Livro expõe escravidão moderna após drama de brasileiro em Mianmar
O brasileiro Phelipe já trabalhou no Laos, nos Emirados Árabes, nas Filipinas e no Uruguai. Aprendeu inglês e coordenou equipes internacionais. O currículo que poderia sugerir uma carreira de sucesso é, na verdade, a trajetória de uma pessoa que, em mais de uma ocasião, foi privada de liberdade, perseguida, impedida de falar com a família e teve o passaporte retido pelos próprios "empregadores". Phelipe foi escravizado.
A escravidão não acabou na abolição, mas se adaptou à atualidade, mostra "Um Inferno em Mianmar", livro dos jornalistas Ricardo Viveiros e Laura de Araujo Cordeiro.
O livro-reportagem investiga a escravidão moderna, suas engrenagens e a responsabilidade das autoridades diante de um problema que permanece pouco visível.
Na internet, anúncios de emprego no exterior atraem jovens que sonham em conhecer o mundo, ganhar dinheiro e ajudar a família. Segundo Viveiros, o sonho é um direito sagrado, mas, quando combinado a "pouca educação, informação e politização", torna o indivíduo vulnerável.
A obra parte da história de Phelipe de Moura Ferreira, brasileiro que aos 26 anos aceitou uma proposta para trabalhar na Tailândia no suporte para usuários do TikTok e da Shopee, ganhando US$ 2.500 (cerca de R$ 12,6 mil) por mês.
Até então ele já tinha trabalhado com telemarketing de cassinos online em outros países do Sudeste Asiático e enfrentado subempregos, cargas horárias abusivas e baixa remuneração. Já tinha fugido de um alojamento em Dubai e sido perseguido nas Filipinas.
Ao tentar de novo, Phelipe saiu do Brasil em direção à Tailândia, mas acabou levado a Mianmar, onde foi mantido em cativeiro e forçado a aplicar golpes financeiros pela internet. Qualquer recusa era respondida com violência física.
Em dezembro de 2024, Phelipe conseguiu contornar as proibições do cárcere e falou com o pai. Seu pedido de socorro foi reproduzido em manchetes de grandes jornais, e o barulho comoveu a ONG internacional Exodus Road, que combate o tráfico de pessoas e conseguiu a libertação do jovem brasileiro.
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É uma história digna de filme, mas o autor de "Um Inferno em Mianmar" temia que, narrando o relato isoladamente, produzisse sensacionalismo.
"Se eu quisesse escrever um romance, talvez fosse vender muito mais e fazer mais sucesso, mas eu tenho um compromisso com a verdade. A história de Phelipe é fantástica porque ela permite contar outras histórias também", afirma.
Na contramão do true crime —que transforma relatos criminais em entretenimento—, Viveiros, que não gosta do subgênero, diz que "quis escrever um livro sério".
O trabalho de pesquisa e escrita levou cerca de dois anos, período maior que o habitual para o autor, acostumado a concluir biografias em seis ou oito meses.
Os jornalistas ouviram pessoas que temiam falar sobre o que haviam vivido —e o próprio Phelipe, ainda abalado pelo trauma, precisou ser convencido a contar sua experiência.
A intenção do livro, segundo o autor, é alertar jovens como ele, que na era da internet são alvos comuns do tráfico. O recrutamento digital é, muitas vezes, o primeiro passo da escravização. "O feitor continua com o chicote na mão. Só que agora o chicote é digital."
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