Brasileiro vive dicotomia entre a economia e o rumo do país, diz CEO da Ipsos Brasil
O brasileiro olha para a própria situação econômica com um otimismo moderado, mas não demonstra a mesma confiança quando avalia os rumos do país. Essa contradição aparece em dois indicadores acompanhados pela empresa de pesquisas Ipsos: enquanto o índice de confiança do consumidor está em 52,2 pontos, acima do patamar de neutralidade de 50, apenas 36% da população acreditam que o Brasil está na direção certa.
"O brasileiro separa o bolso da rua", afirma Diego Pagura, CEO da Ipsos no Brasil.
A explicação, segundo o executivo, está nas preocupações que vão além dos indicadores econômicos. Apesar do desemprego baixo e da inflação controlada, os brasileiros apontam o crime e a violência, a saúde e a corrupção como seus principais problemas. A insegurança preocupa 52% da população, ante uma média global de 32%. Para Pagura, o brasileiro está pedindo três coisas: segurança, acesso a serviços e transparência.
Esse ambiente de insatisfação ajuda a compreender o cenário político após o primeiro turno das eleições de 2026, mas não significa necessariamente que o país tenha passado por uma guinada conservadora. Segundo Márcia Cavalari, diretora de Opinião Pública da Ipsos, pesquisas realizadas desde 2010 mostram que cerca de metade da população brasileira apresenta um perfil altamente conservador em questões de costumes, enquanto os progressistas representam menos de 10%.
"Então, o Brasil é um país conservador. Independentemente de eleição, de quem ganha e de quem não ganha. E é há muito tempo", diz Cavalari.
Em entrevista à EXAME, Pagura e Cavalari analisam como o humor da população influencia o comportamento eleitoral e as decisões de consumo. Os executivos discutem o desgaste dos governantes, os elevados índices de rejeição dos candidatos à Presidência, a dificuldade de transformar bons indicadores econômicos em apoio político e os desafios das empresas para conquistar um consumidor que continua comprando, mas está cada vez mais atento ao preço, à qualidade e à experiência oferecida pelas marcas.
Leia a íntegra.
A Ipsos não comenta pesquisas eleitorais. Mas acabamos de ter um primeiro turno em um ambiente de sentimentos no Brasil. Segundo as pesquisas de vocês, o que se destaca em termos de sentimentos dos brasileiros?
Diego Pagura — Gostamos de interpretar sinais, como humor do brasileiro, de entender como o brasileiro está se sentindo e como isso influencia no comportamento dele. Estamos em um momento bem interessante, porque existem algumas dicotomias entre o humor e o pragmatismo com que os brasileiros estão lidando com a situação de hoje.
Como assim?
Diego Pagura — Vou citar dois indicadores que usamos. Um é o índice de confiança do consumidor. Ele determina o quanto a economia para cada uma das famílias brasileirasa está mais ou menos controlada e quais são as perspectivas futuras em relação à economia. Esse índice varia de 0 a 100, e o 50 é a neutralidade. Quanto mais perto de 100, ele mostra uma capacidade melhor do bolso do brasileiro e vice-versa.
O índice hoje no Brasil ele é 52,2 pontos e ele oscila um para cima, um para baixo mensalmente. Mas está muito estável há pelo menos uns dois anos. Isso é um sentimento em relação à economia moderadamente positivo.
Ou seja, quando olhamos indicadores macro, temos uma inflação controlada, um [crescimento de] PIB que não é tão alto, mas também o país está se desenvolvendo, um desemprego que está entre os mais baixos da história. Então, isso não garante, mas ajuda muito no planejamento das famílias.
Uma das coisas que principalmente também impulsiona esse indicador para o positivo são as perspectivas futuras. As famílias brasileiras têm um olhar sobre o futuro positivo. Interpretam que hoje tem uma situação que precisa ser tratada de maneira pragmática, mas que no futuro as coisas podem melhorar.
Então isso termina de equacionar esse índice de confiança que mostra um pragmatismo para lidar com a situação.
E onde está a dicotomia?
Diego Pagura — Tem outra pergunta que fazemos, em 30 países, e questionamos se as pessoas acham o país está no rumo certo ou não. No Brasil, apenas 36% das pessoas mencionam que o país está no rumo certo.
