ESPN DeportesGiants liberan al receptor Odell Beckham JrDaily MaverickWILD OMISSION: South Africa’s lion bone trade — the consequences the government never consideredESPNOur 30-team guide to NBA training camps: Biggest storylines, dates to monitorThe Jerusalem PostUK has 'strong indications' Iran was involved in RAF airbase bombing plot, Burnham saysRTP DesportoO que esperar da seleção portuguesa frente à Dinamarca?Rolling StoneHow to Watch ‘The Amazing Race’ Season 39 Online FreeDeadline‘His & Hers’ Team Developing Alice Feeney’s Next Book ‘Twist’ As Series With Fifth SeasonPremium TimesTanzania removes Nigeria from referral visa categoryCollider8 Worst Book-to-Movie Adaptations Ever, RankedZDF heuteTürkei: Unabhängige Nachrichtenseite "T24" gesperrtThe Hollywood ReporterClear for Take Off: Paramount’s $111 Billion Warner Bros. Buy Greenlit By Judge7sur7“Il devrait démissionner immédiatement”: Trump relance ses attaques contre l’ex-patron de la Fed
The Daily Newsstand · Free, Always
Wednesday, September 30, 2026

As construções monumentais 'escondidas' na Amazônia descobertas por cientistas

Translate

Legenda do vídeo, Cientistas descobrem centenas de construições monumentais na Amazônia
    • Author, André Biernath
    • Role, Da BBC News Brasil em Londres
  • Published

  • Tempo de leitura: 8 min

Pesquisadores encontraram centenas de construções monumentais, que podem ser vistas do alto, de aviões, numa região que compreende o sul do Estado do Amazonas e porções do Acre, na Amazônia.

As estruturas foram construídas há milhares de anos, numa região que fica longe de grandes rios e, segundo os cientistas, pode ter abrigado milhões de pessoas.

"Esse povo fazia geometria monumental na Amazônia ao mesmo tempo que Pitágoras desenvolvia seu teorema na Grécia", compara o paleontólogo Alceu Ranzi, presidente do Instituto Geoglifos da Amazônia e um dos autores de um estudo recente sobre o tema.

Entenda a seguir o que os novos achados revelam sobre o passado da maior floresta tropical do mundo — e os detalhes sobre a chamada civilização Aquiry, responsável por criar os geoglifos, o nome dado a essas enormes estruturas escavadas na terra.

Uma tecnologia que permite desvendar o passado

O trabalho foi realizado por cientistas do Instituto Iberoamericano da Finlândia, na Espanha, da Universidade de Helsinki, na Finlândia, da Universidade de Turku (também na Finlândia), da Universidade Federal do Acre, da Universidade Federal do Pará, entre outras instituições.

Os pesquisadores usaram uma tecnologia chamada LiDAR — sigla em inglês para detecção e medição de distância por luz.

Basicamente, esse equipamento usa um laser para medir distâncias e construir mapas complexos em três dimensões.

Pule Mais lidas e continue lendo

Mais lidas

  • Urna eletrônica, com mão apertando o botão verde que confirma o voto

  • Avião Flydubai na Turquia em 10 de fevereiro de 2026

  • Jacque Marquez e Sarah Martinez foram duas das primeiras pessoas a andar na X2, no parque Six Flags Magic Mountain, em 22 de maio de 2008, em Valencia, na Califórnia

  • Toalhas com imagens de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha de 2022

Fim do Mais lidas

Em regiões como a Amazônia, o LiDAR consegue "ver" o que está embaixo das árvores — e analisar grandes áreas sem a necessidade de desmatar ou visitar todos esses lugares, um a um.

"Essa foi a primeira avaliação com LiDAR ambiciosa na Amazônia", defende o arqueólogo e antropólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinki, na Finlândia, e outro autor do artigo.

Geoglifo no meio de um pasto/área de plantação

Crédito, Martti Pärssinen

Legenda da foto, Antes, geoglifos só eram visíveis em áreas que já haviam sido desmatadas

Centenas de construções monumentais

Pule Promoção Agregador de pesquisas e continue lendo

O agregador de pesquisas da BBC News Brasil

Fim do Promoção Agregador de pesquisas

Com ajuda desse equipamento, os cientistas rastrearam uma área de 4,4 mil km² entre os Estados do Amazonas e do Acre.

E, nesse trecho, foram identificadas 432 estruturas de terra — 396 delas nunca antes registradas.

