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Saturday, September 26, 2026

Antigo MNE diz ser "penoso" ver divisão da UE sobre Gaza

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O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros João Gomes Cravinho considera “extremamente penoso” ver a União Europeia (UE) dividida sobre Gaza, defendendo que a incapacidade dos Estados-membros para alcançar uma posição comum abala a credibilidade externa do bloco comunitário.

“É extremamente penoso olhar para aquilo que tem sido a política europeia em relação a Gaza, em particular. E é penoso pelo seguinte: face a um conflito de uma zona próxima, um conflito profundo de uma violência atroz, a Europa não tem conseguido ter voz”, criticou João Gomes Cravinho, em entrevista à agência Lusa, em Bruges, na Bélgica.

Nesta entrevista a propósito do novo cargo como reitor do Colégio da Europa, que assumiu há cerca de dois meses, o antigo chefe da diplomacia portuguesa observou que a falta de posição comum na UE não se deve à ausência de convergência entre a “grande maioria” de países, que poderiam trabalhar juntos, mas à oposição de “um muito pequeno número” de Estados-membros a medidas contra Israel, apontando a República Checa, a Alemanha e a Hungria.

Segundo o responsável, a situação deixa a União exposta a acusações de incoerência: “Qualquer conversa sobre valores da UE, moral, Direito internacional, é imediatamente confrontada com uma só palavra, que é Gaza”. “A credibilidade da UE tem sido profundamente abalada por isto”, acrescentou, afirmando existir uma “contradição essencial” entre a defesa desses princípios e a manutenção das relações com Israel.

Questionado sobre eventuais medidas contra Israel, Gomes Cravinho apontou para a política comercial da UE e considerou que, se a Comissão Europeia considera “inaceitável” o que se passa em Gaza, deveria assegurar que existem consequências.

Como alguns Estados-membros têm bloqueado uma resposta comum, o antigo ministro disse que as medidas unilaterais, como as adotadas por Portugal, podem ser justificáveis, embora “fragilizem” a própria UE como um todo. Sobre a posição portuguesa, considerou que o Governo tem seguido “o caminho correto”, embora Portugal pudesse ter reconhecido mais cedo o Estado da Palestina. Gomes Cravinho defendeu, ainda, que a solução de dois Estados continua a ser a única saída para o conflito.

A guerra em Gaza provocou uma das mais graves crises humanitárias dos últimos anos, causada pela ofensiva israelita e pelo apoio norte-americano, com milhares de mortos e feridos e uma população confrontada com deslocações em massa, destruição de infraestruturas e escassez de alimentos, água e medicamentos.

Na entrevista à Lusa, o ex-ministro falou também da Guiné-Bissau, onde apontou como principais problemas um Estado “quase inexistente”, “absolutamente penetrado pelo narcotráfico”, e a influência deste fenómeno nas Forças Armadas.

Sobre a atuação de Portugal, considerou que o Governo “não pode pactuar” com o que classificou como uma “absoluta fraude”, referindo-se à interrupção do processo eleitoral e à tentativa de criar uma nova legitimidade.

Já sobre Moçambique, considerou correta a postura portuguesa e defendeu a continuação dos esforços para promover o diálogo e uma maior abertura política, destacando os esforços do Presidente Daniel Chapo nesse sentido.

A Guiné-Bissau e Moçambique têm atravessado nos últimos anos períodos de instabilidade política, com Portugal e a UE a defenderem o reforço das instituições democráticas e do Estado de direito.

Sobre o Sahel, região onde foi representante especial da UE, Gomes Cravinho rejeitou que a União tenha “perdido” importância, mas defendeu uma mudança na relação com os países africanos. “Temos de trabalhar de forma completamente diferente no âmbito do diálogo”, concluiu.

Costa poderia ser interlocutor da UE para Rússia, mas não agora

João Gomes Cravinho considera que o presidente do Conselho Europeu, António Costa, poderia vir a ser interlocutor da União Europeia junto da Rússia, dado conseguir construir consensos, mas “não de momento”.

