Próximo governo deve passar confiança de que fará ajuste fiscal, dizem executivos
São Paulo O ajuste fiscal é um dos temas prioritários para o próximo governo, mas esse não é um problema a ser resolvido em uma canetada, de acordo com diversos executivos brasileiros. Segundo eles, antes de pautar algum projeto, é preciso despertar confiança e apaziguar ânimos em um país polarizado, passando uma clara visão de futuro e de projeto econômico.
As declarações foram dadas nesta quinta-feira (24), em evento da Folha em São Paulo para promover o lançamento do C-Level, novo site de negócios e finanças do jornal, que aborda também temas como inteligência artificial, infraestrutura, economia sustentável, agronegócios e regulação.
O evento, realizado no Fasano, em São Paulo, teve a participação de executivos como Adriana Moucherek (Ajinomoto), Gustavo Assunção (Samsung), Julio Gama (Bracell), Marcela Rocha (JBS), Paulo Chung (BHP), Luiz Lara (TBWA), Leonardo Sica (OAB-SP), Alcides Ferreira (Fato Relevante), Guilherme Barros (GBR Comunicação) e Marcos Trindade (FSB).
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"O próximo governo tem de começar trazendo uma certa paz, uma visão de futuro que possa ser acompanhada de ações concretas para fazer o Brasil sair de uma situação que hoje é bem preocupante. Com certeza, isso envolve a área fiscal, mas a situação hoje exige muito mais", afirmou o economista Arminio Fraga, sócio-fundador da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, que disse não acreditar em uma medida mágica para a economia.
Na mesma linha, Leandro Vilain, presidente da Associação Brasileira de Bancos e que será presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) a partir de novembro, afirmou que não crê em uma bala de prata. "Se fosse fácil, estava feito. Chegava no dia 1º, dava uma canetada e resolvia todos os problemas."
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Ele afirma que as contas públicas e a Previdência precisarão ser trabalhadas no próximo governo.
"A taxa de juros vai ser uma consequência dessas medidas, inclusive dos fatores externos, como a guerra e o petróleo. É um cenário muito imprevisível", disse.
C-Level
Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesPara Isaac Sidney, atual presidente da Febraban, a nova gestão deveria apresentar, logo no início, uma agenda de investimentos e produtividade e outra de contenção fiscal.
"Já seria suficiente para poder delinear as expectativas dos agentes econômicos. Quanto mais crível for o conjunto de ações, melhor elas serão assimiladas", afirmou.
Ele disse que não haverá como deixar de tratar de medidas para melhorar as expectativas de inflação e a trajetória futura de juros.
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"Isso passa, necessariamente, por um ambiente de negócios melhor e que possa gerar uma perspectiva de estabilidade da trajetória da dívida, com o mínimo possível de exceções e o máximo de transparência fiscal."
Sidney afirmou que nenhum governo deveria terminar o mandato sem buscar reduzir os custos de capital e de crédito, considerados por ele como alavancas do crescimento sustentável.
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset e colunista do C-Level, disse que o próximo presidente terá de adotar rapidamente medidas para quebrar a percepção de que a dinâmica fiscal é insustentável. "O governo tem que terminar o mandato entregando um Orçamento mais saudável e moderno, que converse com a realidade da população e tenha liberdade, pois hoje ele é muito rígido."
Piero Minardi, sócio-fundador da Lazuli Partners, gestora de private equity, também defendeu que a primeira ação do próximo presidente na área econômica seja ganhar a confiança dos investidores de que haverá disciplina fiscal.
"O novo governo não pode terminar o mandato sem fazer uma reforma séria da Previdência", disse.
Eduardo Monteiro, vice-presidente para Brasil e Paraguai da Mosaic, do setor de fertilizantes, disse que uma revisão da política monetária e fiscal deveria ser a prioridade do próximo governo.
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"Um dos grandes problemas da economia brasileira é a taxa de juros", afirmou. "O agronegócio passa por desafios importantes atrelados à disponibilidade de crédito em função de juros altos."
Como medida indispensável até o final do próximo mandato, ele disse apoiar uma reforma fiscal rigorosa, com administração eficiente de gastos.
"Isso gerará consequências positivas para o país como um todo, impactando todos os setores da economia, porque equaliza também a política monetária e taxa de juros", disse.
O fiscal também foi o principal ponto levantado por André Porto, diretor executivo da Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia), que reúne empresas como Uber e iFood.
"É um tema sobre o qual precisamos nos debruçar enquanto sociedade, sem isso não vamos conseguir ter uma estabilidade econômica para proporcionar o crescimento sustentável."
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Alessandro Cunha, CEO da Aviva, grupo de resorts e parques aquáticos, também citou mudanças nas relações de emprego.
"Precisamos de uma reforma trabalhista mais profunda, estamos muito engessados em um modelo único, que é muito arcaico. É preciso modernizar as leis trabalhistas para dar mais flexibilidade para os trabalhadores e para as empresas", afirma.
Já Donovan Ferreti, diretor-gerente da Ticketmaster Brasil, disse que uma das primeiras ações do governo deveria ser voltada às bets. Ele afirma que a regulamentação das empresas de apostas mudou a forma como o brasileiro consome entretenimento.
"Percebemos que a compra acaba ficando muito em cima do evento, ou até mesmo a pessoa deixa de consumir o entretenimento e passa a consumi-lo no formato de aposta. Enxergamos isso na cadeia toda, desde viagem, hotel, até o restaurante", afirma.
Ferreti disse ainda que o próximo governo deverá aplicar a regulamentação para o setor de entretenimento, com mais controle sobre a cadeia de revenda de ingressos. "Hoje, no Brasil, é uma legislação pouco cuidada, principalmente na parte de fraude online."
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Camila Pantera, co-CEO e diretora jurídica e de regulação da N5X, plataforma de negociação de energia, afirmou que o fortalecimento das instituições deveria guiar as primeiras ações do novo governo.
Órgãos como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o Banco Central e a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) precisam ser reforçados, disse. "Não adianta discutir princípios na área econômica e social se as instituições estão enfraquecidas e não conseguem implementar as políticas."
Ela afirmou que uma política de desenvolvimento do mercado de gás natural para garantir segurança energética, com integração entre agências reguladoras estaduais, deveria ser outra prioridade.
Bruno Rossini, diretor de comunicação da 99, disse defender medidas que destravem a competitividade para as empresas de tecnologia, de modo a trazer inovações ao mercado e avançar na digitalização de serviços.
"Criar as bases para que esse investimento possa ser frutífero e manter uma estabilidade jurídica são os dois principais desafios da perspectiva de tecnologia para o Brasil", afirmou.
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O C-Level e outras iniciativas do jornal para os próximos meses foram apresentados por Carlos Ponce de Leon, diretor-geral da Folha, e Sérgio Dávila, diretor de Redação.
"Alcance e credibilidade geram audiência de qualidade. Audiência de qualidade gera impacto e visibilidade. Essa combinação de alcance, credibilidade e impacto é que insere uma marca no debate de alto nível", disse Ponce.
"Espero que o novo C-Level faça exatamente isso todos os dias: ajude nossos leitores a distinguir o essencial do acessório e lhes dê melhores elementos para compreender os riscos, as oportunidades e as escolhas que têm pela frente", afirmou Dávila.
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