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Thursday, October 8, 2026

Pedro Cabrita Reis dialoga com a fé ao se retratar à luz de clássicos ocidentais

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O português Pedro Cabrita Reis passou a virada do seu aniversário de 70 anos no Maat, o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa. Ele celebrou a entrada em mais uma década de vida cercado pelos montadores que preparavam a sua nova mostra, "Com o Coração Livre de Cuidados".

A sala principal do museu é um espaço amplo e ovalado, com uma rampa colada às paredes que cria alguns níveis e desce encaracolada até o piso. Nele, instalavam a monumental "3=1", uma pilha de barras de alumínio com a mínima intervenção de uma pintura em branco na parte externa delas. Elas são empilhadas em duas estruturas que quase se encontram ali num ângulo reto.

O processo de montagem da obra, que precisou ser carregada por guindastes, durou até as três horas da madrugada —e com direito a um bolo para Cabrita Reis.

No início do percurso da rampa do museu, está a série de colagens de 2015, chamada "Ridi Pagliaccio". São autorretratos do artista em que ele mistura várias fotografias dele com rabiscos pueris. Com linhas tortas, ele traça estampas quadriculadas para suas roupas, desenha chapéus pontiagudos sobre sua careca e põe pompons nas pontas dos sapatos.

O título vem da ópera "Pagliacci", de 1892, que brinca com a figura do palhaço que ri por fora e está triste por dentro. É, segundo Cabrita Reis, "uma ópera popularucha, se quiser dizer, que faz chorar mafiosos". Mas o português acredita que rir de si mesmo é uma das grandes habilidades que artistas devem cultivar. "Quando temos a possibilidade de rir sobre nós próprios, temos uma liberdade absoluta", diz.

A liberdade é um valor máximo para Cabrita Reis. Noutra série exposta no Maat, "Ecce Homo", do ano passado, ele se põe em franco diálogo com o cânone ocidental.

São telas de cores fortes. Uma tingida de vermelhos abafados, uma de amarelo-mostarda e tons de ocre e uma terceira de verdes profundos. Outra, ainda, parece pintada com lava, com um laranja vivo misturado a tons de chumbo.

Não fosse o título, a figura pintada seria vaga, quase abstrata. "Ecce Homo" evoca a passagem bíblica em que Pôncio Pilatos apresenta Jesus, com a coroa de espinhos, a uma multidão enfurecida. A cena é corrente na história da arte europeia. Foi pintada por Albrecht Dürer, no século 15, por Caravaggio, no século 17, e por Elías García Martínez, autor do afresco que voltou à tona em 2012 por causa de uma restauração desastrosa.

A forma que emerge do "Ecce Homo" de Cabrita Reis lembra seu autor. Uma figura careca, de barriga proeminente. Ele admite que, assim como Dürer, ele pintou a si mesmo como Cristo. "Não quero saber por quem, quando e como são feitos [esses quadros]. São nada mais do que matéria para mim, tal como tijolos, pedras ou lixo. Um Caravaggio é agora um bocado de madeira podre. Um Velázquez é agora um tijolo", diz. Ele afirma ter dado uma nova natureza para essas obras, nascida da "ausência do medo ou receio em mexer e tocar nesses artistas".

Nascido na capital portuguesa em 1956, Cabrita Reis se formou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e se tornou um dos principais artistas contemporâneos de seu país. Ele despontou cedo —fez a primeira exposição individual em 1981, aos 25 anos, e, desde então, já expôs em duas edições da Bienal de São Paulo, na década de 1990, e representou Portugal na Bienal de Veneza em 2003.

Sua obra é marcada pelo uso de materiais cotidianos, associados à construção civil —muitas vezes, de descarte. Os títulos de seus trabalhos sugerem que a religião perpassa a mostra. Ainda assim, Cabrita Reis diz não ser devoto, mas o catolicismo é, para ele, parte incontornável do cânone.

"Eu faço parte, sim, desse ‘melting pot’ em permanente transformação e que enriquece a memória que eu tenho de um tempo que não vivi, mas de um tempo que conheço culturalmente", diz ele.

Pedro Cabrita Reis defende a ideia de que a criação artística é, em si, um grande ato de fé. "É a função da absoluta inteligência e da revelação da força daquilo que se faz. É uma coisa que tu trazes dentro de ti e se revela naquilo que fazes. Não tens que acreditar em nada para fazer o que fazes. Estás livre do problema da fé."

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