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Monday, October 19, 2026

Gabriel Wickbold leva 20 anos de carreira à fundação de Paulo Coelho

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Rostos montados com fragmentos de outras pessoas, corpos cobertos de tinta e figuras atravessadas por fissuras e matéria orgânica ocupam desde 15 de outubro as paredes do L'Espace des Arts, em Genebra, na Suíça. As imagens são do fotógrafo carioca Gabriel Wickbold, que leva à Fundação Paulo Coelho e Christina Oiticica a exposição Immersion and Origin: Act II, com trabalhos de diferentes fases de seus 20 anos de trajetória. A mostra fica em cartaz até 21 de novembro.

Com curadoria do arquiteto Marcelo Mendonça, em parceria com a galeria Espace_L, o percurso foi organizado sem ordem cronológica, aproximando séries feitas em momentos distintos para mostrar como as mesmas inquietações reaparecem ao longo do tempo. Entre elas estão a construção da identidade e a forma como as pessoas passaram a se apresentar aos outros num cotidiano cada vez mais mediado pelas redes sociais.

A exposição em Genebra dá sequência ao primeiro ato do projeto, apresentado em setembro no Museu do Estado de Pernambuco, no Recife, com 60 obras. Na ocasião, Wickbold descreveu as duas décadas de produção como uma busca contínua pela identidade e disse que uma pergunta atravessa todas as séries, "como podemos mudar tanto sem deixar de ser quem somos?".

Um trabalho a quatro mãos

Obras de Gabriel Wickbold expostas em “Immersion and Origin: Act II”, em cartaz até 21 de novembro na fundação (Divulgação)

A principal novidade da montagem suíça é a instalação Passagem do Tempo, criada por Wickbold com Christina Oiticica, artista carioca casada com Paulo Coelho e conhecida por deixar suas telas expostas à natureza, muitas vezes enterradas, durante meses antes de considerá-las prontas. A obra nasce do diálogo entre as linguagens dos dois e trata das marcas que o tempo deixa no corpo, na matéria e na experiência humana.

"A instalação Passagem do Tempo é um encontro muito bonito entre nossos trabalhos, acrescentando à obra uma dimensão de fé e proteção, em diálogo com o tempo, a memória e as nossas raízes brasileiras", afirma Christina.

Do São Francisco às redes

Nascido no Rio de Janeiro em 1984, Wickbold passou pela poesia e pela música antes de se dedicar à fotografia, em 2006. Uma viagem de 45 dias pelo rio São Francisco, da nascente até a foz, deu origem à série Brasileiros, que também está em Genebra. Os rostos e corpos registrados no percurso viraram livro em 2021, com textos do crítico de fotografia Rubens Fernandes Jr. e do músico e escritor Emicida.

Em Sexual Colors, o corpo funciona como suporte para a pintura, e gesto, cor e fotografia se misturam na mesma imagem. Naive trata da relação entre o ser humano e a natureza, com figuras marcadas por rachaduras e elementos orgânicos, enquanto Sans Tache apresenta cicatrizes, desgastes e imperfeições como registros da passagem do tempo.

A tecnologia ganha espaço em I Am Online, série que observa a vida conectada e as relações digitais que aproximam as pessoas ao mesmo tempo em que podem limitá-las. Em I Am Light, a luz assume o sentido de presença e consciência, e em Maze os rostos são compostos a partir de fragmentos de pessoas e memórias diferentes, colocando em xeque a ideia de uma identidade fixa.

Trajetória internacional

O artista tem obras nos acervos do Erarta, em São Petersburgo, e do Museu de Arte Brasileira da FAAP, em São Paulo, onde em 2020 se tornou o artista mais jovem a ganhar uma exposição individual. Também participou da Photo London. Em 2019, levou ao Coletivo 284, em Lisboa, 18 obras das séries I Am Light, Naive, Sexual Colors e I Am Online, e aproveitou a passagem por Portugal para lançar seu primeiro livro, uma retrospectiva da carreira.

Inaugurado em maio de 2025, o L'Espace des Arts é o braço expositivo da fundação criada pelo casal para preservar seu legado, com um acervo de mais de 3 mil livros publicados ao redor do mundo, além de manuscritos, fotografias, vídeos, prêmios e obras de arte. O espaço estreou com Dichotomie, que reuniu trabalhos de Christina Oiticica, do artista indígena TxaTxu Pataxó e do fotógrafo Sergio Zalis. A exposição de Wickbold está no Chemin du Velours 26, em Conches, Genebra.

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