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Thursday, September 10, 2026

"Trump está a gerir os EUA como se fosse uma empresa"

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observadora, sou Luís Soares e conosco temos hoje Orlando Samões, especialista em relações internacionais. Boa tarde, Orlando. Bem-vindo a mais um Gabinete de Guerra. Orlando, começava por esta notícia já de hoje, de que os rebeldes xiitas houthis do Iémen tomaram o controle da cidade de Mocha, no mar Vermelho. Há também indicação de que estão a avançar em direção ao estreito chave de Bab El-Mandeb. Vamos ter aqui mais um foco de tensão num estreito a colocar em risco a economia mundial.

Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Nós, de facto, estamos com mais um dos pontos de estrangulamento que pode gerar mais pressão sobre a economia mundial. E sabemos que estes grupos operam de alguma maneira, ainda que seja muitas vezes dita autônoma e independente, o que é facto é que parece haver uma articulação geral. Quantas vezes não dizemos que o Ocidente tem dificuldade em tomar opções unívocas e decisões, e tem, porque é muito plural e aberto. Aqui estamos, se calhar, no ponto oposto, em que se diz que há autonomia dos vários grupos, e às vezes há muitas tensões entre eles também, às vezes até com base em pequenas interpretações, mas o que é facto é que para destabilizar, conseguem ter um efeito, que está a ser um efeito muito pernicioso sobre a economia mundial, sabendo que afeta, neste caso, até os próprios Estados Unidos numa altura de eleições, quem sabe até um pouco de Israel, numa altura de eleições, e conseguem demonstrar a sua força porque também se vão articulando. Estão divididos entre si, mas conseguem ter um efeito. E este efeito é a arma que têm usado para contrariar aquilo que poderia ser uma maneira de se incitar uma alteração mais profunda no Médio Oriente, passagem para, como as pessoas costumam dizer, uma nova arquitetura de segurança, na qual o Irão quer continuar a ser preponderante, e depois estimula todos estes grupos. Ali à volta de Bab El-Mandeb, temos, vindos da Somália, dentro da parte separatista, há um conjunto de grupos, alguns são muito proeminentes, temos os houthis, com base nas várias interpretações e as várias declinações do xiismo, até grupos diferentes e rivais, mas que podem querer dar um sinal a partir do momento em que o próprio estreito de Ormuz pode ir a prazo tornar-se um bocadinho mais irrelevante. Claro que estamos a falar de anos, mas note-se a tentativa do porto de Yanbu, na Arábia Saudita, ser uma maneira de cimpar aquilo que seria o impacto do estreito de Ormuz na economia e passar a utilizar mais o mar Vermelho. Ora, com o mar Vermelho e a afetação do comércio do Suez, é mais uma maneira de condicionar o mundo e de nos obrigar a repensar, porque custa muito vermos a situação em que estamos e que se torna muito difícil de gerir.

O certo é que no meio de toda esta incerteza, no Médio Oriente, há declarações do secretário de defesa norte-americano, Pete Hegseth, numa entrevista ao programa "60 Minutos" da CBS, a dizer que os Estados Unidos têm todo o controle do mundo. Sabemos que não será assim.

Pois não, e agora até tivemos nestes dias quase uma autêntica batalha naval, o que significa quer dum lado quer do outro, e entre bloqueio e contrabloqueio e cada um a tentar atingir os petroleiros ou as embarcações da outra força. A verdade é que até não sabemos muito bem o grau de sucesso destas investidas, porque naturalmente cada um dos lados não quer acusar ou divulgar, publicitar aquilo que o adversário conseguiu atingir, porque até isso revela informações que podem ser importantes. Neste caso, se o Irão souber exatamente aquilo que foi atingido da parte dos Estados Unidos, mesmo nas bases e nos seus navios, provavelmente poderia saber como atuar e continuar a imprimir a sua força. E o mesmo se pode passar no Irão. Se calhar, não sabemos tudo aquilo, os navios que estão a ser atacados e o efeito que se está a ter. Por isso mesmo, nesse caso, Pete Hegseth mantém os espíritos muito altos, mantém uma dinâmica de vitória que sabemos ter uma componente de retórica muito grande. E ele foi um daqueles membros do governo eleito muito à tangente ou confirmado no Senado, mas que depois se pôs a fazer umas alterações profundas, despedindo ou levando à demissão um conjunto de militares, alguns deles, até cinco de quatro estrelas e muitos de três estrelas, que tinham um conjunto de conhecimentos enorme e do qual os Estados Unidos neste momento não está a aproveitar para estas situações.