Os geoglifos associados à civilização Aquiry foram construídos entre os anos 600 a.C. e 850 d.C.

A partir desses dados e de imagens de satélite, eles estimam que a área ocupada pela civilização chegava a cerca de 183 mil km² — menos de 3% da Grande Amazônia, uma área pouco maior do que o território do Uruguai.

Os autores também calculam que, por volta dos anos 100 e 300 d.C., essa região abrigava até 3 milhões de pessoas — números que, segundo os cientistas, estão relacionados à monumentalidade dos geoglifos.

"A maioria [dos geoglifos] são valas, e elas variam de tamanho", detalha Ranzi.

"Há valas de até 15 metros de largura e cinco metros de profundidade", complementa ele.

Os autores da pesquisa sugerem que a construção de estruturas gigantescas como essas exigiam uma grande comunidade de pessoas trabalhando juntas.

Pesquisador está dentro de uma vala de um geoglifo e acena para a câmera

Crédito, Rhuan Lopes

Legenda da foto, Os geoglifos eram construídos a partir de valas cavadas no solo — segundo os pesquisadores, algumas delas chegam a 5 metros de profundidade

Como os geoglifos foram construídos?

"Nessa região não há pedra. Possivelmente, se utilizava material de madeira, e cestos para carregar [a terra]", responde Ranzi.

"Era muita mão de obra, mas não temos certeza, porque tudo na Amazônia é orgânico, desaparece", detalha o pesquisador.

Isso significa que é impossível encontrar nessa região sinais antigos "clássicos" de uma ocupação humana, como corpos enterrados, restos de comidas ou indícios de acampamentos e habitações. Por conta da umidade, todo esse material se decompõe com o passar do tempo, ao contrário do que acontece nas regiões mais secas do planeta.

Além do grande número de mão-de-obra e da necessidade de divisão de tarefas, os especialistas avaliam que essas construções exigiram conhecimentos de matemática e geometria.

"Já tivemos na Amazônia condições tecnológicas suficientes para uma civilização gigantesca como a Aquiry construir geoglifos na floresta", raciocina o arqueólogo e antropólogo Rhuan Carlos Lopes, da Universidade Federal do Pará, que também assina o artigo.

Imagem de LiDAR mostra uma série de geoglifos conectados por estradas

Crédito, Martti Pärssinen, Risto Kalliola & Fabio de Novaes

Legenda da foto, Imagens de LiDAR revelam que muitos geoglifos eram conectados por quilômetros de estradas

Para que serviram os geoglifos?

Uma das primeiras hipóteses dos pesquisadores era a de que os geoglifos seriam fortes, ou construções de defesa, para que a população se protegesse contra invasões e ataques.

Mas, hoje, os especialistas consideram mais provável que elas tivessem funções cerimoniais e políticas.

"Se realmente se confirmar que elas são estruturas cerimoniais, esse povo vivia em paz porque, para dedicar tanto esforço, tanto trabalho, isso significa que não havia inimigos com os quais se preocupar", especula Ranzi.

Pärssinen levanta outro aspecto que as pesquisas na região indicam: um respeito absoluto pela natureza.

"Eles nunca transformaram a floresta tropical numa savana", pontua ele.

"O que significa que as clareiras e a derrubada de árvores era grande o suficiente para a subsistência, para cultivar milho, abóbora, mandioca, nada mais", complementa o cientista.

No artigo, os pesquisadores defendem que não havia uma ocupação permanente dessas estruturas: elas eram usadas pra receber convidados e fazer cerimônias de cunho político, cultural, esportivo ou religioso.

"Os geoglifos eram usados para encontros, para tomar decisões políticas e para organizar cerimônias religiosas, e também para festas, dança e música", reforça Pärssinen.

O trabalho em campo, por meio de escavações, indica que essas estruturas eram muito bem cuidadas.

"Havia uma manutenção desses espaços. Não era só construí-los, mas mantê-los ao longo dos séculos, e isso, obviamente, implica também a existência de um conjunto de saberes", conta Lopes.

Outro ponto importante: os estudos mostram que as construções eram ligadas por estradas.

"Nós mapeamos 350 km de estradas que conectam os geoglifos", diz Ranzi.

Segundo ele, os geoglifos não eram estruturas isoladas, no meio da floresta ou da paisagem.

