O "Casamento aberto" como mais um capítulo da banalização

Ao fazer scroll pelo feed deparei-me com um artigo publicado no Telegraph há dois anos que apresenta o “casamento aberto” (ou “não-monogamia negociada”) como um arranjo perfeitamente válido, até reforçador do vínculo conjugal.
Em Julho de 2024, Nash e Karl, casados há dez anos, contam como, após quatro anos de relações com terceiros, as pessoas os confundem com recém-casados porque ainda andam de mãos dadas e se beijam. Definiram regras (cama conjugal “sagrada”, proibição de amigos e família, protecção), usaram aplicações de encontros e afirmam que a abertura os aproximou.
Em 2020, Tova Leigh descreveu como pediu ao marido um casamento aberto depois de uma crise de saúde, porque o sexo dentro do matrimónio “não era suficiente”. O marido concordou com passos graduais e total transparência; ela planeia contar às filhas para que saibam que “não estão presas a estereótipos”.
Outros artigos do mesmo jornal relatam threesomes (ménages à trois) que “melhoraram” o casamento, casais swingers de décadas e a ideia de que a monogamia não é necessária para a segurança e o amor, desde que haja comunicação e consentimento.
Estes textos não são apresentados como curiosidades marginais. São publicados nas secções de família, relações e saúde/sexo, com um tom empático ou até celebratório, enquadrando-se num padrão mais amplo: a comunicação social secular normaliza, relativiza e, em muitos casos, glorifica arranjos que diluem a exclusividade e a fidelidade que tradicionalmente definiam o matrimónio. Ao lado de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, de casos virais de “casamentos” com bonecos de pano, árvores ou hologramas (objectofilia ou meros gestos publicitários), e da promoção das uniões de facto, cria-se um ambiente cultural em que o casamento monogâmico heterossexual parece apenas uma opção entre muitas — ou até algo a evitar.
A Ordenança Divina, Não a Criação do Estado
Na perspectiva cristã, o casamento não é uma invenção cultural nem um contrato que o Estado ou os indivíduos possam redefinir à vontade. É uma ordenança da criação, instituída por Deus antes de qualquer governo civil. Génesis 2:24 estabelece: «Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.» Jesus confirma esta origem e o seu carácter exclusivo e vitalício em Mateus 19:4-6: «Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.» A Confissão de Fé de Westminster (capítulo 24) resume a posição clássica: o casamento deve ser entre um homem e uma mulher, monogâmico, para mútua ajuda, procriação e prevenção da imoralidade sexual. Não se trata de um sacramento no sentido católico romano, mas é uma instituição santa de Deus, regulada pelos Seus mandamentos (e não apenas “abençoada” para depois ser deixada à total autonomia dos cônjuges).
O Estado pode e deve reconhecê-la e protegê-la para o bem comum — especialmente no que toca aos filhos e à propriedade —, mas não a cria. A união de facto, em Portugal (Lei n.º 7/2001), é uma criação legislativa: a coabitação de duas pessoas (independentemente do sexo) após dois anos, com alguns direitos (casa de morada de família, certos benefícios sociais e fiscais), mas sem um regime de bens automático nem os direitos sucessórios plenos do cônjuge. Funciona, na prática, como um substituto que enfraquece o incentivo ao casamento formal.
A Erosão e a Propaganda
O “casamento aberto” é, nesta visão, simplesmente adultério consensual — a violação do sétimo mandamento e da natureza da “uma só carne”. Hebreus 13:4 declara: «Venerado seja entre todos o matrimónio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará.» Efésios 5:22-33 apresenta o casamento como imagem da relação entre Cristo e a Igreja: exclusiva, sacrificial e fiel. Romanos 1 descreve a inversão da ordem criada quando a humanidade troca a verdade de Deus pela mentira e se entrega a paixões desordenadas.
A cobertura mediática que apresenta estes arranjos como libertadores ou até reforçadores do vínculo contribui directamente para a sua banalização e para a rejeição sistemática da autoridade do Criador sobre a sexualidade e a família. A lógica da autonomia absoluta do indivíduo — a premissa de que “qualquer relação consensual deve ser reconhecida” — não possui qualquer travão interno óbvio. A poligamia e as relações incestuosas consensuais entre adultos já encontram defensores em alguns círculos (ainda minoritários). Os casos de “casamentos” com objectos, embora raros, são amplificados como excentricidades, reforçando a ideia de que o casamento pode ser qualquer coisa que alguém declare.
Esta constante redefinição de fronteiras acaba, contudo, por colapsar sob o peso das suas próprias contradições, algo que a própria imprensa secular se vê forçada a admitir. Recentemente, uma crónica no próprio The Telegraph analisava as falhas inerentes a estes modelos, recorrendo à ironia para constatar que a pomposa expressão moderna de “não-monogamia consensual” não passa de um rótulo pretensioso para legitimar a infidelidade. A autora sublinhava uma verdade incontornável: mesmo quando as regras tradicionais da exclusividade são abolidas e o “casamento aberto” é concedido, a quebra de confiança e a traição continuam a manifestar-se. Isto prova que, ao contrário do que a propaganda proclama, a eliminação dos limites morais não protege o vínculo, antes expõe a fragilidade e o egoísmo de uma união desprovida de uma verdadeira aliança.
Dados sociológicos continuam a mostrar que, em média, as crianças obtêm melhores resultados em lares estáveis com ambos os pais biológicos casados. A teologia reformada liga este facto ao desenho original de Deus, e não a uma preferência cultural arbitrária. A queda das taxas do casamento, o aumento da coabitação e a cultura que trata o compromisso vitalício como opcional são efeitos cumulativos, e não coincidências isoladas.
Resposta e Testemunho
A resposta não passa pelo ódio às pessoas, mas pela fidelidade à ordem criada e pelo testemunho da bondade do desenho divino. O casamento bíblico não é uma prisão cultural; é a aliança que ordena a sexualidade, cria uma família estável e reflecte o amor de Cristo pela Igreja. Quando a cultura e o Estado tentam reescrevê-lo — seja através de casamentos do mesmo sexo, uniões de facto ou da glorificação mediática do adultério consensual sob o nome de “casamento aberto” — estão a usurpar a autoridade do Criador.
O adultério não é uma evolução; é uma tragédia humana, com consequências devastadoras para a confiança e a família. Até a própria indústria de Hollywood, de matriz profundamente secular, o retrata frequentemente como o rastilho para inúmeros dramas e desfechos trágicos.
A recuperação começa pelo reconhecimento do que Deus disse e pelo valor da instituição que Ele estabeleceu, anterior e superior tanto ao Estado como às preferências individuais do momento.
Como contra-argumento vivo à narrativa secular, eu própria e muitos casais que conheço, com mais de 25 anos de casados, continuamos a andar de mãos dadas e a beijarmo-nos com o mesmo carinho de sempre, sem nunca termos precisado de adoptar o adultério como prática para manter viva a chama do amor.”
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