu nada. Quando finalmente o confrontaram, dois meses depois, negou tudo. No final, Maria Cândida acabaria por admitir que tinha inventado a história. Na verdade, só queria deixá-lo mal perante a polícia — e por motivos que não tinham nada a ver com os crimes do Estripador.

SUSPEITO NÚMERO 7

O piquete da PJ recebeu mais uma denúncia: havia um marinheiro jugoslavo, a trabalhar num cargueiro que passava frequentemente por Lisboa, que tinha um comportamento suspeito. Frequentava prostitutas. E assim que o barco parava em Lisboa, seguia sempre para terra e só voltava a ser visto na hora de içar novamente a âncora.

Esta diligência não está no processo oficial da investigação aos crimes do Estripador — há muita coisa que não está, garantiram os agentes da PJ que foram entrevistados em 2024 para o podcast do Observador, e já garantia, à data, a PJ, em ofícios apensados aos documentos da investigação. Quem a revela é o inspetor Carlos Ademar Fonseca que, no momento em que subiu a bordo do cargueiro para confrontar o marinheiro jugoslavo, acreditou mesmo que ia encerrar o caso.

O suspeito tinha estado em Lisboa nas datas dos três crimes. E numa das gavetas do seu camarote o agente encontrou um pedaço de material orgânico, acastanhado, comprido e ressequido. “Agarrei naquilo com um ar de vitória. Está aqui um pedaço de intestino, bolas. Isto não pode ser outra coisa”, recordou Carlos Ademar Fonseca. “Peguei naquilo e comecei a rir. E o tipo olha para aquilo e ri-se ainda mais do que eu. Eu fiquei completamente desarmado. Então o que era aquilo? Era o sexo de uma tartaruga macho. Seco. Que ele dizia que metia no copo do whisky, porque era afrodisíaco.”

SUSPEITO NÚMERO 8

Entre março e setembro de 1988, onze mulheres, todas toxicodependentes, grande parte delas prostitutas, desapareceram de New Bedford, no estado norte-americano do Massachusetts. Debra Medeiros, morta por estrangulamento, foi a primeira a ser encontrada, no fim de semana do 4 de Julho. Até abril do ano seguinte, foram recuperados outros oito corpos, sempre junto a estradas nas imediações.

Entretanto, já se passaram quase 40 anos. Duas das vítimas nunca chegaram a ser encontradas. E o responsável pelas mortes também não foi apanhado. Entrou para a galeria de serial killers americanos como o “New Bedford Highway Killer”, o assassino da autoestrada de New Bedford.

Na altura, tal como aconteceria anos depois com o caso do Estripador de Lisboa, a polícia americana teve vários suspeitos, mas nunca conseguiu acusar nenhum deles. Talvez por isso, e porque os crimes de repente pararam, na comunidade começou a correr um rumor: o mais certo é que o assassino tivesse fugido para Portugal. Quando, em 1993, se espalhou a notícia de que havia um assassino de prostitutas à solta em Lisboa, a ligação foi inevitável. Mas também não teve qualquer consequência.

SUSPEITO NÚMERO 9

Dez anos antes dos crimes, enquanto era estudante de Medicina, João C. trabalhou no Instituto de Medicina Legal. Era um tipo pouco amigável e calado, estranho, que acabou por ser despedido depois de se descobrir que tinha roubado órgãos de cadáveres, para depois os dissecar na cave.

Em 1993, João C. foi denunciado pelo próprio IML, que acreditou que aquele antigo funcionário, atualmente médico, pudesse ter cometido os crimes do Estripador.

A polícia descobriu que em julho de 1993, quatro meses depois do terceiro crime, João C. tinha viajado para a Austrália, com um visto de turista — e nunca mais tinha regressado. Essa viagem foi considerada altamente suspeita e o médico, conhecido pela intempestividade, ficou sob escuta durante meses. A PJ chegou a pedir ajuda à Interpol em Sydney, foram feitas averiguações em todos os estados do país, em busca de crimes semelhantes aos de Lisboa, e há, apensadas ao processo, dezenas de páginas com as transcrições das conversas que o médico teve ao telefone ao longo desse tempo. Quando regressou a Lisboa, em janeiro de 1994, João C. continuou a ser escutado e a PJ acreditou que o Estripador ia voltar a matar. Nunca aconteceu. E o suspeito número 9 também nunca chegou a ser interrogado. Não havia “um único indício” contra ele, confidenciou fonte próxima do processo ao Observador, 30 anos depois.

Apesar de nada bater certo, de o processo ter sido arquivado em janeiro de 2002 e de, entre 2007 e 2008, os prazos de prescrição dos crimes terem sido ultrapassados, a PJ interrogou este homem. Conclusão, inscrita a 26 de julho de 2023 no processo: “Não obstante as diversas diligências realizadas, não foram apurados quaisquer elementos que permitam relacionar o autor dos factos investigados nos inquéritos” ao denunciado

SUSPEITO NÚMERO 10

Em julho de 1996 chegou a Lisboa, ao “Grande Tribunal de Justissa”, um envelope com selos e carimbo alemães mas remetente português. “Importante”, estava sublinhado no sobrescrito, escrito a tinta azul: “Eu cei quem é o estripador que andou ai amatar as raparigas da estrada, eu cei o nome e cei cuantas pessoas forão eu cei tudo e mais coizas que éssas pessoas fizerão em purtugal e eu queria que o senhor se metesse em contacto com o tribunal almão para que eles me mandem para Purtugal rápido e eu ai digo tudo e o senhor pôeme na minha liberdade”.

