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Friday, October 2, 2026

Dançar a tristeza: a catarse de Pedro da Linha

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Seis anos após o álbum de estreia, Pedro da Linha regressa ao formato de longa-duração com Música Menor mas Feliz, disco editado esta sexta-feira, 2 de outubro. Herdeiro dos Buraka Som Sistema e discípulo da sua editora Enchufada, o compositor e produtor português tornou-se um arquiteto do som essencial na música nacional ao longo da última década — entre a eletrónica, a pop urbana, as sonoridades africanas e o hip hop, produzindo para Ana Moura, Pedro Mafama, EU.CLIDES, Dino D’Santiago, ProfJam ou Diogo Piçarra, entre tantos outros. Hoje, mais do que nunca, é o autor do seu próprio projeto artístico, uma trajetória que o novo álbum vem consolidar e materializar.

“Houve uma altura em que me tornei mais produtor do que artista. E também me perdi um bocado nisso”, confessa em entrevista ao Observador. “Estava feliz e realizado, mas esqueci-me um bocado do outro lado. Quando ia para a minha música, não sentia tanta pica. Até que chegou um tempo em que as coisas que estava a fazer [para outros] não me chegavam. Então voltei atrás — mas foi mais difícil do que esperava. Foram anos em que duvidei da música que faço, da qualidade do trabalho, em que houve muitas dúvidas e negatividade à volta.”

Música Menor mas Feliz é o resultado de dois anos de trabalho, da redescoberta da motivação, da procura por um processo criativo mais coletivo e de uma performance mais robusta e sofisticada em cima do palco. O concerto de apresentação acontece na Casa Capitão, em Lisboa, a 23 de outubro.

Entre o balanço e a tristeza

Estamos na Baixa de Lisboa, a 11 minutos de comboio entre a estação do Rossio e a da Damaia, no concelho da Amadora, o lugar a que Pedro da Linha chama casa. Foi lá, nas vivências de escola e rua mas também através do digital, que o músico de 35 anos cresceu rodeado da música dos PALOP que persiste no seu ADN. No centro histórico da capital está outra parte da sua identidade, como descobrimos ao passarmos pela porta da Nova Pombalina, a poucos metros do Terreiro do Paço, o restaurante gerido pelo pai e o tio desde a década de 1980. Conhecido pelas sandes de leitão, é um dos últimos redutos do comércio mais tradicional na Baixa, hoje transfigurada pela massificação do turismo e a gentrificação da cidade.

Se o balanço quente das músicas de Pedro da Linha evocam o kuduro, a batida ou a kizomba com que cresceu, e aos quais se foram somando outras latitudes da eletrónica global, do funk carioca ao reggaeton; a sua personalidade parece mais moldada pela melancolia e nostalgia entranhadas nos azulejos azuis da fachada da Nova Pombalina, essas características tão intrínsecas do ser português.

O novo disco não explora quaisquer indícios musicais de portugalidade, pelo menos não da perspetiva tradicional — ao contrário das explorações do EP Rua Rosa, 24 (2023), onde revisitou o cancioneiro popular nacional — mas tem uma sensação portuguesa a percorrer o alinhamento. “O tuga tem muito a coisa da saudade e da tristeza e acredito que, à minha maneira, tentei passar esse sentimento”, conta, sentado numa das mesas do restaurante da família. “Tentei que esse fosse o ambiente instalado. Há uma profundidade grande de não conseguir sair de um momento triste. Pelo menos para mim é muito difícil sair. Às vezes até parece que te boicotas e procuras estar nisso.”

Pedro da Linha lida com a curiosa dualidade de a sua música ter um caráter particularmente dançável — até porque emergiu enquanto DJ a provocar a agitação na pista, fase marcada pelo impactante EP de estreia Damaia (2017) — e de suscitar felicidade na multidão, apesar de para si ser sempre uma fonte de dúvidas e autoquestionamento, de dificuldades de autoestima e de não haver uma intenção de transmitir alegria com aquilo que compõe.

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