Campanha de Lula emenda 3 dias de crise interna enquanto busca rumo para o 2º turno
A campanha de reeleição do presidente Lula (PT) vive um período de crise após o petista terminar o primeiro turno com menos votos do que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A instabilidade no grupo político do chefe do governo se dá no momento em que ele busca formas de virar a disputa no segundo turno, o que seria um feito inédito desde a redemocratização.
Três dias depois do resultado das urnas, a equipe de Lula busca um novo rumo para a campanha capaz de reverter o quadro no segundo turno, marcado para o dia 25. Nesta quarta-feira (7), o próprio Lula demonstrou publicamente descontentamento com a coordenação de campanha, comandada pelo presidente do PT, Edinho Silva.
"Eu acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade. Acho que a gente poderia ter feito mais. Eu disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que eu participei desde 1989. E normalmente a gente colhe aquilo que a gente planta", afirmou o presidente em reunião com aliados. O discurso foi parcialmente transmitido na internet.
Lula vinha indicando esse descontentamento a aliados. Paralelamente, Edinho já vinha sendo criticado por petistas, por exemplo, pela demora para que materiais gráficos necessários à campanha eleitoral chegassem até os estados. Na terça (6), o presidente do PT foi criticado por correligionários em reunião em Brasília.
Aliados de Lula ouvidos pela Folha em condição de anonimato avaliaram que foi um erro o petista expor e enfraquecer o coordenador de campanha em vez de fazer correções mais discretamente.
Esses interlocutores também dizem ser improvável que Lula rife Edinho. O cenário mais provável seria o petista escalar outros políticos para assumir parte das atribuições do coordenador sem tirá-lo do cargo. O ex-governador do Ceará Camilo Santana (PT) é citado como alguém que deverá assumir algumas dessas tarefas.
A tendência é que o entorno de Lula passe a ter mais petistas nordestinos que venceram suas eleições estaduais no domingo.
A equipe de comunicação deve ter o reforço, por exemplo, do secretário de Cultura licenciado da Bahia Bruno Monteiro. Ele foi um dos responsáveis pela campanha vitoriosa de Jerônimo Rodrigues na Bahia, é elogiado por Lula e tem boa interlocução com o ministro Sidônio Palmeira (Secom) e com a primeira-dama Janja Lula da Silva, cuja atuação também foi alvo de críticas.
O senador Otto Alencar (PSD-BA), que se reuniu com Lula nesta semana para conversar sobre o segundo turno, disse que existe uma convergência com o presidente sobre escalar líderes locais para dar volume à campanha. "Colocamos lá Camilo, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues no Nordeste. Lá em São Paulo o [Fernando] Haddad e o [Geraldo Alckmin]. E as lideranças nos estados", disse o senador à Folha.
Fora da equipe de campanha, petistas relatam dificuldades de organização entre instâncias partidárias. Por exemplo: deputados federais paulistas do PT teriam sido chamados para reuniões, no mesmo dia, em Brasília e em São Paulo.
Ao mesmo tempo que tenta reorganizar sua equipe, Lula reformula o estilo de comunicação da campanha. Nas conversas, aliados divergem sobre temas destacados na campanha, como a proposta de reforma do Judiciário, sob o argumento de que se transformou em uma pauta bolsonarista.
Nesta quarta, o presidente endureceu o discurso contra a criminalidade, pauta explorada pelo adversário, e disse que a campanha adota um novo lema em torno do tema. "Para o povo trabalhador, a proteção. Para o bandido, a prisão. É esse o nosso lema daqui para frente", afirmou.
O presidente e alguns de seus aliados passaram a publicar vídeos gravados por câmeras de celular em formato de selfie. Trata-se de uma tentativa de disputar o ambiente digital, área em que o bolsonarismo tem vantagem sobre os petistas.
A estética é mais simples que a das peças produzidas para televisão, e permite produções mais rápidas. Um dos principais defensores desse formato é o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT).
Em uma dessas peças, o chefe do governo federal estimula seus apoiadores a fazer campanha. "Bora para a rua! Vamos ganhar essas eleições para não permitir que o retrocesso volte para esse país", diz ele no vídeo.
Lula reuniu, nesta quarta, deputados eleitos com presença em redes sociais para tentar fortalecer a campanha em ambiente digital. Um dos destaques foi Ana Elisa, de 21 anos, eleita pelo PT de Minas Gerais com 524 mil votos. Ela deverá colaborar com a campanha de Lula.
Lula tem pedido a aliados que haja intensidade na campanha de segundo turno, e demonstra animação. O petista busca evitar que seu grupo político fique abatido pelo resultado do primeiro turno, diante de descrédito entre vários aliados.
Lula também passou a dar declarações mais fortes sobre as relações entre o STF (Supremo Tribunal Federal) e o antigo Banco Master e sobre segurança pública. Além disso, decidiu que buscará despertar no eleitorado o temor de perder benefícios sociais caso seu adversário seja eleito.
A maioria das pesquisas de intenção de voto apontava Lula na frente, mas ele terminou o primeiro turno com 45%, contra 47% de Flávio Bolsonaro. A votação em segundo turno será realizada em 25 de outubro.
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