Crise na Escócia e novos hábitos de consumo ameaçam setor de uísque
Edimburgo e Londres |Financial Times A Holyrood Distillery, uma fabricante artesanal de uísque instalada em um antigo prédio ferroviário de 200 anos em Edimburgo, na Escócia, teve um verão movimentado, recebendo visitantes para degustações durante a temporada de festivais.
Foi um ponto alto em um ano que tem sido difícil para a destilaria, cuja inauguração, em 2019, exigiu um investimento de quase 7 milhões de libras (cerca de R$ 48,5 milhões) em suas instalações.
Na primavera, após meses de desaceleração da demanda pela bebida, a destilaria foi obrigada a suspender, por tempo indeterminado, a produção em seus dois alambiques de cobre, segundo o cofundador Rob Carpenter.
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Com 4.500 barris envelhecendo em armazéns, ele tem estoque suficiente para lançar garrafas por algum tempo. "As pessoas estão sendo muito cautelosas com o que gastam", diz.
A destilaria é uma das muitas produtoras independentes que lutam para sobreviver à pior retração do setor de uísque escocês desde a década de 1980.
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O excesso de produção na década de 2010 resultou em uma abundância de barris em maturação justamente quando a demanda diminuiu em razão da crise global do custo de vida e das tendências incertas de consumo de bebidas alcoólicas entre as gerações mais jovens.
O NOVO TABACO?
Não é a primeira vez que o setor enfrenta um "lago de uísque" causado pelo excesso de oferta e baixa demanda.
Mas a situação tem levado muitos a questionarem a viabilidade de longo prazo de empresas estruturadas em torno de um produto tão vulnerável a crises econômicas e a mudanças nos hábitos dos consumidores.
Desta vez, o temor de alguns investidores é que o álcool seja o novo tabaco, passando por um declínio estrutural.
A quantidade de uísque envelhecendo em barris disparou de menos de 400 milhões de litros há uma década para cerca de 1,4 bilhão de litros neste ano, ou 389 milhões de caixas. O volume é suficiente para atender aos atuais níveis de consumo por três anos, segundo o boletim Commercial Spirits Intelligence, dos especialistas em indústria Martin Purvis e Duncan McFadzean.
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Isso levou diversas destilarias escocesas a reduzirem a produção em mais de um terço, segundo fontes do setor.
A pressão financeira está estimulando uma nova rodada de experimentações em um setor valorizado pelo purismo e pela tradição. As destilarias estão lançando variedades mais doces e produtos inéditos, como coquetéis prontos em lata, para atrair novos consumidores.
Enquanto isso, investidores aproveitam o excesso de oferta, armazenando barris em busca de retornos futuros após a maturação. Os otimistas esperam que o apelo romântico do uísque em mercados externos em expansão, especialmente a Índia, acelere uma recuperação mais ampla.
O setor que emergir desta retração, como ocorreu em ciclos anteriores, se prepara para um período de consolidação, ainda que fusões e aquisições tenham sido relativamente raras até agora, já que compradores e vendedores discordam sobre o valor justo dos ativos.
Grandes produtoras, entre elas as gigantes globais de bebidas Diageo e Pernod Ricard, que controlam mais da metade do mercado total de Uísque escocês, têm balanços mais robustos para atravessar a crise —ainda que suas ações estejam em queda, com as da Pernod recuando cerca de 70% em relação ao pico de 2023.
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São as destilarias independentes de menor porte, responsáveis por alguns dos uísques mais especializados e experimentais, que estão em dificuldades. Até um quarto das 160 destilarias da Escócia pode estar à venda, segundo McFadzean, coautor do Commercial Spirits Intelligence, que também é diretor-presidente do banco de investimento Noble & Co.
Com os bancos relutantes em ampliar os empréstimos ao setor e as destilarias ficando sem dinheiro, investidores estrangeiros têm rondado ativos em dificuldades. "Recebemos algumas ofertas absurdamente baixas", diz Carpenter, da Holyrood Distillery.
O LEGADO DA COVID
As crises no setor de uísque são quase tão antigas quanto a própria comercialização da bebida.
Nas três primeiras décadas do século 20, o consumo de destilados no Reino Unido e em seus territórios coloniais despencou. Para atravessar a crise, as maiores produtoras de Uísque escocês firmaram parcerias com distribuidoras canadenses, que contrabandeavam o uísque para os Estados Unidos durante a Lei Seca, onde a bebida conquistou uma reputação de qualidade na era dos destilados clandestinos.
Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, afirma Nick Morgan, veterano do setor e escritor, mais da metade do volume das exportações de Uísque escocês e cerca de 65% de seu valor tinham como destino os Estados Unidos, que continuam sendo o mercado global mais lucrativo para o setor. "A Lei Seca foi, sem dúvida, a melhor coisa que já aconteceu ao uísque escocês", diz ele.
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O atual excesso de oferta lembra o da década de 1980, embora não seja tão grave. Naquela época, a superprodução criou o lago de barris não vendidos. Depois, o impacto inflacionário dos choques do petróleo da década de 1970 derrubou a demanda, justamente quando o gosto dos norte-americanos se voltava para outros destilados, como a vodca.
