O que já garantiu Bolsonaro com a vitória na 1ª volta?

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Esta é a História do Dia da Rádio Observador. O que mostram os resultados da primeira volta das eleições gerais do Brasil?
A palavra é mudança. É o fim da era do PT. Está decretado o fim da era do PT, a mudança no nosso país. O Brasil dá uma resposta definitiva de que quer um governo moderno, um governo com menos ministérios, um governo que vai resgatar a democracia.
Flávio Bolsonaro tem o rosto vencedor da primeira volta das eleições brasileiras. Na votação presidencial, 47% para Bolsonaro, 45% para Lula da Silva. No Brasil, nunca aconteceu uma remontada. Quem vence à primeira, acaba sempre por vencer à segunda volta. Mas Lula da Silva concentra-se na abstenção para prometer luta.
Não deu certo. Sabe por que não deu certo? Porque o povo gosta que eu dispute o segundo turno. Eu sou muito bom no mata-mata. Vinte e oito milhões de pessoas que não votaram. Nós vamos fazer um apelo para que as pessoas saibam que nesse momento histórico do Brasil, o voto é necessário pra gente definir o futuro desse país.
O segundo turno destas eleições acontece já no dia 25 de outubro, mas desta primeira votação há já resultados fechados. O Partido Liberal de Bolsonaro reforça a maioria no Senado e tem agora praticamente um terço dos senadores. São 28 em 81. O PT fica apenas com nove. Nos governos estaduais, 20 em 27 também já estão fechados. Eu vou conversar com o jornalista Pedro Benevides. Ele está na História do Dia, desta vez como entrevistado. Está no Rio de Janeiro ao serviço da CNN Portugal e da TVI a acompanhar estas eleições brasileiras. Eu sou Miguel Cordeiro e esta é a História do Dia de segunda-feira, 05 de outubro. Bem-vindo, Pedro.
Obrigado, Miguel.
Termina a primeira volta das eleições presidenciais do Brasil. Confirma-se o cenário esperado de segunda volta, mas com estes resultados, podemos já falar no regresso do bolsonarismo?
É difícil não dizer outra coisa, porque contra todas as expectativas, Flávio Bolsonaro acabou por ganhar esta primeira volta. Eu digo contra todas as expectativas, porque todas as sondagens que tinham sido divulgadas, em particular as sondagens que foram divulgadas mesmo nas vésperas desta eleição, indicavam, é verdade, um empate técnico e, portanto, qualquer um dos dois podia ser vencedor, mas todos eles coincidiam na possibilidade de Lula da Silva ficar ligeiramente à frente. E, portanto, a convicção generalizada que havia aqui no Brasil era a de que esta eleição iria ser renhida, é verdade, imprevisível o resultado, mas iria ser renhida e provavelmente seria Lula da Silva a ganhar, mesmo por uma margem pequena. Não foi isso que aconteceu. Foi Flávio Bolsonaro que conseguiu ganhar, ficar à frente. A margem não é, de facto, muito grande, mas ele parte aqui com uma grande vantagem. Para já, vai avançar para a segunda volta como favorito e isso é logo uma questão que é importante. E depois, sendo filho de Jair Bolsonaro, era o representante de uma corrente política, se quisermos, que parecia ter ficado órfã com a prisão de Jair Bolsonaro e a impossibilidade dele se candidatar. Houve várias hipóteses que foram admitidas para uma candidatura que representasse esse espectro do eleitorado, acabou por se decidir pelo filho, Flávio Bolsonaro, e apesar de ele não ter o carisma que tinha o pai, apesar de ter feito uma campanha em que apostava, sobretudo, em mostrar-se como um moderado face àquele radicalismo que era corporizado por Jair Bolsonaro, a verdade é que ele representa uma corrente política, o bolsonarismo, e essa corrente política, daqueles que até se queriam vingar daquilo que aconteceu há quatro anos, acabou por mostrar a sua força ao vencer a primeira volta destas eleições e ao partir com grande favoritismo para a segunda volta que aí vem.
Portanto, nesta fase, mesmo que tenhamos um cenário de vitória de Lula da Silva na segunda volta, se isso acontecer, Lula da Silva já vai ter de lidar com vários locais em que é o bolsonarismo que está a liderar, porque nesta votação, na primeira volta, não ficou decidido o lugar de presidente, mas ficou já decidida muita coisa desta eleição que se realiza no Brasil.
