Wagner Moura cumpre a expectativa em "A Última Casa", uma odisseia no lar

Eu sou do grupo de espectadores que, atraído pela presença de Wagner Moura e também pela detonação dos críticos, assistiu e gostou bastante do filme.
Poderia ser apenas pela diversão das cenas de ação, misturadas ao suspense e à ficção científica, que prendem a atenção, provocam sustos e também alguma comoção. Mas quero compartilhar por aqui algumas reflexões que o filme me despertou e que, para mim, fazem a obra valer a pena, especialmente por nos levar a pensar sobre os modos de domínio humano sobre a natureza.
Lembranças da pandemia
A Última Casa pode ser uma forma de enxergar o "abismo cognitivo" alertado pelo pensamento de Ailton Krenak sobre a impossibilidade de separação entre nós, humanos, e o mundo que habitamos.
A denominação do planeta como Terra se dá, justamente, em referência ao espaço mais habitado e mais dominado pelos seres humanos. E também ao mais destruído pela ação gananciosa de acúmulo de poder e dinheiro, fenômeno atualmente estudado pela ideia de antropoceno.
Ao invés de se reconhecerem como parte da natureza, os humanos se colocaram em oposição a ela. Ao enfrentar os desafios naturais, desenvolveram coisas incríveis, mas também criaram dificuldades para a própria espécie, transformando o mundo em um espaço de desafios diários, a começar pela convivência na sociedade, com a vizinhança e até dentro da própria casa, com a família.
Desagradada com esse império humano deformado, a natureza pode decidir mostrar sua força e lembrar quem realmente manda.
A humanidade sentiu isso na pele durante os anos da pandemia de Covid-19, quando tivemos que admitir nossa submissão à natureza, reposicionar nosso poder, reaprender hábitos mínimos de higiene, cuidado e armazenamento de alimento, energia e atenção e, principalmente, reaprender a viver em um universo mínimo em nossos lares, com nossos familiares e vizinhos.
Diferentemente do jornalismo, que acompanha os fatos na simultaneidade da ocorrência e com o mínimo de interferência possível, buscando aproximar-se da realidade, uma das funções da arte é expandir o real, criar alegorias da vida, sendo fiel não necessariamente aos fatos, mas aos sentimentos despertados por eles.
Assim, é possível assistir A Última Casa lembrando do nosso trauma mais recente nesse conflito entre homem e natureza: a pandemia, que nos deixou confinados, sem compreender bem de onde vinha a ameaça, a dimensão da tragédia ou quando ela chegaria ao fim.
A presença de Wagner Moura e Greta Lee não é apenas um atrativo de audiência para o filme. Um dos destaques do longa é, sobretudo, o talento dos quatro atores que concentram quase toda a narrativa de duas horas, em diálogos tensos e tentativas de sobreviver ao caos provocado por um fenômeno inexplicável: uma chuva forte que literalmente tranca as pessoas dentro de suas próprias casas.
Confirmando a expectativa, Wagner defende muito bem o papel do pai que precisa assumir a tarefa de proteger a família, enfrentar o desconhecido, superar seus limites e ainda ter sensibilidade para escutar a esposa e os filhos e aceitar suas contribuições para o desafio coletivo.
Uma odisseia no lar
Provocado pela recente superprodução dirigida por Christopher Nolan, não escapei de relacionar a Odisseia de Ulisses, a referência primordial do herói descrito por Homero, com a saga do personagem de Wagner Moura no filme da Netflix. Ulisses enfrentou os desafios da natureza, seres mitológicos e poderes fantásticos para voltar para casa, reencontrar sua família e recuperar seu reino.
Jason Delgado também precisa enfrentar desafios da natureza e forças inanimadas, utilizando, tal qual Odisseu, astúcia, coragem e senso de liderança para proteger sua família, mantê-la viva e unida.
Só que, nesta versão contemporânea, o herói está dentro da própria casa. Ele enfrenta não apenas o poder sobrenatural, ou melhor, supernatural, pois ainda se trata da natureza representada pela chuva e pelos monstros devastadores, mas também obstáculos desprezados pelos humanos em sua ambição pelo poder sobre as coisas.
São obstáculos como a falta de comunicação, o desconhecimento real do outro que está tão perto, a incapacidade de escutar os sinais dados pela natureza, a dificuldade de aceitar os próprios limites físicos e a ausência de compaixão para compreender a natureza como aliada.
É possível lembrar de Krenak e imaginar-se parte dessa natureza, tal qual aquelas plantas e aqueles bichos preservados do lado de fora da casa e observados pela janela.
A arte pode imaginar o porvir
Além da expectativa gerada pela trajetória de Wagner Moura, especialmente pelo sucesso de O Agente Secreto, que o colocou em uma estante de atores de filmes supercult, as críticas vieram principalmente da cobrança por nexos no roteiro.
Detalhes menores, como a dúvida sobre a validade do remédio, a facilidade com que o túnel da rede sanitária chega à casa do dentista, a demora de seis meses para a energia acabar por completo ou a decisão do pai de colocar as crianças para fazer exercícios físicos, além das atividades escolares, em uma situação na qual economizar energia seria mais recomendado.
Esquecem que, para além do compromisso com os sentimentos já experimentados pelos humanos, a arte também se presta ao porvir, ao "e se".
Como nos comportaríamos se uma nova pandemia nos enclausurasse em casa e, ao invés das tecnologias que nos possibilitaram comunicação intensa, conexões com outras pessoas, alimentos chegando às nossas portas, compras e mais compras graças à rede de exploração de outros seres humanos que não tiveram o privilégio de apenas ficar em casa e tiveram que arriscar a própria saúde para atender às necessidades dos outros?
Manteríamos a união e a esperança dos Delgados? Teríamos ideias de plantio de alimentos, como faz a mãe, ou de criar engenhocas, como o pai? Ou tentaríamos ler os sinais dados pela própria natureza, como faz a pequena Ruth, cativantemente interpretada pela jovem Riley Chung?
Ao invés de um filme bobo, A Última Casa pode reforçar os alertas sobre como nossa forma de tratar o planeta traz consequências desastrosas, capazes de levar à impossibilidade da vida humana nesse planeta.
A invasão pela água e pelos seres do mar se junta à queda do céu do manifesto indígena do xamã e líder yanomami Davi Kopenawa, registrado no belo filme de Eryk Rocha.
Nem tudo é terra arrasada nessa presença humana na Terra. O filme também traz mensagens, não explícitas, de valorização das criações humanas, como os esforços da família em buscar alimentos do lado de fora da casa, o entretenimento familiar proporcionado por mídias analógicas que não nos abandonam e a própria penicilina, que mantém a criança viva. São exemplos de invenção humana em meio ao antropoceno.
Entre elas está também a arte. E, nela, o cinema e a ficção científica, como criações humanas capazes de nos proporcionar diversão e, ao mesmo tempo, reflexão sobre nossa própria condição e sobre as possibilidades do futuro.
Opinião
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