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Thursday, November 5, 2026

Quando Lisboa ardeu - Quem combatia o fogo em 1755?

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Na manhã de 1 de novembro de 1755, Lisboa começou por cair e acabou a arder.

A terra abriu-se, igrejas e palácios ruíram, milhares de pessoas correram para espaços abertos e para a margem do Tejo. Depois veio o mar. E, enquanto a cidade ainda tentava perceber o que lhe estava a acontecer, começaram os incêndios.

Miguel Tibério Pedegache, escrevendo pouco depois da catástrofe, deixou uma frase que talvez descreva melhor do que qualquer estatística o que então aconteceu: «Aqui se multiplicou a lástima, e se aumentaram as desgraças.»

O terramoto demorou minutos. O fogo ficou.

Durante vários dias, as chamas avançaram sobre uma cidade já ferida, consumindo casas, igrejas, armazéns e tudo aquilo que os abalos tinham deixado vulnerável. O 1.º de Novembro entrou na memória como o dia do terramoto de Lisboa. Mas, para quem olha para a história do combate aos incêndios, há uma pergunta inevitável e muito menos repetida:

Quem tentou apagar Lisboa?

A resposta surpreende.

Em 1755, Lisboa não era uma cidade sem meios de combate ao fogo. Tinha homens, bombas, baldes, escadas, ferramentas e uma experiência acumulada ao longo de séculos. Ferreira de Andrade, na sua história dos serviços de incêndios de Lisboa, e Flávio Borda d’Água, ao estudar a prevenção e o combate ao fogo no Antigo Regime, mostraram como essa organização se tornou progressivamente mais complexa.

No meu próprio trabalho, André Gomes Luís, Fogo e Ordem: A Construção do Serviço de Incêndios em Lisboa (1395–1704), tenho defendido que essa história deve recuar ainda mais: a génese da função bombeiro em Lisboa é medieval.

Porque antes de existir a palavra, já existia a função.

Em 1395, D. João I determinava quem devia acudir quando surgisse fogo. Carpinteiros e calafates apareciam com machados; outros habitantes transportavam água; a própria cidade assumia que um incêndio não podia ser problema exclusivo de quem tivesse a casa a arder.

Ainda ninguém lhes chamava bombeiros.

A designação surgiria muito mais tarde, ligada à utilização das bombas de incêndio. Primeiro existiu a bomba; depois, o homem que a operava passou a ser conhecido como bombeiro.

Mas aqueles que corriam para o fogo já existiam muito antes.

A função precedeu o nome.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, Lisboa foi aprendendo. Compraram-se escadas, baldes de couro, picaretas, enxadas, alavancas e arpéus. Criaram-se depósitos de material em diferentes zonas da cidade. Pedreiros e carpinteiros eram alistados para acudir aos incêndios. Observava-se o que se fazia em Paris, Londres ou nas cidades holandesas e importavam-se novas soluções.

Nem sempre se combatia o fogo apenas com água.

Por vezes era necessário destruir para salvar.

Numa cidade de ruas apertadas e edifícios encostados, derrubar uma parede, cortar um madeiramento ou sacrificar uma construção podia impedir que as chamas passassem para o quarteirão seguinte. O machado era, também ele, uma arma contra o incêndio.

Depois chegaram as bombas.

Em 1734 vieram de Inglaterra quatro novas máquinas. Em 1746, apenas nove anos antes do terramoto, Lisboa dispunha já de doze bombas e de um dispositivo que podia mobilizar cerca de trezentos homens, além de barris de água, baldes de couro e outros materiais.

A cidade estava, portanto, longe de estar indefesa.

Mas havia fragilidades.

A documentação mostra dificuldades de mobilização, homens que desapareciam quando tocava a fogo e, sobretudo, um problema que nenhum equipamento consegue resolver sozinho: levar água suficiente ao lugar certo, no momento certo.

O incêndio do Hospital Real de Todos-os-Santos, em agosto de 1750, foi um aviso brutal. Cinco anos antes do terramoto, Lisboa assistiu a um grande fogo no coração do Rossio. Houve falta de água, dificuldades com o alcance das bombas e necessidade de derrubar estruturas para conter as chamas.

Lisboa tinha aprendido a combater incêndios.

Ainda não tinha aprendido a vencer todos.

E então chegou 1755.

Naquela manhã deixou praticamente de existir aquilo que normalmente chamamos «o local do incêndio». Havia focos de fogo em vários pontos da cidade, ruas bloqueadas, casas destruídas, edifícios instáveis, feridos, mortos e milhares de pessoas em fuga.

As bombas existiam, mas precisavam de passar.

Os homens existiam, mas pertenciam à mesma população atingida pela catástrofe.

Os baldes existiam, mas era preciso encontrar água e transportá-la.

As ferramentas existiam, mas o incêndio já não ameaçava uma casa ou uma rua.

Ameaçava a cidade.

E depois veio o tsunami.

O terramoto não destruiu apenas edifícios. Destruiu, em larga medida, as próprias condições materiais de que dependia o combate ao fogo: acessos, abastecimento, circulação, concentração de homens e transporte das bombas.

É talvez esta a dimensão mais impressionante do 1.º de Novembro quando olhada através da história dos bombeiros.

Lisboa não foi surpreendida sem qualquer organização.

Foi surpreendida por uma catástrofe maior do que a organização que tinha construído.

Uma bomba impedida pelos escombros era apenas uma máquina parada. Um balde sem água era apenas couro. E um homem chamado a combater um incêndio continuava a ser pai, marido ou filho quando a própria casa podia estar caída.

Não houve uma grande batalha organizada entre duas forças perfeitamente definidas.

Havia homens tentando salvar aquilo que ainda podia ser salvo de uma cidade que ardia por todos os lados.

Camões escrevera quase dois séculos antes: «Em perigos e guerras esforçados / Mais do que prometia a força humana.»

Não sabemos o nome da maioria daqueles que pegaram em machados, transportaram água, trabalharam nas bombas ou derrubaram estruturas naquele dia. E não precisamos de inventar-lhes feitos.

O cenário basta.

Doze bombas contra uma capital em ruínas.

Homens de braços nus fazendo trabalhar máquinas manuais.

Baldes de couro perante bairros em chamas.

Pedreiros e carpinteiros abrindo paredes enquanto o fogo avançava.

O resultado era quase inevitável.

Lisboa perdeu aquela batalha.

Mas não abandonou a guerra contra o fogo.

A reconstrução pombalina transformou a própria cidade e o serviço de incêndios continuou a evoluir, a disciplinar-se e a profissionalizar-se. Séculos depois, dessa longa história institucional surgiria aquilo que hoje conhecemos como Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa.

Os homens de 1755 não eram ainda os Sapadores de hoje. Não tinham os seus uniformes, viaturas, equipamentos de proteção ou formação. Seria absurdo projetar sobre eles uma instituição que só se consolidaria muito mais tarde.

Mas existe entre ambos uma linha antiga.

A mesma cidade.

O mesmo inimigo.

E uma função que sobreviveu a todas as transformações.

Quando hoje uma viatura dos Sapadores Bombeiros atravessa Lisboa a caminho de um incêndio, transporta tecnologia que aqueles homens não conseguiriam sequer imaginar. Mas leva consigo uma obrigação que a cidade reconheceu muitos séculos antes: quando todos procuram afastar-se do fogo, alguém tem de avançar na direção dele.

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