O dia em que a Torre Eiffel cancelou as mulheres

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Ideias Feitas na Rádio Observador. Recebemos o Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde. Hoje queres falar da decisão da empresa que gere a Torre Eiffel de afastar funcionárias a pedido de um grupo religioso.
É verdade. Olá, boa tarde.
Boa tarde.
Isto aconteceu no sábado, foi durante uma visita privada de uma delegação de um grupo religioso hindu. O grupo tem um nome, eu transcrevi para aqui o nome, mas nem vou arriscar dizer, é complicado para mim. Espero que não me acusem de racismo ou xenofobia, qualquer coisa, simplesmente não consigo dizer estas palavras. Mas a pedido desse grupo religioso hindu, a gerência da empresa que administra a Torre Eiffel cedeu a esse pedido e afastou ou escondeu funcionárias dos seus postos de trabalho para evitar ou limitar a interação dos homens desse grupo. Pois visto que eram só homens, ou pelo menos tinha homens, e homens que não queriam interagir com mulheres. Ter que interagir, mesmo naquelas circunstâncias absolutamente informais e ligeiras, não queriam interagir com mulheres. A administração cedeu ao pedido e nos diversos locais de acesso à torre, as funcionárias foram instruídas a sair da vista dos senhores do tal grupo hindu e, quando necessário, foram substituídas por homens. Depois, na sequência deste episódio, as funcionárias e os sindicatos ligados ao setor em causa realizaram uma greve, mantiveram o monumento fechado durante a segunda-feira. A empresa que administra a Torre Eiffel reconheceu publicamente o erro, classificando a atitude de ceder às exigências como inaceitável, mas já o tinha cometido, embora tenha pedido desculpas. Houve umas discussões políticas, uma pequena polêmica política, pequena ou média. E entretanto, a Torre Eiffel já reabriu para quem estiver em Paris ou queira lá ir, já pode voltar à Torre Eiffel, até acontecer, naturalmente, o próximo erro inaceitável, pelo qual se vão pedir desculpas, etc. Este é apenas um exemplo de aculturação invertida e um exemplo que se fosse isolado, não teria qualquer relevância ou praticamente relevância nenhuma. Agora, esta submissão das sociedades ocidentais ao outro não se resume, obviamente, neste exemplo quase caricatural da Torre Eiffel. Há muitos exemplos, e também recentes, talvez não tão recentes, mas com mais uns dias, umas semanas, uns meses, por essa Europa afora. Temos no Reino Unido a existência de dezenas de tribunais informais a aplicar a lei islâmica, a Sharia, para mediação de litígios familiares e divórcios à margem da justiça civil pública, este é o ponto. Na França e também no Reino Unido, no Reino Unido acontece tudo hoje em dia, há docentes que evitam lecionar temas como o Holocausto ou a evolução das espécies, por receio de retaliação ou para evitar conflitos na sala de aula, que já aconteceram, a propósito destes e de outros temas. Na Dinamarca temos recente a introdução de legislação que, muito eufemisticamente, proíbe a profanação de textos religiosos. Estamos a falar, obviamente, do Corão. Isto para conter agitação social e no fundo tentar evitar chatices. E temos em vários países da Europa casos em que serviços sociais europeus chegaram a aceitar, agora parece que não estão a aceitar, não sei, não arranjei dados mais recentes, mas que chegaram a aceitar a união de menores migrantes casadas nos países de origem sob o pretexto de respeito às normas culturais locais. E há também em vários países europeus isenção de regras de fardamento na polícia ou nas Forças Armadas, por exemplo, no Reino Unido, na Suécia, para incluir turbantes, véus, barbas religiosas e por aí fora. E tudo isto até seria, acho eu, perfeitamente compreensível se existisse no mundo inteiro, no hemisfério norte, no hemisfério sul, em todos os continentes, uma espécie de protocolo tácito que favorecesse a cedência mútua a hábitos, culturas e religiões alheias. A questão é que não há essa tradição e não tenho ideia de um único país não ocidental que abdique formal ou informalmente, e no nosso caso abdicamos muitas vezes no Ocidente, muitas vezes formalmente, mas não tenho ideia de um único país não ocidental que abdique das suas práticas e símbolos para não ofender eventuais minorias de europeus que vivam nesses países. A reverência, e é de reverência que se trata, é um exclusivo nosso. E no fundo, séculos após as vitórias do Iluminismo, que era uma conquista também nossa, ocidental, está a voltar-se a submeter o Estado à religião e a costumes religiosos. Agora, por ironia, por acaso ou por provocação, a religião já não é nenhuma das nossas religiões, são as religiões e os costumes dos outros. É a esses que estamos a ceder. E mesmo assim, só por si, sem mais, isto seria apenas esquisito. Agora, o que advém daqui é ainda mais esquisito. O mais esquisito é que depois meio mundo fica e vai continuar a ficar surpreendido com as vitórias atuais ou futuras da dita extrema-direita ou do fascismo, como às vezes lhes chamam. Seja na Itália, que já aconteceu, seja na Alemanha, que aconteceu agora parcialmente, e seja um dia, e que talvez não deve ser um dia muito distante, seja no Reino Unido, na França, na Espanha e se calhar em mais alguns países da Europa. Não vale a pena incluir aqui o nosso caso, mas também é uma possibilidade ver a extrema-direita ou os fascistas chegarem ao poder e depois toda a gente fingir que não percebeu por quê.
Até amanhã, Alberto.
Até amanhã.
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