Sim, estas eleições decidiam várias coisas. Deputados, gestos federais, decidia quem é que seriam os governadores de vários estados. E desse ponto de vista, as coisas não correram bem também para o lado do Lula da Silva. Mesmo que ele ganhe na segunda volta, ele vai ter condições para governar muito diferentes daquelas que tem neste momento. Vai ter um congresso bastante mais à direita, vai ter muitos governadores que são do lado de Bolsonaro e, portanto, do ponto de vista político, ele fica agora com condições mais frágeis para governar. Se quisermos, podemos comparar com aquilo que também se passa nos Estados Unidos, que também vai a eleições. As sondagens indicam que os republicanos vão perder vários lugares e isso vai dificultar a vida de Donald Trump. Aqui com Lula da Silva. É a mesma coisa. Isto se ele ganhar a segunda volta, porque há aqui um dado histórico, claro, isto é apenas a história a falar, mas aquilo que a história nos diz é que desde que foi instaurada a democracia no Brasil, até agora, nenhum presidente ou nenhum candidato a presidente que ficou em segundo lugar na primeira volta, conseguiu virar esse resultado. Até agora, cada vez que houve segundas voltas nas eleições presidenciais, quem as ganhou foi quem já tinha ficado em primeiro lugar na primeira volta. E, portanto, desse ponto de vista, é mais uma dificuldade acrescida para Lula da Silva. Não quer dizer que ele não consiga fazer. A história está aí cheia de recordes que foram quebrados. Mas mesmo que o consiga fazer, depois quando lá chegar vai ter condições para governar, que não são exatamente as mesmas que ele tem agora.
Desta primeira volta, Flávio Bolsonaro 47%, Lula da Silva 45%. Estes são os resultados indicados desta primeira volta. A segunda vai realizar-se no próximo dia 25 de outubro. Vamos ao que disseram os principais candidatos, estes que vão à segunda volta. Flávio Bolsonaro falou a seu jeito, como vimos também no momento da votação, num grande aparato de apoiantes, de jornalistas, com curtas palavras, já a apontar para esta viragem para a direita no Brasil.
Sim, ele falou que acabou a era do PT no Brasil, isso é claro, música para os ouvidos dos seus apoiantes. Essas eleições são altamente polarizadas, nós temos ouvido dizer isso durante várias semanas e em particular durante os últimos dias. E este tipo de apoios que quer Lula da Silva, quer Flávio Bolsonaro congregam à sua volta de cada vez que aparecem, intensifica ainda mais essa sensação. É nós contra eles. É verdade que qualquer um dos dois tem uma taxa de rejeição enorme, ou seja, as pessoas que não gostam de Bolsonaro são muitas e as pessoas que não gostam de Lula são muitas também. Agora, aquilo que nós conseguimos perceber, tendo em conta estes resultados, é que os eleitores estão efetivamente cansados do governo de Lula, ou não se reveem já, ou sentem que ele não tem resposta para elas. E, portanto, é isso que Flávio Bolsonaro tentou capitalizar neste discurso de vitória desta primeira volta, nomeadamente fazendo referência a uma questão que também é importante para o eleitorado, que é a de que ele só vai candidatar-se uma vez ou defende apenas um mandato presidencial. Isso é uma questão que é importante também para os eleitores. Ele próprio falou disso, ou fez referência a isso neste discurso de vitória. E isto contrapõe, por exemplo, com a quarta vez que Lula da Silva poderia vir a ser presidente, caso ganhe as eleições na segunda volta. Ele fala de outras questões que também dominaram esta campanha, que têm a ver com a suposta interferência do sistema judicial na campanha eleitoral. Houve uma série de decisões nos últimos dias que tiveram a ver, por exemplo, com quem é que podia estar presente nos debates televisivos, que tipo de planos é que a própria televisão TV Globo podia mostrar nesse debate, que seria o debate decisivo desta primeira volta e que acabou por não se realizar, precisamente por força de uma série de decisões que foram tomadas por tribunais que têm a ver com a eleição e que se interpretou que tinham sido tomadas por juízes que eram favoráveis, que tinham sido nomeados ou que tinham trabalhado até de perto com Lula da Silva. Portanto, estas questões foram colocadas em cima da mesa por Flávio Bolsonaro, mas do outro lado, já agora, Lula da Silva também respondeu fazendo referência ao suposto envolvimento de Flávio Bolsonaro com um dos maiores escândalos de corrupção que existe aqui no Brasil e que tem a ver com o antigo Banco Master. E, portanto, digamos que nos discursos de cada um deles foram feitas declarações que tentavam, por um lado, galvanizar os seus apoiantes e, por outro lado, atacar de forma severa o adversário, mostrando que esta segunda volta, e cumprindo aqui também uma tradição do Brasil, vai ser muito mais agressiva do que aquela que foi a primeira volta.
Lula da Silva fala no mata-mata, essa expressão que nós em Portugal passamos a utilizar desde o Euro 2004, por causa de Scolari. E Lula da Silva a dizer que é muito bom no mata-mata, mas tem aqui um caminho muito difícil pela frente para esta segunda volta, dado também esses registos históricos que já referiste.
