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Thursday, August 27, 2026

Os brasileiros lesados em esquema de casas de baixo custo na Itália | Podcast UOL Prime #137

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Comprar uma casa de baixo custo na Itália e reformá-la com recursos do governo parecia a realização de um sonho para muitos estrangeiros. O mercado, aquecido no pós-pandemia e apoiado por incentivos públicos, trouxe oportunidades legítimas. Imóveis na Toscana vendidos por até 100 mil euros (cerca de R$ 600 mil) atraíram brasileiros. Mas pelo menos uma dezena deles viu a promessa terminar em terrenos abandonados, dívidas e uma investigação na Itália.

No novo episódio do podcast UOL Prime, José Roberto de Toledo conversa com a colunista do UOL Alicia Klein sobre a apuração feita em parceria com a repórter Janaina Cesar que revela detalhes da atuação da empresa especializada em imóveis Sonho.it, fundada por um brasileiro e um italiano. A Procuradoria de Lucca, na Toscana, apura se a empresa e outros negócios associados a ela cometeram fraude contra o Estado, fraude contra os brasileiros e falsidade ideológica.

O casal Douglas Roque, brasileiro, e Alberto Da Lio, italiano, anunciou, principalmente durante a pandemia, imóveis históricos em vilarejos italianos por preços módicos, com reformas pagas integralmente pelo Estado e administradas pela própria empresa. Tudo à distância, sem dor de cabeça, diziam.

A história surgiu a partir do Superbônus 110, criado pelo governo italiano em 2020 para conter a recessão provocada pela diminuição da atividade econômica. No projeto, reformas estruturais podiam ser cobertas pelo Estado via créditos fiscais --em alguns casos, cedidos a construtoras ou bancos, que lucravam 10% na operação.

Sem mecanismos de monitoramento, o programa se tornou um festival de fraudes: empreiteiras superfaturavam obras, emitiam notas frias e resgatavam os créditos fiscais. Um levantamento do Tribunal de Contas italiano em 2024 apontou que o Superbônus gerou um déficit orçamentário nos cofres públicos de 172 bilhões de euros --dos quais cerca de 16 bilhões de euros em créditos foram considerados irregulares pelo governo. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou se tratar da "maior fraude" já sofrida pelo Estado.

Entre os investigados estão os responsáveis pela empresa Sonho It, que prometia "transformar pedras em diamantes". De acordo com Alicia, os clientes entregavam procurações para que a empresa cuidasse da compra, da documentação e das obras. "Nesses casos, as obras e as reformas nunca aconteceram, os imóveis estão abandonados", afirma Alicia. "Algumas pessoas, por não terem dinheiro para ir à Itália conferir, não sabem nem se os imóveis continuam no nome delas ou se já foram transferidos."

Segundo a investigação italiana, foram obtidos de forma irregular mais de 10 milhões de euros em créditos fiscais entre 2021 e 2025. Deste montante, mais de 4 milhões de euros foram bloqueados pela investigação.

A jornalista também conta, no podcast, do impacto sobre quem caiu no esquema. "Uma das vítimas que falou para a reportagem perdeu todo o dinheiro da aposentadoria, pegou um empréstimo que ela só vai terminar de pagar em 2028 para tentar realizar esse sonho que, obviamente, virou um pesadelo."

A investigação ouviu 11 clientes que afirmam ter sido lesados pelo casal fundador da Sonho.it. Muitos, segundo Alicia, ainda enfrentam dificuldades para saber a situação dos imóveis e dos créditos registrados em seus nomes. "A gente falou com pessoas que choraram durante a entrevista porque foram anos de muito sofrimento e de um dinheiro perdido que elas entendem que não vão recuperar mais." A reportagem também falou com autoridades locais e visitou casas que, na prática, ainda são ruínas.

A assessoria de imprensa que representa Sonho.it e Mole AquaeArchitettura (escritório de Alberto) informou que as interrupções de obras aconteceram por causa de uma "crise sistêmica" no setor e disseram que permanecem à disposição das autoridades para esclarecimentos.

O videocast UOL Prime é publicado às quintas no Spotify e no YouTube do UOL Prime. Vai ao ar na TV às sextas, às 22h30, no Canal UOL, com reprises aos sábados, às 15h30, e às terças, às 13h.

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