Como Lula e Flávio Bolsonaro querem atrair dinheiro?
Como pragmático persistente, teimo em falar sobre coisas que existem. Ler planos de governo exige alguma concessão. Esses documentos costumam ter a mesma função das redações escolares: conseguir aprovação para o ano seguinte.
Ainda que o papel aceite tudo e a inteligência artificial permita a produção de promessas em tempo recorde, cabe procurar os posicionamentos que poderão orientar o próximo governo. Na economia: de onde sairá o dinheiro e para onde ele irá.
Concentrei as atenções nos programas de Lula e Flávio Bolsonaro, os únicos que, pelas pesquisas até agora, têm chances reais de chegar ao segundo turno. Como pretendem convencer estrangeiros a financiar projetos de longo prazo no Brasil?
Esse dinheiro pode chegar pela instalação de uma multinacional, pela participação de um fundo em uma empresa ou por um empréstimo para construir uma usina... Produzir no Brasil não significa usar apenas capital brasileiro. A questão é por que alguém escolheria investir aqui. Os pontos abaixo mereceram destaque, a meu ver.
Lula promete manter o Eco Invest, que lançou em 2024, como instrumento para isso. O programa destaca a "mobilização de investimentos privados para a transformação ecológica". A proposta é usar recursos públicos para financiar projetos considerados sustentáveis, inclusive dando proteção cambial para auxiliar quem se endividar em dólar para investir.
O Fundo Clima, também citado por Lula, oferece crédito via BNDES para projetos climáticos. O mecanismo pode financiar um empreendimento com participação estrangeira, mas seu desembolso não representa, por si só, dinheiro vindo de fora.
Flávio Bolsonaro propõe reduzir obstáculos para quem decide operar no Brasil. Defende a adesão à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), associando suas regras à governança das estatais e à "segurança e previsibilidade a quem investe". O Brasil pediu adesão no governo Temer, em 2017, mas ela não aconteceu nem com Jair Bolsonaro, nem por Lula.
O candidato Bolsonaro promete também acabar com o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre câmbio e facilitar a importação de máquinas, tecnologia e insumos. Para uma multinacional que compara países onde instalar uma fábrica, equipamentos mais baratos e regras previsíveis podem melhorar a conta brasileira, já que importar uma máquina é uma compra, não uma entrada de capital.
A estratégia de abertura exigiria enfrentar aqueles que perderiam espaço ou proteção. As idas e vindas da "taxa das blusinhas", bem como a taxação do aço chinês, mostram como alguns setores brasileiros não reagem bem à abertura ampla de mercado, pressionando Executivo e Legislativo.
Folha Mercado
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Já o apoio público defendido por Lula para novos empreendimentos exige demonstrar que atrai dinheiro novo, em vez de apenas baratear projetos que aconteceriam sem ele. Do contrário, será apenas uma nova frente de gastos para engordar a margem de grandes players.
Resta o convite aos candidatos para aproveitarem as tão movimentadas redes sociais e agendas de eventos para apresentarem as condições e os detalhamentos do que propõem seus planos.
A Lula, quanto dinheiro estrangeiro cada real público deverá atrair e quais riscos ficarão com o contribuinte? A Bolsonaro, quais barreiras de entrada serão reduzidas? Qual perspectiva temos para entrar na OCDE? Quem pede quatro anos de poder precisa entregar mais do que uma redação bem escrita.
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