IA mal utilizada é prejudicial ao aluno de computação, diz presidente de novo instituto de tecnologia no RS
A IA (inteligência artificial) capaz de escrever códigos em poucos segundos não tornou menos importante aprender programação. Para Leandro Villas, 42, primeiro presidente do Itec, instituto de tecnologia que começa a funcionar no Rio Grande do Sul, a popularização dessas ferramentas, na verdade, aumenta a necessidade de uma formação sólida em matemática e lógica.
"Antigamente tinha até um meme: ‘Falar é fácil, mostre-me o código’. Hoje o meme é o contrário: ‘Me explique o código’, porque muitos alunos só pegam o código e utilizam", diz Villas. Segundo ele, muitos acreditam que não precisam mais aprender a programar porque existem ferramentas de IA generativa. "O aluno deixa de ter o senso crítico e o raciocínio lógico porque não passa pelo processo."
Ainda em desenvolvimento, o Itec será um instituto com proposta filantrópica de tecnologia voltado à formação em ciência da computação, com uma proposta que guarda semelhanças com iniciativas como ITA, IME e Impa Tech, voltadas à formação de estudantes de alto potencial em ciência e tecnologia.
Villas deixou os cargos de professor titular e diretor do Instituto de Computação da Unicamp para assumir a construção do projeto. Segundo ele, a inteligência artificial atravessará todo o curso, enquanto questões éticas serão incorporadas à formação desde o início.
"A IA utilizada de forma equivocada é prejudicial à formação do aluno de computação", afirma o professor. "A gente quer formar cientistas da computação que consigam criar novas tecnologias, façam um bom uso da inteligência artificial e não dependam dessas ferramentas."
O Itec oferecerá a graduação em ciência da computação em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre. A primeira fase do campus tem previsão de ser entregue até o fim de 2026, e o início das aulas está previsto para março de 2027.
A turma inicial terá 60 estudantes, todos com bolsas integrais. A previsão é abrir uma turma por ano e chegar a até 120 alunos por turma nos anos seguintes. Ao todo, o campus poderá receber até 420 estudantes simultaneamente.
Para Villas, a ética e o impacto social também devem fazer parte da formação do cientista da computação. "Hoje a gente tem muitas soluções disponíveis que começam com um objetivo e depois acabam se desviando e tendo impacto negativo."
Villas se anima ao falar do processo de seleção para o Itec porque vê nele algo da própria trajetória acadêmica. Filho de pais que tiveram pouca escolarização, cresceu em Salmourão, no interior paulista, município que tinha menos de 4.000 habitantes. Na juventude, não sabia da existência de universidades públicas nem de programas de pós-graduação.
Prestou vestibular para uma faculdade particular em Adamantina, a Faculdades Adamantinenses Integradas, e não passou de primeira, ficando na lista de espera até conseguir uma vaga. Ingressou no ensino superior com deficiências na formação básica.
"Quando eu tive a oportunidade, eu abracei, me dediquei bastante e terminei o curso como o segundo melhor da turma em termos de notas", afirma.
Antes de conseguir uma vaga no mestrado, recebeu, segundo suas próprias contas, mais de 30 respostas negativas em processos seletivos. Em uma entrevista na UFSCar, porém, uma professora identificou nele um potencial para a pesquisa que não aparecia no currículo. A oportunidade abriu caminho para a carreira acadêmica. Depois, fez doutorado na UFMG e pós-doutorado na USP.
No processo seletivo do Itec, em vez de considerar apenas notas e desempenho acadêmico, o modelo prevê análise da trajetória do candidato por meio de entrevistas e de uma redação sobre sua história de vida. Também haverá um requisito mínimo de desempenho em matemática no Enem.
"O talento existe em todo lugar, mas a oportunidade não", diz Villas. A instituição pretende buscar estudantes em diferentes regiões do país e ampliar o acesso de jovens que podem ter talento para a computação, mas não tiveram as mesmas oportunidades de formação.
"Nós queremos uma turma bastante diversa, de diferentes regiões do Brasil. Uma das coisas que a gente tem bastante dificuldade no Brasil é a presença feminina no curso de ciência da computação. Com esse processo de seleção holístico, eu vejo que a gente tem uma oportunidade de reduzir esse tempo para alcançar essas metas."
Além do ingresso, o projeto também prevê bancar a permanência dos estudantes. Eles terão residência no campus, alimentação, plano de saúde, notebooks e apoio socioemocional. A estrutura deve ter cerca de um professor para cada dez alunos, com os docentes também atuando como mentores.
O modelo tem referências em iniciativas de formação em ciência e tecnologia, mas, segundo Villas, o Itec pretende reunir elementos que aparecem de forma separada em outras instituições. Entre eles estão a formação intensiva, a moradia no campus, o acompanhamento individualizado e a aproximação com problemas reais.
O instituto terá um aporte de R$ 400 milhões dos fundadores ao longo de uma década. Segundo o presidente, por ter sido criado do zero, o Itec terá liberdade para testar metodologias pedagógicas e, depois, compartilhar com outras universidades os modelos que apresentarem resultados.
ITEC
- Campus: Gravataí (RS)
- Graduação: Ciência da computação
- Alunos na graduação: até 420 estudantes simultaneamente. Ingressantes por ano: 60 estudantes na primeira turma; a previsão é abrir uma turma por ano e chegar a até 120 alunos por turma nos anos seguintes
- Início das aulas: março de 2027
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