A falsa sensação de segurança

A propósito das mais recentes manifestações em França, muitos foram os que procuraram descodificar as reais motivações daqueles jovens, a instrumentalização política (à esquerda e à direita) de que foram e estão a ser alvo, o contexto social sempre efervescente da pátria da Bastilha e da guilhotina, a morada de residência dos manifestantes (bairros periféricos onde o Estado se demitiu de atuar, seja a nível social, seja no dever de manutenção da lei e da ordem), e as origens sociais, étnicas e culturais daqueles jovens. Tudo para chegar a uma conclusão com diferentes variações: se o problema está na conjugação de todos estes fatores, e se estes fatores só estão reunidos nas periferias de algumas capitais europeias, Paris à cabeça, então o risco de contágio é reduzido, porque o povo é e está verdadeiramente sereno.
É difícil rebater esta lógica, porque os argumentos fazem sentido e são válidos. Em muitos casos, as reivindicações daqueles jovens eram e são difíceis de compreender. O vandalismo é, além de desproporcional, indesculpável. Grosso modo, foram e estão a ser instrumentalizados por Mélenchon e Le Pen. É também verdade que França tem uma forte tradição de protesto e de rutura. E é verdade que muitos dos manifestantes são filhos de imigrantes e vivem em comunidades segregadas onde o Estado desistiu e tem medo de entrar. Tudo isto é verdade. Mas, ao mesmo tempo, parece ser uma leitura insuficiente e parcial da realidade. Podem a perda real de autoridade do Estado (pais, professores, polícias) e a delinquência juvenil justificar, por si só, tanta mobilização e tanta violência? Talvez se possa responder com outra pergunta: o que entendemos por risco de contágio?
Em França, os jovens eleitores dividem-se entre a direita radical e a esquerda radical. Na Bélgica, onde também se registaram protestos violentos, acontece o mesmo. Em Espanha, grande parte do eleitorado jovem está com o Vox de Santiago Abascal, como antes tinha estado com o Podemos. Na Alemanha, os mais jovens alimentam a AfD, e Berlim caiu para a esquerda radical. Nos Países Baixos, o eleitorado jovem foi e é o grande motor do Partido pela Liberdade. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, os mais jovens — sobretudo os homens — são a grande base de apoio de Donald Trump. Em simultâneo, estão a alimentar a nova vaga de “socialistas” no Partido Democrata.
Em Portugal, nas legislativas de 2025, o Chega foi a segunda força mais votada entre os mais jovens, já a morder os calcanhares da AD. Foi mesmo o partido mais votado entre os jovens do género masculino. Nas últimas sondagens, o partido de André Ventura tem aparecido de forma consistente em primeiríssimo lugar nesse segmento etário. E por larga margem. Não se trata de avaliar os heróis e os vilões nesse binómio direita-esquerda, nem de fazer uma equivalência moral entre vandalismo e voto; mas de observar que, em Portugal, na Europa e nos Estados Unidos, os mais jovens estão a canalizar o seu descontentamento para os extremos. E tentar perceber porquê.
Em muitos aspetos, na raiz dos problemas, Lisboa é muito mais parecida com Paris do que, porventura, gostaríamos que fosse. E com Madrid, Bruxelas, Berlim, Amesterdão ou Nova Iorque. A ausência de gás lacrimogéneo e de cargas policiais nas ruas não deve servir para contemplações sobre um qualquer excecionalismo lusitano. E o mito dos brandos costumes é isso mesmo: um mito. O povo — os mais jovens — não está sereno. Está cada vez mais zangado.
Em Portugal, 44% dos jovens entre os 25 e os 34 anos completaram o ensino superior, uma brutalidade face às gerações anteriores. Muitos chegam ao início da vida adulta vindos de famílias monoparentais (mais do que duplicaram em 30 anos), sem irmãos (Portugal é o país da União Europeia com a maior proporção de famílias com filhos únicos) e de escolas desumanizadas e cada vez mais violentas. O desemprego jovem está nos 20% — é quase o triplo da taxa de desemprego geral. A esmagadora maioria dos que trabalham recebe até 1000 euros. A emigração jovem — apesar dos sinais positivos — também anda na casa dos 20%. A média de idades com que saem de casa dos pais é de 29 anos. E casam-se, em média, aos 35 anos. A partir do banco traseiro, aqueles que ainda não atingiram a maioridade veem com clareza o futuro que os espera. Este futuro.
Ao longo dos últimos 30 anos, viveram ou ainda vivem numa dupla curva exponencial: melhores recursos públicos, mais tecnologia, mais mundo; ao mesmo tempo, mais crises, mais conflitos, muito mais dificuldade para perseguir as ambições que lhes ensinaram a ter e que neles depositaram. Disseram-lhes que se estudassem mais do que os pais e trabalhassem bem, viveriam melhor do que eles; agora, pedem-lhes que se contentem com um quarto exíguo num T3 partilhado porque no tempo deles não havia telemóveis, ninguém viajava de avião, jantar fora era um luxo e Portugal um atraso de vida.
Não percebem que, para muitos, o que se quebrou foi a esperança de perseguir a prosperidade. Pedir a uma geração que se habituou a ir para lá de Badajoz e de Vigo antes dos 25 que agora se contente com menos do que o frango de churrasco que os pais comiam uma vez por mês ao domingo à noite, é pedir que desista deles e acredite nos que prometem resolver tudo à espadeirada. Sem estrutura familiar, sem independência financeira, sem uma casa digna desse nome, sem perspetivas de construir uma carreira e uma família, encaminham o protesto, não para as ruas, não contra os caixotes de lixo e as montras, mas através do voto. Lisboa e o Porto não estão a arder, mas a cozer lentamente. Dizer que Portugal não é a França traduz, por isso mesmo, uma falsa sensação de segurança.
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