Apesar de a situação atual ser uma situação com a qual as pessoas conseguem lidar, positivo, 36% acham que o país está no rumo certo. Esse é o grande dilema do brasileiro hoje. Ele separa o bolso da rua.
Com o bolso, a economia, está conseguindo lidar. Mas a atmosfera na qual está provavelmente não é ideal, não é a melhor. E isso impacta muito no humor da da população brasileira.

Calçadão de Osasco: brasileiros estão moderadamente otimistas com economia mas acham que país não está no rumo certo, diz CEO da Ipsos (Leandro Fonseca /Exame)
E qual é a interpretação de vocês para o dilema?
Diego Pagura — Vamos no detalhe com alguns indicadores que acompanhamos sobre quais são as preocupações do brasileiro [a pesquisa What Worries the World, global]. O brasileiro indica como as três principais preocupações no dia a dia dele: o crime e a violência, diga-se segurança.
Em segundo lugar, saúde, uma questão também estrutural no Brasil em relação a acesso que a gente vem vendo de maneira predominante há muito tempo com uma grande preocupação.
E a terceira grande preocupação do brasileiro é a corrupção.
Como fica o Brasil na comparação com outros países?
Diego Pagura — Em primeiro lugar, o mundo também acha que não está indo na direção certa. Assim como o Brasil está em 36%, o mundo está com 38% das pessoas percebendo que o seu próprio país está indo na direção certa.
Então, o contexto mundial em relação ao humor e em relação a como os países estão lidando com os problemas é constante.
Por incrível que pareça, os países que representam hoje as maiores economias do mundo, muito sólidas, são os que apresentam os piores índices de rumo do país. Você tem Estados Unidos, Alemanha e França entre os países com o indicador de "rumo certo" mais baixo.
Mas os dilemas são outros. As preocupações naqueles países são inflação, por exemplo.
Países que tipicamente tiveram uma inflação baixa ou ainda têm inflação de um dígito baixo têm como a principal preocupação a relação com o custo de vida.
Você citou "crime e violência". No Brasil, 52% apontam como uma grande preocupação ante 32% na média global. Como entende essa discrepância?
Diego Pagura — Gostaria, em primeiro lugar, de talvez ampliar o conceito e não só pensar em crime e violência como o tipo que a gente vê na rua. Temos tido de um tempo para cá, com a digitalização do sistema financeiro, muitas questões de segurança digital.
Especialmente entre idosos?
Diego Pagura — Entre idosos acontece, mas muito também em momentos de eventos de manifestação massiva nas ruas, como o Carnaval, e que são momentos quando vemos esses indicadores extrapolarem um pouco, e vemos também nas empresas, tanto do setor financeiro como outros, tentando trazer para os para os clientes e consumidores um certo nível de segurança, mas ainda assim a percepção de insegurança é muito grande.
O crime e violência são a preocupação número um da América Latina, e a América Latina puxa essa média global. A percepção é: o brasileiro está pedindo segurança, está pedindo acesso (pelo que vemos em saúde) e está pedindo transparência (corrupção).
Esses são os três grandes segmentos que hoje o Brasil está pedindo.

Márcia Cavalari, diretora de opinião pública da Ipsos: Brasil é um país conservador
Acabamos de ter um primeiro turno que teve uma vitória muito significativa de partidos identificados com a direita, com bandeiras mais conservadoras. Do ponto de vista de quem pesquisa a opinião pública, é possível dizer que o país está mais conservador ou essa é uma visão superficial?
Márcia Cavalari — Fazemos desde 2010 um índice de conservadorismo em pautas de costumes. Questões como legalização do aborto, portabilidade de armas, redução da maioridade penal. Criamos um índice que varia de 0 a 1, de acordo com as respostas individuais que eles dão para cada um desses, se é a favor ou contra.
Desde 2010, temos cerca de metade da população com um índice altamente conservador. Esse é o muito conservador, daí tem o perfil um pouco conservador e o muito conservador.
O índice do progressista é bem pequeno, não chega 10% da população. É um cenário pouco progressista. Isso é um fenômeno que vem se mantendo ao longo do tempo.
Nesse ano especificamente, estamos finalizando para ser divulgado em breve, temos um patamar parecido com o de 2018. Então, o Brasil é um país conservador. Independentemente de eleição, de quem ganha e de quem não ganha. E é há muito tempo.
Então, não é isso que explica o resultado? Muito se fala que o pêndulo da sociedade está mais à direita hoje, por exemplo.
