A IA na saúde tem de prestar contas

Uma lista de espera não fica mais curta por constar de uma estratégia digital. Entre anunciar inteligência artificial e conseguir que alguém seja atendido mais cedo, há decisões sobre dinheiro, organização e trabalho clínico. É nesse percurso que uma política de saúde merece ser avaliada. O número de ferramentas compradas pode interessar à contabilidade; ao doente interessa o que mudou nos cuidados.
A resolução que aprova a Agenda Nacional de Inteligência Artificial foi publicada em janeiro de 2026. Em maio, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde apresentaram projetos ligados à triagem, à redução dos tempos de espera e à gestão de recursos, segundo um comunicado do Governo. Há, portanto, iniciativas de saúde associadas à agenda. O que estes anúncios não demonstram, por si só, é o benefício alcançado.
Cada investimento público em IA devia vir acompanhado de informação simples: o problema que procura resolver, quanto vai custar e como será avaliado. Incluindo o custo de ligar o programa aos sistemas existentes, formar as equipas e manter o serviço. Uma proposta que omita estas despesas não permite perceber o compromisso que o hospital está a assumir.
A avaliação precisa de começar antes da compra. Se o objetivo é acelerar a leitura de exames, há que medir o tempo até à decisão e acompanhar os erros. Se é melhorar o acesso, interessa saber quem passou a receber cuidados. Estas escolhas obrigam a definir o que conta como sucesso e impedem que a discussão termine numa demonstração convincente do produto.
Também é preciso decidir onde investir. Dar sempre prioridade às unidades mais preparadas pode deixar as restantes ainda mais longe. Os cuidados de saúde primários e os serviços com maiores dificuldades precisam de participar na escolha dos problemas a resolver. E precisam de meios para usar as soluções, não apenas de autorização para as comprar.
Os resultados devem ser públicos, incluindo os que ficaram aquém do esperado. Um projeto que não cumpriu os objetivos pode deixar informação útil para outros serviços, desde que se perceba o que falhou. Esconder essa experiência favorece a repetição da despesa. Rever uma decisão de compra não deve ser tratado como uma derrota institucional.
Nada disto exige suspender a inovação até desaparecer toda a incerteza. Exige avançar com critérios e capacidade de corrigir o rumo. Ao fim de um ano, um serviço deve conseguir explicar o que melhorou, quanto custou e se vale a pena continuar. É uma exigência razoável para qualquer investimento em saúde. A presença de inteligência artificial no nome do projeto não a torna menos necessária.
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