O certo é que na última madrugada, na nossa hora, houve também um comício com a presença de Donald Trump, em que ele inclusivamente anunciou a oferta de 5 mil euros a cada americano se continuar a liderar e ganhar as próximas intercalares. Até que ponto é que a política externa norte-americana vai ou não impactar nestas próximas eleições intercalares em novembro, tendo em conta que, aparentemente, ou tanto quanto conseguimos vislumbrar, não há propriamente boas notícias na frente externa para dar aos norte-americanos?

Estamos numa situação muito curiosa. Em teoria, o Irão consegue moldar, interferir com aquilo que poderia ser uma campanha para as midterms Porque sente-se o impacto na economia norte-americana e o Trump o que faz é ser ele próprio, oferecer dinheiro, ou seja, uma maneira de colmatar este efeito que em parte vem de fora. Ele tenta desligar a situação econômica do Irão, mas as pessoas naturalmente misturam. É uma promessa eleitoral, porque ele tinha que manter o controle dos dois órgãos do Congresso, quando, na realidade, é o Congresso que tem a possibilidade de levantar este dinheiro e de aumentar a despesa, e não a presidência. Isto é interessante quando ele chama a esse valor, aos cinco mil dólares, de dividendos. Ou seja, ele está a gerir os Estados Unidos como se fosse uma empresa privada com acionistas a quem se retorna no caso de obtenção de resultados positivos. Ora, aqui nem sequer é o caso. Sabemos que os Estados Unidos, como um país que é, e não é uma empresa, vai estando deficitário e isso acontece em quase todos os países, Trump mistura esta maneira de estar sempre muito empresarial, que volta aos seus tempos do aprendiz e da forma de lidar com todas as situações como se fossem meros negócios. Ora, Trump está tão preocupado que até pediu às pessoas para fingir que o seu nome está no boletim de voto, quando na realidade podia dizer o contrário. Quando perder, podia dizer que o seu nome não está no boletim. Mas o que é facto é que os candidatos republicanos e alguns que até podiam ter alguma hipótese de ganhar sem grandes dificuldades, começam a ter algumas situações de não sabermos para que lado é que vai mesmo ser a decisão. No Maine, que aliás não apareceram nesse grande comício, chama-se convenção, mas não foi uma convenção com delegados no sentido de discutir as ideias do Partido Republicano. Pelo contrário, aquilo que se fez foi um espetáculo com muitas vezes bilhetes pagos por parte dos congressistas e de outras pessoas ligadas ao partido e depois mais tarde apenas mesmo do Texas é que permitiram a entrada livre, mas nem Maine, nem Alasca, e claro que há a presença do Texas, mas mesmo no Texas neste momento o candidato democrata começa a ter alguma hipótese nas sondagens de vir a ter um bom resultado e Trump naturalmente que se sente muito apertado. Aliás, nós conhecemos Trump naquela maneira como ele tem as janelas temporais muito curtas. Resolve tudo, a guerra é em quatro semanas e muitas vezes os tratados de paz que podem ser endossados em duas semanas. Mas ele aqui falou em praticamente dois meses, porque ele sai para o avião que o ia levar a Dallas, Texas, precisamente a dizer que precisava de ir para além das eleições e que só após as eleições ia conseguir resolver a guerra. Esta admissão de uma economia que vai continuar muito difícil, com o preço das energias muito elevado, com efeitos inflacionistas até novembro, é Trump a reconhecer que não está a conseguir ter sucesso no Irão. Embora, e nós sabemos que o Irão apesar da sua resiliência, poderia ter, de facto, com outro tipo de investida dos Estados Unidos e se calhar do conjunto de aliados, muito menos forma de continuar a operar e até de ser forçado a ceder. Em janeiro tivemos tão perto até de uma queda do próprio regime, vimos as pessoas dispostas a perder a vida ou a serem presas para se demonstrarem, para se manifestarem contra o regime em janeiro e no fundo esse efeito já se perdeu um pouco e até se pode dizer que as pessoas, apesar de terem uma diferença muitas vezes gigantesca para com esta liderança do Irão, já não estão tão dispostas a essas manifestações. É aqui uma situação em que Trump nos deixa e que contrasta com as administrações americanas que nem sempre acertaram e que também muitas vezes criticamos, mas que tinham outra maneira até mais profissional de lidar com as guerras e que neste momento está muito comprometida.

Orlando Samões, muito obrigado por ter vindo a mais um Gabinete de Guerra, especialista em relações internacionais. Até à próxima. Obrigado.

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