"Esses caminhos conduziam para esses locais, e essas vias, quando se aproximavam das estruturas, aumentavam de tamanho."

"É como se fosse sair do interior para uma pequena rua, que se transforma numa estrada e depois vira uma rodovia de duas vias, três ou quatro faixas", compara o cientista.

Pesquisadores fazem escavação arqueológica de um geoglifo na Amazônia

Crédito, Rhuan Lopes

Legenda da foto, Escavações arqueológicas feitas perto dos geoglifos indicam que essas estruturas tinham fins cerimoniais

O fim da civilização Aquiry

Durante as investigações, os pesquisadores notaram algo curioso: os geoglifos deixaram de ser construídos por volta do ano 850 d.C.

Ainda não se sabe muito bem o motivo disso.

Ranzi faz um paralelo com o que aconteceu nesse mesmo período com os maias, que habitavam partes do México e da América Central.

"Nesse mesmo tempo, os maias deixaram de construir e de utilizar aqueles palácios. As pirâmides do Yucatán voltaram a ser ocupadas pela floresta", observa ele.

"E algo parecido aconteceu na Amazônia. Os anos 800 foram talvez um período de alguma crise ambiental global", sugere ele.

Ranzi pesquisa os geoglifos do Acre há mais de 40 anos — ele viu as primeiras estruturas do tipo durante um voo, quando voltava a Rio Branco depois de uma viagem.

Nessa época, a maioria dessas construções só podia ser identificada em áreas que tinham sido desmatadas e transformadas em plantações ou pasto.

"Para mim, o que chamou a atenção desde o começo foi a monumentalidade dessas estruturas. São desenhos de 400, 500 metros de diâmetro", lembra ele.

Agora, com ajuda de novas tecnologias como o LiDAR, o trabalho dos arqueólogos segue em frente — com a vantagem de saber melhor onde fazer escavações em busca de mais vestígios sobre a civilização Aquiry.

Geoglifo visto do alto, em área próxima a uma floresta

Crédito, Martti Pärssinen

Legenda da foto, Os geoglifos podem ser vistos do alto — e ajudam a reescrever o passado da ocupação da Amazônia

Um novo passado para a Amazônia

As pesquisas sobre os geoglifos estão conectadas a um movimento maior, que vem desvendando aos poucos o passado da Amazônia — e desfazendo muito mitos sobre esse lugar.

O primeiro deles era o de que essa era uma mata intocada, sem sinais de ocupação humana.

Nas últimas décadas, pesquisas em diferentes campos do conhecimento têm demonstrado que essa região era habitada por milhões de pessoas muito antes da chegada dos europeus — e eles deixaram marcas profundas na composição e na estrutura da maior floresta tropical do mundo.

"O que a gente vê na Amazônia não é uma grande floresta natural, mas, sim, um grande jardim construído historicamente", defende Lopes.

"E isso, do meu ponto de vista, é muito fascinante", complementa o pesquisador.

As estimativas sobre a ocupação ancestral desse território ainda estão em crescimento: antes, estudos calculavam que toda a Amazônia pré-colonial poderia suportar entre 1 milhão e 2,5 milhões de pessoas, no máximo.

Depois, essa conta subiu para entre 5 e 10 milhões de pessoas.

Agora, com a sugestão de que apenas uma área relativamente pequena dessa floresta abrigaria até 3 milhões de indivíduos, é possível que esse número aumente novamente.

Outra contribuição do estudo dos geoglifos é entender como se deu a ocupação da chamada "terra firme".

Antes, acreditava-se que a ocupação amazônica se deu principalmente às margens dos grandes rios, onde supostamente haveria mais condições para se obter alimentos.

Mas os geoglifos se localizam justamente na região entre rios, que é conhecida como terra firme: pesquisas recentes revelaram que esses lugares também reuniam grandes populações, com capacidade de intervir na floresta e cultivar mandioca, feijões, abóbora, milho…

"Essas pessoas ocuparam não só os grandes rios, ali nas praias, com abundância de peixe, facilidade de andar de canoas, de se deslocar. Elas também ocuparam todo o interior, pelo menos no sul do Amazonas e no Acre", reforça Ranzi.

"Elas conheciam a topografia, ocupavam lugares longe dos rios e se deslocavam a pé por esses caminhos."

"E isso altera completamente a visão de como aconteceu a ocupação da Amazônia", conclui ele.

View the original on BBC News Brasil →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.