Bolsonarismo tenta esvaziar o funk de tudo o que não seja seu ritmo
"Seu filho vem ao Museu da Língua Portuguesa e o que ele vai escutar? Beethoven? Bach? Não, ele vai escutar MC Cabelinho, ‘Bonde da Juju’, ‘Cavalo de Troia’, ‘Maloka’", disse Lucas Pavanato, deputado federal eleito por São Paulo com votação recorde, num vídeo publicado em maio no YouTube.
Ele estava na exposição "Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade", aberta em novembro do ano passado e encerrada prematuramente em junho deste ano, em São Paulo. A mostra ficaria em cartaz até agosto, mas foi retirada do espaço após pressão de políticos como o hoje vereador da capital paulista.
Poucos meses depois, Pavanato apareceu em vídeos de campanha usando não só as batidas, mas a iconografia da cultura funk —como os óculos no estilo Juliet e uma caixa de som debaixo do braço.
"Bonde da Juju", música que ele criticou no museu, faz referência justamente a esses óculos. "Corte Rápido (Funk do Pavanato)", o jingle do deputado, usa os graves secos e os agudos extremos, que parecem assobios, típicos do funk paulista.
A relação dúbia de Pavanato com o funk é a mais representativa dentro da conexão do bolsonarismo com o gênero nesta eleição. Seis músicas desse campo político que adotam o estilo ficaram entre as 50 mais tocadas no Spotify no domingo, quando Lula derrotou Flávio Bolsonaro na disputa para presidente.
Eventos do bolsonarista foram embalados por essas músicas, com outro deputado federal, Nikolas Ferreira, também do PL, crítico do funk e campeão de votos, dançando os jingles em trios elétricos. O mais famoso foi "Solinho do Fora PT", que reutiliza partes de um hit dos anos 2000, "Nova Geração", de Jonathan Costa, e o grito de "quem ficar parado é petista disfarçado".
Para Pavanato, não há incoerência. "Vou continuar usando porque são ritmos populares e, na eleição, você tem que usar as estratégias necessárias para que as pessoas conheçam as suas ideias. Inclusive, minhas músicas ficaram muito boas", ele disse em entrevista ao site Metrópoles.
Além dos motivos eleitorais do uso do funk na campanha, a fala do parlamentar é reveladora de como seu campo político pensa o gênero musical. O problema não seriam as batidas —mas as letras, os bailes, os MCs, os DJs, a estética, as roupas, a cultura, enfim, tudo no funk que não seja seu ritmo.
Essa interpretação considera que uma parte específica da musicalidade do funk poderia existir sem os seus criadores e o ambiente em que é criada. É como se a sonoridade do funk existisse no vácuo, e não fosse feita em diálogo com quem o produz e o consome. Nem pensado para embalar os bailes de favela e a dança que são alvos de tentativas de criminalização.
No ano passado, Pavanato fez um vídeo acompanhando e celebrando operações policiais para desmantelar eventos de funk em bairros periféricos de São Paulo. Entretanto, não fossem os paredões de som de alta potência dessas festas, os agudos contagiantes do "Funk do Pavanato" sequer existiriam.
O deputado eleito também foi relator da CPI dos Pancadões na Câmara Municipal de São Paulo. No relatório final, afirmou que o funk e os bailes são espaços de difusão e normalização do que chamou de "narcocultura". Disse ainda que essas músicas legitimam o tráfico de drogas, a violência e o crime organizado, além de sexualizar mulheres.
O rapper Emicida disse certa vez que o MC cria sua persona artística como uma espécie de super-herói de si mesmo. Isso significa que o artista usa a arte para representar características que não necessariamente são reais —seja uma autoestima elevada, um poder exacerbado, um desejo sexual superlativo.
Dentro da cultura hip-hop, da qual o funk deriva, os personagens das letras dos raps muitas vezes são vilões. "Hoje eu sou ladrão, artigo 157/ As cachorra me ama, os playboy se derrete/ Hoje eu sou ladrão, artigo 157/ A polícia bola um plano, sou herói dos pivete", diz a letra de "Eu Sou 157", que os Racionais MCs lançaram em 2002.
