MUDE. Toda a beleza do mundo em 502 joias contemporâneas

“Apontamos para esta nova dimensão de joalharia de refletir sobre o tempo presente, o mundo à nossa volta. A joalharia é a primeira expressão artística, humana, simbólica; encontramos conchas furadas em Marrocos com milhares de anos. Transformamos o nosso corpo com o corpo do mundo. Não sabemos o que os nossos antepassados queriam dizer com isso, mas continuamos a usar as joias para contar as nossas histórias.”, explica Marta Costa Reis, diretora da PIN, que divide a curadoria com Manuel Castro Caldas e Tereza Seabra. “O sentido que atribuímos torna as peças mágicas e sagradas”, complementa. De Mariko Kusumoto a Leonor Hipólito, de Tamia Dellinger a Susana Beirão, de Benedikt Fischer a Ana Jotta, sem esquecer Carla Castiajo e o seu trabalho com os pelos humanos, ou ainda as luvas presas de Isabela Perillo, numa reflexão sobre o lugar da mão, há muito para descobrir.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O colar de Carla Castiajo
A exposição percorre um acervo que inclui criações próprias de Seabra, criadora formada em finais de 60 em Nova Iorque com Thomas Gentille e em Hamburgo com Almir Mavignier, e que regressou a Lisboa em 1978 para fundar o Departamento de Joalharia do Ar.Co, que dirigiu durante mais de duas décadas e que se tornaria a principal escola de formação nesta área em Portugal. Em 1984, abriu aquela que foi a primeira galeria de joalharia contemporânea do país — inicialmente Artefacto3, mais tarde Galeria Tereza Seabra – Joias de Autor, com a sua morada no Bairro Alto. O acervo que agora se expõe é o resultado direto das escolhas pessoais, curatoriais, e pedagógicas acumuladas ao longo de décadas de prática e de relação próxima com artistas portugueses e estrangeiros. É também fruto da doação da coleção de joalharia contemporânea de Tereza Seabra ao Município de Lisboa para integrar, de forma permanente, o acervo do MUDE. “Tereza foi uma mulher muito atenta e continua a criar com clareza extraordinária. Ela tinha estas peças guardadas. Fez o trabalho de catalogação e acompanhou o resto da inventariação. Tereza fez uma coleção antológica mas não de carácter temático.”, define Marta.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Uma imagem de Tereza Seabra, que vê exposto no MUDE o seu espólio de joalharia contemporânea
No piso menos 1, os cofres do MUDE, vai ser ainda possível ver uma peça especial, coletiva, o colar tributo feito para Tereza Seabra com coordenação de Cristina Filipe, que funciona como uma instalação.
Paredes meias com a exposição do espólio de Tereza Seabra há outro ponto expositivo para descobrir no piso 2 do MUDE. “Coexistências – A Joalharia e a Beleza do Mundo”, mostra principal da 3.ª Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa, é uma coletiva que reúne 156 peças de 70 autores, apoiada pelo museu, com curadoria de Marta Costa Reis e de Patrícia Domingues. O design do espaço muda de feição, acusando a densidade visual do conceito, para um mergulho profundo em tons de terracota, com assinatura de Miguel Vieira Baptista, com o design gráfico a cargo do Studio on Pluto. Qual gabinete de curiosidades saído do período iluminista, a correnteza de estantes convida a uma classificação de cada peça de joalharia com atenção ao detalhe, ouvido atento a cada história e, antes de mais, às propostas reflexivas que cada peça encerra. Por aqui, encontram-se três criações do acervo do museu, como a corrente de Manuel Vilhena, ou um colar-garra de Tereza Seabra.
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