Márcia Cavalari — Quando a gente cruza, por exemplo, individualmente cada uma das pautas com voto, você também tem eleitor do Lula que é conservador. E também tem eleitor do Flávio que é progressista, em algum número.
Tem algumas diferenças que ficam mais caracterizadas para um ou para o outro, mas não é uma coisa tão homogênea, falar que quem é conservador vota só no Flávio e quem é progressista vota só no Lula.
Na prática, ninguém é uma coisa só...
Diego Pagura — O que a gente interpreta, ampliando um pouco na questão das preocupações, é que no fim das contas as pessoas acabam escolhendo quem tem maior capacidade de endereçar os problemas que estão na pauta.
Completando, a gente já falou de crime e violência em primeiro lugar de preocupações, de saúde em segundo, e depois corrupção. Em quarto e quinto lugar das principais preocupações estão pobreza e desigualdade, que é uma coisa que está muito tempo instalada, e impostos.
O tema "impostos" está na pauta do brasileiro. Às vezes a gente acha que a reforma tributária não é uma coisa que vai afetar todo mundo, mas escutamos alguns candidatos até fazendo menção. São coisas que eventualmente pesam na hora de você olhar para os candidatos.
Márcia Cavalari — Além disso, como a Ipsos trabalha em diversos países, dá para fazer uma modelagem. Nela, usamos a avaliação do governante, se positiva ou negativa, a percepção da capacidade de solução desses problemas, a percepção de rumo certo ou como errado e também a perspectiva futura da economia. Nessa modelagem toda, por exemplo, o que vemos em todos esses países?
A probabilidade de um governo governante ser reeleito se ele tiver 45% de aprovação somada a essa percepção da solução dos problemas, à percepção de rumo certo e à percepção do futuro da economia é de 78%.
O problema tem sido os candidatos reunirem esse conjunto de fatores favoráveis...
Márcia Cavalari — Por exemplo, o Lula até agora teve saldo negativo de avaliação, mais gente desaprovando do que aprovando. Ficou no limite mas não conseguiu passar essa barreira. E a questão da solução dos problemas é uma variável importante.
Há uma tendência, inclusive na América Latina, de que a oposição consiga chegar ao poder?
Diego Pagura — Sim, é interessante o caso da Argentina e o que aconteceu na Colômbia e no Peru e eventualmente pode acontecer no Brasil [com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro].
Quando teve essa mudança de governo na Argentina para uma oposição que conseguiu pegar essa questão do sentimento da população e falar de inflação na Argentina, de corrupção, imediatamente os indicadores mudam. E rumo do país aparece como certo.
Por exemplo, a Argentina por muito tempo aparece com um índice de confiança do consumidor baixo, porque obviamente que a situação econômica é muito difícil, mas o rumo do país, certo. Depois de dois anos de Milei, esses indicadores mudaram, porque também a população espera resposta às propostas.
Então hoje a Argentina tem um dos piores índices de rumo do país, um dos piores índices de índice de confiança e problemas como o desemprego ocupam o primeiro lugar.
Já não é mais um problema de inflação, apesar da diminuição ela continua alta, mas o custo de vida também aumentou. O emprego é interessante, porque o indicador não é ruim. O desemprego não está muito alto. Mas o que indica é que provavelmente há ainda um gap para ser fechado entre o custo de vida e o que o emprego proporciona.

Javier Milei: líder da Argentina experimentou anos de aprovação alta e agora precisa recuperar os índices de olho nas eleições de 2027 (Tomas Cuesta/Getty Images)
No Brasil, é o contrário. Os indicadores econômicos e oficiais estão bons...
Diego Pagura — É a percepção na ponta do bolso. Não adianta nada eu ganhar mais se o que eu ganhar a mais não estiver comprando o que preciso. Você vê em discussão de grupo as pessoas falam: 'eu passava o mês inteiro com R$ 500, comprava compra do mês inteiro com R$ 500'.
É o poder de compra. Não adianta falar que a inflação está baixa, que a economia está crescendo, que o desemprego está baixo, porque é uma percepção mesmo. A pessoa vai no mercado e vê que com o mesmo dinheiro ela compra menos coisa do que costumava comprar.
Muito tem se falado que as campanhas viraram entretenimento. Olhando para pesquisa e pública, vocês concordam?