Sim, é verdade que ele já foi várias vezes a segundas voltas. Ele diz que o brasileiro gosta de o pôr em segunda volta e que ele é bom na segunda volta. Muito bem. A questão é: ele já perdeu segundas voltas anteriormente e ele neste momento tem aqui uma dificuldade numérica. Ele fez um discurso onde tentava já apelar àqueles que não foram votar. Estamos a falar de cerca de 30 milhões de eleitores, é muita gente se olharmos, mas em termos de população do Brasil, é uma porcentagem relativamente baixa. Estamos a falar de 21% de abstenção. Ainda assim, mais baixa do que aquilo que se imaginava. É uma taxa de abstenção recorde, mas mais baixa do que aquilo que se imaginava. Mas estão ali cerca de 30 milhões de votos e, portanto, Lula da Silva já indicou que quer ir atrás deles. Qual é que é o problema? Não é garantido que essas pessoas se revejam na sua candidatura, mesmo que agora seja entre um e outro, apenas. Essas pessoas que não foram votar podem, pura e simplesmente, continuar a não ir votar. Depois, tem aqui outra questão que é Não era apenas Lula e Bolsonaro a candidatar-se nesta primeira volta, havia 12 candidatos. Esses candidatos não tiveram votos muito expressivos, não foram muitos votos. Mas, ainda assim, como o resultado entre um e outro foi muito próximo de Lula e de Bolsonaro, foi aliás, a menor diferença já registrada em democracia entre dois candidatos numa primeira volta, eles vão precisar dos votos que foram para os outros candidatos. Vamos assumir que uma parte desses votos não vai para nenhum deles. Portanto, os eleitores que votaram nas outras propostas não se reveem em nenhum deles e vão dizer: "Bom, na segunda volta, eu não vou votar em nenhum". Há essa possibilidade. Mas os estudos também mostram que entre os vários candidatos que estavam ocorrendo esta eleição, e tendo em conta as afinidades políticas mais à direita ou mais à esquerda, cada um deles tem, aquilo que se calcula é que cerca de dois terços desses votos possam ser distribuídos desta forma: vão para Bolsonaro, apenas um terço vai para Lula da Silva. E, portanto, do ponto de vista matemático, daquilo que se espera do comportamento dos eleitores nesta segunda volta, as contas também não são favoráveis a Lula da Silva. Portanto, ele tem aqui um caminho bastante difícil pela frente.
Pedro, para fechar no minuto, estas eleições fazem-nos naturalmente recuar ao que aconteceu depois da outra eleição, esse caso do ataque à sede dos Três Poderes, que chocou o Brasil, chocou o mundo, muito semelhante ao que aconteceu, por exemplo, também no Capitólio, nos Estados Unidos da América. Tu que estás no terreno, já falaste aqui da polarização, e essa palavra é utilizada para descrever quase sempre também as eleições no Brasil. Como está o clima? Se achas que isto, de fato, é algo que pode voltar a acontecer e uma parte não aceitar os resultados eleitorais?
Essa é uma boa questão. Na verdade, eu há quatro anos estive aqui no Brasil a cobrir, sobretudo a campanha da segunda volta e as eleições da segunda volta, e o ambiente que encontrei era bastante diferente daquilo que eu encontrei agora, embora seja apenas a primeira volta desta vez. Mas a verdade é que há quatro anos já se falava muito, sobretudo o campo do Bolsonaro, o pai, Bolsonaro, Jair Bolsonaro, falava muito da possibilidade dessas eleições estarem a ser manipuladas, serem fraudulentas, etc. Portanto, já se criava aquela ideia de que o resultado que fosse apurado naquela segunda volta pudesse vir a ser contestado. Não é isso que está a acontecer aqui. As trocas de acusação entre os candidatos são duras, mas até agora não se tem visto propriamente nenhuma das candidaturas, sobretudo do lado de Bolsonaro, pôr em causa o resultado eleitoral. Mas isto, atenção, é apenas na primeira volta. Nesta segunda volta, neste mata-mata, como diz Lula da Silva, em que é um contra o outro, em que se espera uma dramatização e radicalização do discurso, eu não sei o que é que vai acontecer. Dito isto, Bolsonaro parte como favorito, não foi o que aconteceu há quatro anos, e portanto, partindo como favorito, também não lhe seria propriamente conveniente estar a pôr em causa aquilo que é o resultado apurado destas eleições, até agora, que lhe deram uma vitória nesta primeira volta.
Vamos ver como corre a segunda volta. Obrigado, Pedro.
Obrigado, Miguel.
O Pedro Mendonça estará de regresso à História do Dia. Por agora, acompanha de perto as eleições gerais do Brasil, a partir do Rio de Janeiro, ao serviço da CNN Portugal e da TVI. Esta foi a História do Dia. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.
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