“Seria vantajoso que a Europa tivesse um interlocutor. Não penso que nesta fase seja útil dizer que deve ser o fulano A ou B, mas alguém com um elevado grau de aceitação entre os 27, alguém que tenha capacidade de fazer pontes para juntar os europeus e que tenha credibilidade para falar em nome da Europa, junto da Rússia e dos Estados Unidos também”, disse.

O ex-chefe da diplomacia portuguesa referiu que António “Costa possivelmente” poderia ser um dos nomes apontados, tal como o antigo primeiro-ministro italiano Mario Draghi, “que, embora tenha feito toda a sua carreira na área económica, é uma pessoa com grande aceitação”. Porém, no caso de António Costa, “isso vai depender de outros fatores, nomeadamente do trabalho que ele está a fazer de negociação intraeuropeia para o Quadro Financeiro Plurianual, que lhe ocupa o tempo inteiro”.

“Portanto, se fosse hoje, não creio que ele tivesse disponibilidade. Noutro momento, talvez”, acrescentou, considerando que o antigo primeiro-ministro socialista português – cujos governos Cravinho integrou, com as pastas da Defesa e da diplomacia – tem “todas as características, todas as qualidades pessoais, as características de aceitação, de ser uma pessoa que pode falar pela Europa”.

Já questionado sobre o desempenho de António Costa na liderança da instituição que junta os líderes da União Europeia (UE), o responsável disse ver tal percurso “com muito orgulho”, apontando que o atual presidente do Conselho Europeu “tem uma capacidade de diálogo a 360 graus dentro da Europa, que é imprescindível”, bem como “a energia e a capacidade de estabelecer o relacionamento pessoal”.

Salientando que o líder português tem apostado em “plataformas de entendimento entre os diversos países” e na melhoria do relacionamento interinstitucional com a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu, João Gomes Cravinho adiantou esperar que, após maio de 2027, Costa seja “reeleito para um segundo mandato, de forma bastante consensual”.

Numa altura em que já se assinalam mais de quatro anos e meio desde a invasão russa em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Gomes Cravinho considerou que não estão reunidas, neste momento, as condições para um entendimento com o Presidente russo, Vladimir Putin.

“Se este é um momento para negociarmos com a Rússia, não creio. Não vejo que haja, neste momento, disponibilidade russa”, afirmou.

Na sua leitura, Moscovo está atualmente a procurar “explorar novas vias” para obter ganhos na Ucrânia e dividir os Estados-membros, através de novas formas de guerra híbrida, como ciberataques e campanhas de desinformação.

Perante estas ameaças, defendeu que a UE deve reforçar a sua capacidade de resposta, nomeadamente no ciberespaço, onde considera que um ataque russo poderá justificar um “contra-ataque cibernético”, criando “simetria” para dissuadir Moscovo.

Gomes Cravinho considerou que Putin “acredita que ainda pode sair vencedor” da guerra e está, por isso, a colocar em campo “novas armas do seu arsenal”.

Ainda assim, defendeu que a UE deve estar preparada para negociar quando houver condições, advertindo que qualquer eventual acordo terá de limitar a capacidade de Moscovo voltar a recorrer à força.

“Qualquer entendimento com Putin apenas estará validado se ele for efetivamente constrangido”, vincou Gomes Cravinho, acrescentando que tal não poderá assentar “na boa-fé” ou em “promessas”, mas sim no “constrangimento das suas possibilidades”.

A posição surge num momento em que a UE mantém o apoio à Ucrânia e defende uma solução diplomática para pôr fim à guerra.

João Gomes Cravinho é reitor do Colégio da Europa desde julho. Doutorado em Ciência Política, foi ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa. Foi também representante especial da UE para o Sahel e embaixador da UE na Índia e no Brasil.

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