Folha Mercado
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.A abundância atual levou a um excesso de barris amadurecendo em um período de incerteza econômica global. Primeiro, a crise financeira global de 2008-2009 provocou uma breve queda na demanda.
Uma década depois, durante o boom da era da Covid, consumidores com os bolsos cheios graças a estímulos passaram a experimentar coquetéis em casa. As empresas correram para encher seus armazéns.
Mas a demanda esperada não se concretizou. Em vez disso, uma nova onda de inflação golpeou o poder de compra, levando os consumidores a reduzirem o consumo e a trocarem marcas renomadas por opções de bebidas mais baratas.
NOVOS HÁBITOS
Isso mergulhou o setor escocês de uísque em outra crise cíclica. Desta vez, a crescente preocupação dos consumidores com a saúde, a ampla disponibilidade de medicamentos para emagrecimento e a migração cada vez maior da socialização para o ambiente on-line estão reduzindo o consumo.
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Nos Estados Unidos, destino de 18% das exportações de Uísque escocês em valor no ano passado, o consumo de álcool per capita ficou 11% abaixo do nível de 2019, segundo a provedora de dados IWSR. Entre os norte-americanos que afirmaram estar bebendo menos, 20% disseram que isso se deve ao fato de "não poderem arcar com o custo", segundo a YouGov.
"Voltamos a níveis [de abstinência] que não víamos desde meados da década de 1940", afirma Nadine Sarwat, analista da Bernstein.
Embora os jovens também sejam responsabilizados pelas dificuldades do setor, analistas contestam a suposição de que a geração Z não bebe. Segundo eles, a queda no consumo foi impulsionada pelo fato de os mais jovens terem sido os mais afetados pela crise do custo de vida e pelos confinamentos da Covid.
"De modo geral, a narrativa de que ‘a geração Z bebe menos’ não é uma explicação central para o declínio do volume", diz Laurence Whyatt, analista do Barclays.
Os produtores de uísque tentam atrair consumidores mais jovens por meio de inovações em produtos e do crescimento da demanda por coquetéis prontos em latas.
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A Diageo lançou versões frutadas e mais doces de sua principal marca de Uísque escocês, Johnnie Walker, adaptadas ao público mais jovem e feminino. Feitas para coquetéis, essas garrafas mais baratas buscam desafiar a reputação do Uísque escocês como bebida reservada a consumidores mais velhos e experientes.
A marca também se associou a celebridades como a estrela pop Sabrina Carpenter, numa tentativa de ampliar seu alcance.
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Os otimistas acreditam que a demanda voltará com força quando a economia se recuperar, impulsionada pelos mercados emergentes.
Estatísticas recentes de exportação revelaram "sinais de recuperação", afirma Mark Kent, diretor-presidente da Scotch Whisky Association, entidade representativa do setor. O volume das exportações de uísque escocês no primeiro semestre de 2026 aumentou 6%, para 50 milhões de caixas, em comparação com o mesmo período do ano anterior, enquanto o valor registrou alta mais modesta, de 3%.
Por enquanto, os Estados Unidos continuam sendo o mercado de exportação mais valioso para o Uísque escocês, apesar do impacto da tarifa de 10% imposta pelo presidente Donald Trump sobre produtos britânicos. As exportações de uísque caíram 15% em volume entre maio e dezembro do ano passado.
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Para alívio do setor, a intensa pressão exercida pelos governos britânico e escocês resultou, a partir de julho, em uma isenção tarifária para o uísque. Segundo relatos, as negociações exploraram as raízes familiares escocesas de Trump e os temores em relação à indústria do bourbon no Kentucky.
As destilarias da Escócia normalmente importam cerca de US$ 300 milhões (R$ 1,54 bilhão) por ano em barris americanos usados para envelhecer uísque.
"Com o aumento dos volumes de exportação e a queda dos custos, muitas destilarias estão gerando mais fluxo de caixa livre agora — portanto, talvez o pior já tenha passado e estejamos a caminho da recuperação", afirma McFadzean.
Os resultados anuais mais recentes da Diageo, referentes ao exercício encerrado no fim de junho, mostraram um aumento de US$ 463 milhões (R$ 2,39 bilhões) no fluxo de caixa livre, para US$ 3,2 bilhões (R$ 16,5 bilhões).
A empresa britânica, responsável pela produção de cerca de um terço de todo o uísque da Escócia, possui estoques de destilados em envelhecimento avaliados em US$ 8,5 bilhões (R$ 43,8 bilhões), dos quais mais da metade é composta por uísque escocês.
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"Eles [os grandes produtores] são como um banco central do uísque. Controlam quanto entra ou sai do mercado a qualquer momento, da mesma forma que um banco central controla a oferta monetária para estabilizar a economia", afirma Alastair Valpy, diretor-presidente da Volpe & Castello, empresa de armazenagem alfandegada e engarrafamento.
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