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Saturday, October 10, 2026

Por que EUA querem retomar execuções públicas após quase um século?

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    • Author, Sheila Flynn
    • Role, Da BBC News nos EUA
  • Published

  • Tempo de leitura: 5 min

Eles vieram aos milhares, de perto e de longe. Homens, mulheres e crianças formaram fila na margem de um rio no Kentucky para o enforcamento público de um homem negro condenado por estuprar e matar uma viúva branca idosa.

Era 14 de agosto de 1936 em Owensboro, Kentucky, uma sexta-feira escaldante em meio a uma onda de calor lendária. Alguns dormiram perto da forca para garantir seus lugares. Outros fizeram festas na noite anterior, chegando de ressaca enquanto adolescentes vendiam pipoca e refrigerante aos espectadores.

Por volta das 5h da manhã, horário da execução, a multidão já havia aumentado para cerca de 20 mil pessoas.

Foi então que Rainey Bethea, um órfão na casa dos 20 anos, subiu ao cadafalso — condenado à morte após supostamente confessar ter roubado, estuprado e assassinado Lischia Edwards, de 70 anos.

Na tarde anterior, ele havia feito sua última refeição, que consistia em frango frito, costeletas de porco, purê de batatas, pepinos em conserva, pão de milho, torta de limão e sorvete.

Muitos dos presentes — incluindo jornalistas vindos de lugares tão distantes quanto Chicago e Nova York — vieram para ver a tal "Carrasca"; o xerife local havia falecido quatro meses antes, e sua viúva tornou-se a improvável substituta feminina. Ela, no entanto, recusou-se a acionar a alavanca do cadafalso, e foram os carrascos contratados que enviaram Bethea à morte.

Aquele momento marcou o último enforcamento público de grande repercussão nos Estados Unidos. O circo midiático em torno da morte de Bethea envergonhou muitos no Kentucky, e o governador proibiu as execuções públicas 18 meses depois.

Naquela época, a maioria dos Estados já havia abolido a pena de morte em massa, à medida que a sociedade buscava métodos mais humanos e privados. Outro enforcamento, com a presença de algumas centenas de pessoas, ocorreu no Missouri em 1937, mas foi menos conhecido e marcou a última execução pública nos EUA. Até agora.

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Crédito, FPG/Staff/Getty

Legenda da foto, Homens, mulheres e crianças assistiram ao enforcamento, que marcou a última execução pública de grande repercussão nos EUA

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Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil

Fim da Promoção Agregador de pesquisas

Pouco mais de 90 anos após o assassinato de Bethea, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou que os militares executarão publicamente Nidal Hasan, que matou 13 soldados desarmados em 2009 na base militar de Fort Hood, no Texas.

O Pentágono complementou dizendo que a execução por fuzilamento em dezembro será transmitida ao vivo.

"As pessoas precisam entender que esse tipo de coisa tem consequências sérias", disse Hegseth.

Michael Radelet, professor emérito da Universidade do Colorado e estudioso de longa data da pena de morte, ficou chocado.

"Nunca imaginei outra execução pública", disse ele à BBC.

Ele observou como o apoio público à pena de morte em geral tem diminuído constantemente; era de 80% em 1994, por exemplo, mas agora está em 52%.

"Caiu drasticamente, especialmente quando se oferece a alternativa de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional", disse ele.

É muito cedo para saber o que o público americano pensa da ideia de transmitir uma execução ao vivo. Mas é provável que milhões, ou até mais, assistam.

Com o anúncio de Hegseth, disse Radelet, "a justificativa para a pena de morte se torna entretenimento... tragam a pipoca, convidem seus amigos".

'Ainda mais horrível'

Sonya Lea, que publicou um livro no ano passado sobre a execução de Bethea, "sentiu absoluto horror por nossos descendentes" quando soube da transmissão ao vivo do pelotão de fuzilamento.

"O que chamavam disso em 1936 era um carnaval de sadismo", disse ela. "O fato de agora termos a tecnologia que permite que isso atinja um público muito maior do que as 20 mil pessoas que compareceram... para testemunhar em Owensboro, Kentucky, torna tudo ainda mais horrível."

Os avós de Lea eram recém-casados adolescentes e faziam parte daquele grupo de 1936. Ela só descobriu isso após a morte da avó, em 2002, quando leu um relato que a falecida havia feito, detalhando como eles estavam perto o suficiente para ouvir o pescoço de Bethea estalar.

Os anos subsequentes de pesquisa da autora ensinaram-lhe que muitos habitantes do Kentucky eram "assombrados" por aquela execução.

"Eu realmente acreditava, de todo o coração, que tínhamos deixado isso para trás, esse nível de atrocidade que apenas alguns países no mundo praticam – Irã, Coreia do Norte, Afeganistão", disse ela. "Será que nós, como Estados Unidos da América, nos consideramos parte desse tipo de governo? É simplesmente horrível."

Mas a polarização e a retórica na política americana podem ter preparado o terreno para tal anúncio, disse Kurt Gray, professor de psicologia social da Universidade Estadual de Ohio.

"Alguns americanos podem estar sedentos de sangue, mas acho que muitos americanos não estão, e, na verdade, acho que muitos outros americanos estão simplesmente dessensibilizados", disse ele.

"Então não é como se eles estivessem comemorando uma execução pública; eles simplesmente pensam: 'Ah, sim, acho que é onde estamos agora.'"

Outras pesquisas indicam que Hegseth e o governo podem estar fazendo uma leitura errada da situação do país.

Garen Wintemute, diretor do Programa de Pesquisa de Prevenção da Violência da Universidade da Califórnia, Berkeley, afirmou que os dados da pesquisa apontam para um declínio no interesse pela violência nos EUA.

"Esta manhã, o presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA classificou este [anúncio da execução transmitido ao vivo] como bárbaro", disse ele. "E acho que ele fala por muitas pessoas."

"Eu acho que uma execução pública não representa quem somos", acrescentou. "Não é quem aspiramos ser como país."

O debate sobre o anúncio surpresa de Hegseth parecia estar ocorrendo dentro da Casa Branca na sexta-feira.

O vice-presidente JD Vance expressou incerteza aos repórteres sobre se a execução pública ocorreria conforme planejado, dizendo: "Não sei se isso realmente vai acontecer". Ele acrescentou que "se for por transmissão ao vivo, não vou assistir".

Horas depois, o presidente Donald Trump disse que aprovava "totalmente" o plano de transmissão ao vivo, mas afirmou que o Pentágono ainda estava "tomando uma decisão" a respeito.

O presidente não respondeu à pergunta sobre se assistiria à execução de Hasan.

"Eu realmente não me importo com a forma como ele for executado, contanto que seja", disse Trump. "E acho que a pena de morte é uma forma muito digna para ele."

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