Lula 4: Os desafios da política externa com Trump e vizinhos de direita

Lula buscará evitar confrontos com Trump, sem abandonar sua posição firme em temas nos quais tem profundas diferenças com o presidente americano, entre eles a visão sobre conflitos globais (como as guerras no Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia), o comércio, a presença da China na região, o nível de cooperação em matéria de combate ao crime organizado e a regulação sobre big techs. O vínculo continuará sendo tenso, mas a expectativa do Palácio do Planalto é de que, com a vitória nas eleições, a Casa Branca adote uma postura pragmática. Uma eventual derrota de Trump nas eleições de meio de mandato (as midterms) fortaleceria ainda mais a posição do Brasil e, em contrapartida, enfraqueceria a do republicano.
O presidente americano continuará pressionando, ninguém duvida disso, e terá o apoio de um Congresso brasileiro que girou à direita. O bolsonarismo, mesmo derrotado na eleição presidencial, obteve resultados amplamente positivos nas eleições para deputados, senadores, governadores e prefeitos. Lula terá menos margem de ação, e Trump encontrará aliados fortes na política brasileira. Nesse cenário, o governo deverá negociar, buscar consensos e lidar com resistências dentro e fora do país. Mas o presidente espera que a força das urnas facilite uma relação com os EUA menos contaminada pela ideologia e por sua disputa com o bolsonarismo.
Na região, Lula buscará vínculos fortes, mesmo com governos de direita e até mesmo de extrema-direita.
O Chile, presidido por José Antonio Kast, por exemplo, tem tentado manter uma boa relação com Lula, apesar do vínculo entre o chefe de Estado chileno e a família Bolsonaro —especialmente o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Kast cogitou, até mesmo, fazer uma viagem ao Brasil antes da posse, sem saber quem seria o vencedor. Segundo fontes chilenas, o novo embaixador chileno em Brasília, Issa Kort, que ainda não apresentou suas cartas credenciais a Lula, foi enviado ao país por sua capacidade de diálogo com setores de esquerda, centro e direita. Um sinal de que Kast não só está disposto, como considera importante manter uma boa relação com o Brasil, seja quem for o presidente.
A mesma situação se repete no Peru com a presidente Keiko Fujimori, no Equador com Daniel Noboa, e no Paraguai com Santiago Peña. Os casos mais complicados são a Argentina de Milei e a Colômbia de Abelardo De La Espriella, que se engajaram mais ativamente na campanha de Flávio Bolsonaro, inclusive, no caso do argentino, intensificando ataques pessoais a Lula.
Na avaliação do analista argentino Juan Negri, professor da Universidade Di Tella e membro do Conlat (Conversatório Latino-Americano, grupo formado por acadêmicos de universidades do Brasil, Argentina, Colômbia e México), se Flávio Bolsonaro tivesse sido eleito, as relações entre Brasil e Argentina imediatamente caminhariam para uma fase de normalização. Com a vitória de Lula, o futuro do vínculo bilateral é incerto.
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