‘NAZA’ faz do espectador uma testemunha

Diretores de ‘Sem Chão’, ganhador do Oscar, retornam com um documentário baseado em depoimentos de soldados e oficiais israelenses, já considerado um dos filmes mais controversos do ano
David Fear
Eles não são chamados de ‘civis’. Nem de ‘vítimas’, ‘pessoas’ ou ‘inocentes’ — nas palavras de um soldado israelense: “Depois do dia 7 de outubro, não existem inocentes em Gaza“. O termo utilizado para descrever os danos colaterais gerados por ataques militares das Forças Israelenses (IDF) são chamados de “NAZA“, abreviação da expressão hebraica nezek agavi.
Se um ataque de drones atinge um local onde possíveis forças do Hamas operam, pode resultar em cerca de quatro NAZA. Ou 12 NAZA. Ou, nesse caso especial, em 500 NAZA. Os responsáveis por aquele bombardeio sabiam que os danos colaterais chegariam às centenas. Ainda assim, autorizaram o ataque. Os soldados, como tantos outros antes e depois deles em conflitos ao redor do mundo, estavam apenas cumprindo ordens.
É fácil entender o porquê de Yuval Abraham e Rachel Szor terem escolhido essa expressão como título do filme. Também é fácil ver a razão desse filme em particular ter atraído uma grande onda de controversas, mesmo tendo recebido longas e calorosas ovações em festivais de cinema
Formado por uma série de entrevistas realizadas durante a madrugada com 24 integrantes do IDF — cujas identidades foram mantidas em anonimato, com as vozes alteradas e os rostos não apenas ocultados, mas digitalmente modificados —, o filme oferece um olhar para dentro da engrenagem de uma guerra ainda em curso. As conversas, realizadas em telhados de Tel Aviv, fizeram com que NAZA fosse descrito como uma obra-prima, uma peça de propaganda e “a coisa mais importante” que você verá este ano. Os dois cineastas israelenses responsáveis pelo filme chegaram ainda a ser acusados de traição, em meio a discussões sobre uma possível revogação de sua cidadania.
Ao assistir ao filme, a sensação é de estar diante de uma acusação. “Há coisas sobre as quais não posso falar”, observa relutantemente um dos entrevistados, sugerindo a existência de horrores que não podem ser verbalizados. O que é dito nessas conversas, porém, já é suficiente para fazer você gritar e chorar.
Os acontecimentos do dia 7 de outubro não são ignorados aqui, tampouco são minimizados ou encobertos — o dia é tratado exatamente pelo que foi: um massacre, uma tragédia e uma atrocidade. A maioria dessas entrevistas se concentra nas políticas adotadas pelo IDF como consequência dos ataques e em como o uso de drones controlados remotamente e de um programa de inteligência artificial chamado Lavender teria resultado em um número de mortos que o filme estima em 73 mil — e continua aumentando — em Gaza.
“Existem duas realidades simultâneas”, afirma um dos participantes. “Uma visível, outra invisível.” A primeira é apresentada à distância por meio dos planos abertos que intercalam os depoimentos, nos quais pessoas comuns aparecem assistindo a noticiários e descansando em suas salas de estar, em apartamentos altos diante do horizonte de Tel Aviv.
A realidade invisível acontece “lá”, distante, mas tão próxima. Enquanto um programa de software “decide quem vive e quem morre”, botões são pressionados e bairros inteiros são dizimados antes mesmo que os operadores de drones saiam para almoçar.
Esses são alguns dos detalhes que vêm à tona quando os israelenses anônimos que se dispõem a falar — ou, caso não admitam sentir remorso por seu papel no conflito, ao menos confessam abertamente — e descrevem o processo sistemático de identificação e ataque de alvos na região. A vigilância sobre Gaza é total. Cada edifício tem um número de identificação, permitindo que os ataques sejam direcionados com precisão — Edifício 6327, sétimo andar —, ainda que os danos provocados se espalhem por todo o quarteirão. O que um dia foi uma cidade agora é “uma fábrica de alvos”, afirma um dos soldados.
O celular de uma menina de 12 anos é hackeado para localizar um alvo. Equipes responsáveis por identificar suspeitos que retornaram para suas casas ficam atentas à frase “Papai chegou” — e, então, ordenam ataques. Zonas são estabelecidas, mas seus limites não são definidos. Quem entra nelas sem saber é baleado. Um atirador de elite mata pessoas que tentam atravessar uma ponte em busca de comida. “A atmosfera geral é de ódio”, declara um dos soldados. “O objetivo é destruir.”
Alguns críticos questionaram NAZA por não apresentar evidências que corroborem essas alegações. No entanto, um letreiro próximo ao final do filme observa que acusações semelhantes já foram publicadas pelo Guardian — que coproduz o lançamento do documentário e permitirá que ele seja assistido gratuitamente em seu site posteriormente neste ano — e por outras publicações ao longo dos últimos anos.
As informações já foram apresentadas. O que muda é a forma: elas nunca haviam sido expostas de maneira tão formal, nem ouvidas diretamente — com vozes digitalmente modificadas ou não — da boca daqueles apontados como responsáveis pelos atos. Abraham e Szor — dois dos quatro integrantes da equipe responsável pelo documentário vencedor do Oscar em 2024, Sem Chão — adotam um formato quase anódino de entrevistas, intercalado ocasionalmente por imagens da paisagem urbana de Tel Aviv. Isso, porém, não suaviza os relatos; se alguma coisa, torna todos esses horrores ainda mais contundentes.
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