A carta, repleta de erros ortográficos, foi enviada por Aquilino Domingues João, um português que estava preso na “Almanha”. E a pista foi levada a sério: em março de 1998, uma equipa da PJ foi até ao Luxemburgo, falar com o emigrante, que entretanto já estava em liberdade.

Ele contou-lhes que, em outubro de 1995, durante uma viagem entre prisões, tinha conhecido um recluso alemão, que lhe tinha confidenciado que tinha assassinado a própria mulher. Descreveu-lhe também como tinha matado a tiro — e depois decapitado — um casal de autocaravanistas em Espanha. E contou-lhe ainda como tinha assassinado três prostitutas em Portugal.

Depois de muitas diligências e ajudas dos congéneres internacionais, a PJ conseguiu identificar o suspeito, um homem que, depois de assassinar a própria mulher, lhe cortou a cabeça e a enterrou no jardim. Mas também percebeu rapidamente que Lothar Feller Hentschel não podia ser o Estripador de Lisboa. Quando Valentina foi assassinada estava na cadeia. E quando Fernanda morreu também. Só foi libertado a 3 de março de 1993, doze dias antes de Maria João aparecer morta na Póvoa de Santo Adrião.

SUSPEITO NÚMERO 11

No dia 4 de setembro de 1998 chegou a Lisboa um fax da Interpol de Bruxelas, a pedido da Brigada Nacional da PJ belga. Robert Berden era motorista de camiões há 25 anos e viajava regularmente para o estrangeiro; tinha sido preso pela violação e homicídio de uma septuagenária em Hasselt, na Bélgica, mas entretanto já lhe tinham sido imputados outros cinco crimes.

Os belgas acreditavam que o homem poderia estar na origem de outros crimes semelhantes noutros países europeus, por isso mesmo uma brigada da PJ portuguesa viajou até ao país em abril de 1999, para o interrogar.

Foi mais uma incursão falhada: quando Valentina, Fernanda e Maria João foram assassinadas, Robert Berden trabalhava, de facto, para uma empresa de transportes que fazia viagens ao estrangeiro, mas não para o sul da Europa.

O camionista belga explicou à PJ que a primeira vez que conduziu até Portugal foi ao serviço de outra empresa, onde começou a trabalhar no fim de 1994. E, mesmo assim, garantiu que só esteve no país vários anos mais tarde, umas três ou quatro vezes, entre 1996 e 1997. As empresas, contactadas pelas autoridades portuguesas, também confirmaram datas e viagens.

SUSPEITO NÚMERO 12

Em 2011, um rapaz de Matosinhos inscreve-se no reality show “Casa dos Segredos”, da TVI, e faz uma revelação: “Sei quem é o Estripador de Lisboa”. À produção, conta que o seu próprio pai foi o responsável pelas mortes das prostitutas nos anos 90. Não é escolhido para participar no programa, mas o segredo chega à redação do jornal Sol que, meses mais tarde, há de revelar a notícia — e apresentar José Guedes ao país como o assassino das prostitutas nos anos 90. No final, o homem vai confessar que inventou tudo.

SUSPEITO NÚMERO 13

Em abril de 2021, uma mulher ligou para o piquete da PJ, a dizer que tinha informação sobre o Estripador de Lisboa. Tinha visto uma reportagem na televisão na noite anterior e ligado os pontos: o assassino só podia ser um amigo dela, que trabalhava como engenheiro civil e morava em Matosinhos, mas que na altura dos crimes tinha estado a viver em Lisboa.

A mulher disse à polícia que o amigo era parecido com o retrato robô que tinha visto na TV — que, na verdade, não corresponderia ao aspeto do Estripador, mas ao de um dos homens que a polícia descartou durante a primeira fase da investigação, um dos “homens do Renault 5”. Recordou revelações que ele lhe teria feito na altura, sobre ter feito “coisas hediondas, como o Hannibal”, durante essa passagem pela capital. E revelou que, também nessa altura, ele teria perdido uma pulseira idêntica à que foi encontrada junto ao cadáver de Maria Valentina — uma pulseira com iniciais que a PJ provou ter pertencido a um ex-namorado dela.

Apesar de nada bater certo, de o processo ter sido arquivado em janeiro de 2002 e de, entre 2007 e 2008, os prazos de prescrição dos crimes terem sido ultrapassados, a PJ interrogou este homem. Conclusão, inscrita a 26 de julho de 2023 no processo: “Não obstante as diversas diligências realizadas, não foram apurados quaisquer elementos que permitam relacionar o autor dos factos investigados nos inquéritos” ao denunciado.

[A partir de dia 28 de outubro, de quinta a sábado, às 21h00, na Comunidade Hindu de Portugal, em Lisboa. Duração: cerca de 1h45. Para maiores de 18 anos. Bilhetes à venda na Fever.]

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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