Diego Pagura — Com certeza o que se tem é um outro tipo de conexão entre os políticos e as pessoas, principalmente através das das redes sociais e pelo avanço da mídia digital. Uma coisa que há muito tempo não existia.
Márcia Cavalari — Por exemplo, na nossa campanha [presidencial]: não teve campanha. Ninguém falou de nenhum problema, ninguém discutiu nenhuma pauta. Não teve. O que tomou conta da campanha? O STF e o Banco Master. Então, essa campanha é diferente das outras que a gente teve.
E isso foi dando uma coisa nas pessoas. Pode até ser que agora no segundo turno haja um envolvimento maior, de vermos pessoas conversando, de convencer um voto ou outro, mas no primeiro turno a gente não viu nada.
Levantei alguns dados de rejeição de 2010 a 2026. Hoje é a maior rejeição que temos. Em 2022, o Jair Bolsonaro tinha 46% de rejeição e Lula tinha 38%. Hoje, ambos os candidatos que lideram estão na casa dos 46% de rejeição.
Em 2018, o Bolsonaro já tinha 43% de rejeição e foi eleito. O Haddad tinha 36%. Em 2014, a Dilma tinha 31% de rejeição, a Marina tinha 20%, e o Aécio tinha 19%. Em 2010, o Serra tinha 27% e a Dilma, 21% de rejeição. Repara a diferença de patamares de rejeição.
De maneira geral, os políticos estão muito mais rejeitados?
Márcia Cavalari —No índice de confiança social, que a gente faz também desde 2009, o Congresso, os políticos e os partidos são sempre os que têm o menor índice de confiança social. Estamos numa situação faz algum tempo numa eleição de votar no menos pior.
E fora isso, tem o desgaste natural do Lula. Quando a gente pergunta se Lula merece ou não ser reeleito, 52% dizem que não.
E perguntamos: 'Por que não?'. A resposta: 'Ah, porque já foi presidente três vezes, tem que dar chance para outro, pela idade, pela saúde'. Aparecem várias questões.
Saindo um pouco da política, como as empresas precisam se movimentar diante da dicotomia que os dados da Ipsos apontam?
Diego Pagura — Em primeiro lugar, eles têm que entender que o consumidor está no momento de ter que fazer escolhas. Ou seja, provavelmente não vai conseguir fazer tudo o que quer. Ele sobrevive, mas talvez não da maneira ideal. Ao menos na percepção.
Então, reforçar posicionamento de marca, equação de valor é fundamental. Há uma grande oportunidade de marcas, independentemente do preço, de conquistarem o coração do consumidor. O consumidor vai precisar desses momentos de indulgência.
Ao mesmo tempo, talvez os portfólios das empresas não estejam necessariamente adaptados ao bolso do consumidor. Então, também tem um momento no qual a inovação é muito importante. De encontrar se tem o produto certo, no tamanho certo, embalagem certa. Mais ainda hoje, se você plugar tendências de saúde, bem-estar.
A gente conversa também muito na indústria de serviços também, que acompanha muito satisfação dos clientes. E a gente tem um consumidor hoje que é bastante crítico, na verdade, porque a confiança é positiva, mas moderada. Ele vai avaliar, de fato, se valeu a pena. Então, tudo que tem a ver com experiências tem que estar muito calibrado para entregar à altura da expectativa.
Há um novo padrão de consumo, sobretudo digital. Como vocês tentam auxiliar, com pesquisas, sobre o que que faz a diferença de compra, por exemplo?
Diego Pagura — A gente acompanha muito a experiência. E o que marca mais a diferença, no final das contas, também é a experiência.
A marca seta a expectativa. Por exemplo, espero que a entrega seja rápida ou espero que tenha os produtos que eu preciso ou espero encontrar o preço mais baixo. E a experiência ser real é o que valida ou não.
A percepção de marca tem que estar muito bem estruturada para conseguir depois garantir a entrega de percepção.
Como as empresas têm que se planejar para o próximo ciclo de 4 anos? Como vocês têm aconselhado empresas?
Diego Pagura — O que vemos é um consumidor que não está parado. Ele está consumindo. Só que a batalha pelo real no bolso dele, essas comunicações têm que ser muito em linha com o sentimento do consumidor.
Então, acompanhar o sentimento do consumidor para você calibrar tom, calibrar mensagens, é muito importante. Os produtos de inovação são muito mais curtos do que o que eram antes.
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