Com quase nove minutos de duração, a música investiga as razões pelas quais o personagem principal da narrativa se torna um criminoso, além de pesar as consequências sociais e pessoais dessa escolha de vida. Como diz o refrão, o ladrão é admirado pelas mulheres e pelas pessoas mais ricas. Vira um herói para as crianças.
É difícil imaginar que censurar a arte que representa essa realidade vá de alguma forma mudá-la. Assim como é ingênua a idealização de uma música que se furte a retratar simbolicamente, em som e poesia, a conjuntura social que a envolve —novamente, como se a arte existisse no vácuo.
A aproximação do bolsonarismo com o funk também joga luz sobre a presença tímida da música sertaneja nesta campanha. O gênero reúne a maioria dos músicos famosos que apoiaram Flávio Bolsonaro. Entre eles estão Gusttavo Lima, Zezé di Camargo, Marrone e Felipe Araújo, além da cantora Ana Castela —ela chegou a fazer o 22 com as mãos, mas se manteve discreta na campanha. O sertanejo, contudo, não rendeu jingles marcantes e nem embalou a candidatura do PL à Presidência.
No lado do funk, grandes nomes do gênero apoiaram Lula, entre eles os MCs Hariel, Ig e Carol, sendo que esta última fez uma música para o petista —"Ele Investiu em Vc", que ficou entre as 200 mais tocadas do Spotify no domingo.
Um dos jingles do presidente também foi um funk —uma releitura de "Rap do Silva", lançada por Bob Rum em 1996. Com exceção de MC Mirella, nenhum outro funkeiro de expressão se posicionou ao lado do bolsonarismo.
Isso não quer dizer que os artistas e empresários do funk sejam esquerdistas. Há dois anos, o atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB e aliado dos Bolsonaro, foi à GR6, a maior produtora do gênero no Brasil, receber o apoio de Rodrigo Oliveira, dono da empresa.
Na mesma eleição, o MC Ryan SP, investigado pela Polícia Federal por suposto envolvimento num esquema de lavagem de dinheiro ligado a apostas e rifas ilegais, um dos mais populares nomes do funk recentemente, declarou apoio a Pablo Marçal, então candidato a prefeito de São Paulo. O coach também foi endossado por Henrique Alexandre Barros Viana, o Rato, dono de outra grande produtora do estilo musical, a Love Funk. Marçal neste ano atuou na campanha de Flávio Bolsonaro.
Há ainda outra discussão política mais profunda relacionada ao funk, em especial sobre a vertente de ostentação. Ela foi sintetizada em uma frase dita pelo humorista Gabriel Nargas, no podcast Broxada Sinistra. "Todo mundo que é politizado sabe que o funk paulista é um braço do neoliberalismo na América Latina."
Dita como piada originalmente, a sentença é frequentemente citada na internet. Vem à tona em discussões relacionadas aos funks sobre vencer na vida através do acúmulo de bens e do individualismo, associados a uma condescendência com um capitalismo acentuado.
Hariel rebateu no podcast Podpah. "Falam que o funk é neoliberal só porque a gente quer ter carro, casa, dar coisa boa pra mãe. Mas isso é o que todo ser humano quer. Quem nunca passou fome não entende."
As críticas à esquerda dão mais uma camada de complexidade às leituras políticas do funk —como qualquer outro gênero musical, ele está em disputa. Elas, no entanto, não passam por uma tentativa de criminalização e censura, como quer a fatia do bolsonarismo que, nesta eleição, apelou ao gênero para mobilizar os eleitores.
Curiosamente, é possível encarar o paradoxo de Pavanato —e do bolsonarismo— como um endosso ao funk. Afinal, se o parlamentar utiliza uma estética que trata como apologia de crime —e, portanto, também um crime—, talvez essa expressão artística não seja tão criminosa assim.
Ou será preciso ressuscitar os órgãos responsáveis pela censura na ditadura militar para determinar quais funks fazem apologia de crimes e quais contam histórias e personagens inspirados no cotidiano de territórios brasileiros?
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