Câncer de pulmão: exame de sangue pode indicar quem responde melhor à imunoterapia
Um exame de sangue pode ajudar a identificar quais pacientes com câncer de pulmão têm maior probabilidade de responder à imunoterapia. A estratégia foi desenvolvida por pesquisadores brasileiros a partir da análise de células de defesa presentes na circulação sanguínea.
O estudo, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e publicado na revista científica iScience, investigou pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas (CPCNP) metastático. Esse tipo representa cerca de 85% dos tumores pulmonares e frequentemente é diagnosticado em estágios avançados.
A proposta é encontrar biomarcadores capazes de antecipar a resposta antes de direcionar o tratamento, que atualmente apresenta eficácia de aproximadamente 45% nesses casos.
Como a imunoterapia age contra o câncer de pulmão?
Alguns tumores conseguem reduzir a atuação do sistema imunológico ao ativar proteínas presentes nos linfócitos T, células de defesa responsáveis por participar da resposta contra ameaças ao organismo.
A imunoterapia utiliza anticorpos para bloquear esse mecanismo e permitir que essas células voltem a atuar contra o câncer. Kenneth Gollob, líder da pesquisa, compara o processo a “tirar os freios” da resposta imune.
O problema é que nem todos os pacientes apresentam o mesmo resultado, o que levou a equipe a buscar características capazes de indicar antecipadamente quem poderia se beneficiar da terapia.
Biomarcadores diferenciaram pacientes que responderam ao tratamento
Os pesquisadores analisaram os linfócitos T de 33 pacientes. Desse total, 22 responderam à combinação de imunoterapia e quimioterapia, enquanto 11 não apresentaram resposta.
Após avaliar dezenas de proteínas presentes nessas células, a equipe identificou uma assinatura imunológica, formada por um conjunto de marcadores relacionado à maior probabilidade de benefício.
A análise foi realizada por citometria de fluxo, técnica já utilizada em laboratórios, inclusive no diagnóstico de leucemia. Isso pode facilitar a aplicação da estratégia caso sua utilidade seja confirmada em outras pesquisas.
Segundo Gollob, um biomarcador capaz de indicar uma probabilidade elevada de sucesso permitiria direcionar melhor medicamentos que ainda não estão amplamente disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).
Seleção de pacientes pode reduzir custos do tratamento
A possibilidade de saber antecipadamente quem tem maior chance de responder também pode ter impacto econômico.
De acordo com Gollob, se um marcador indicar 98% de chance de resposta, a terapia poderia ser direcionada aos pacientes com maior probabilidade de benefício, evitando o uso de um medicamento de alto custo em casos nos quais a possibilidade de sucesso é menor.
A estratégia poderia ser especialmente relevante para ampliar o uso da imunoterapia no SUS, onde a disponibilidade desse tipo de medicamento ainda é limitada.
Resistência pode reduzir efeito da imunoterapia
Mesmo entre pacientes que inicialmente respondem, o tratamento pode perder eficácia ao longo do tempo. Isso ocorre porque a resposta imunológica pode eliminar as células tumorais suscetíveis enquanto outras, resistentes, continuam a crescer.
A imunoterapia também pode provocar efeitos adversos. Entre os relatados estão diarreia e manchas na pele. Em cerca de 15% dos casos, podem ocorrer reações mais graves, incluindo inflamação de tecidos saudáveis, especialmente nos pulmões.
Uma das estratégias apontadas para enfrentar a resistência é combinar diferentes tipos de imunoterapia ou associá-los a tratamentos como quimioterapia e radioterapia.
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