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Thursday, September 10, 2026

A Copa das mulheres vai deixar um legado ou apenas uma fotografia?

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O Brasil não precisa criar o futebol feminino. Ele já existe, principalmente nos campos de várzea das periferias.

Em São Paulo, um estudo da PUC-SP mapeou 95 equipes femininas de futebol de várzea na Região Metropolitana.

São mulheres que já estão jogando. O problema é que muitas disputam horário com equipes masculinas, pagam inscrição, uniforme e arbitragem, têm dificuldade para conseguir transporte e conciliam futebol com trabalho, estudo e responsabilidades familiares.

O futebol feminino não está esperando a Copa para nascer. Está esperando estrutura para crescer.

Se o legado de 2027 ficar concentrado nos estádios, nas transmissões e nos grandes clubes, teremos organizado uma Copa do Mundo. Se chegar aos campos de bairro, às quadras públicas e às meninas que hoje precisam improvisar para jogar, aí estaremos falando de política pública.

Existe ainda uma outra questão, a segurança.

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Pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Avon encontraram aumento nos registros de violência contra mulheres em dias de jogos. No levantamento realizado com partidas do Campeonato Brasileiro entre 2015 e 2018, os registros de ameaça aumentaram 23,7% e os de lesão corporal dolosa, 20,8%.

Isso não significa que futebol cause violência doméstica. O jogo pode funcionar como gatilho ou catalisador de uma violência relacionada a relações de poder e determinados padrões de masculinidade.

Uma pesquisa com 2.105 partidas do Campeonato Brasileiro entre 2015 e 2019 encontrou aumento médio de 6% nos registros de violência doméstica nas seis horas seguintes a derrotas inesperadas de times considerados favoritos.

Isso deveria fazer o futebol olhar para além das quatro linhas.

Se determinados jogos podem concentrar um risco maior, por que essa informação não entra no planejamento de clubes, autoridades, emissoras e patrocinadores?

Clássicos e finais poderiam ter campanhas de enfrentamento à violência doméstica, divulgação do Ligue 180 e articulação com serviços de proteção.

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Os dados mais recentes tornam essa discussão ainda mais urgente. Um novo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com jogos realizados entre 2023 e 2025, encontrou aumento de 27,4% nos registros de ameaça contra mulheres e de 28,8% nas lesões corporais relacionadas à violência doméstica em dias de jogos. Entre mulheres de 15 a 29 anos, o crescimento chegou a 44,4%.

O futebol aparece, nesse contexto, como um marcador temporal de risco.

Ao mesmo tempo em que nos preparamos para colocar mulheres no centro do maior palco do futebol mundial, continuamos convivendo com uma realidade em que mulheres são assassinadas dentro de suas próprias casas.

Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foram aproximadamente quatro mulheres mortas por dia.

Que sentido existe em celebrar mulheres ocupando os maiores estádios do país se ainda temos dificuldade em garantir que elas possam ocupar com segurança os campos de seus bairros, as ruas por onde passam e suas próprias casas?

A Copa não vai resolver o feminicídio, mas reúne dinheiro, audiência, patrocinadores, governos e clubes em uma escala rara.

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A Copa de 2027 pode criar uma política permanente para o futebol feminino de base e de várzea, aproximando esporte, educação, saúde e segurança.

A derrota do time não pode virar autorização para controlar alguém em casa. Ciúme não é demonstração de amor. Frustração não dá direito à violência.

Essa audiência também pode ser usada para prevenção.

Mas precisamos parar de medir legado apenas pelo que aparece na fotografia.

Um estádio cheio é uma fotografia. Uma audiência recorde é uma fotografia. Uma grande final no Maracanã será uma fotografia.

O legado é outra coisa.

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É a menina que continua treinando depois de 2027 porque encontrou um campo disponível no seu bairro. É a equipe de várzea que consegue sobreviver. É a treinadora que teve formação. É a atleta que conseguiu conciliar esporte e estudo. É a mulher que encontra uma rede de proteção quando precisa.

Se o Brasil fizer isso, a Copa terá produzido algo maior que uma competição.

Terá deixado uma política que continua funcionando depois que as câmeras forem embora.

A última delegação vai deixar o país. Os estádios vão esvaziar. As medalhas serão entregues.

O que ficará?

Essa é a disputa pelo legado da Copa do Mundo Feminina de 2027.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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