"Os EUA dão uma falsa esperança de ajuda à Ucrânia"

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Este é o som do Gabinete Guerra das manhãs, 360. Segunda-feira, a análise é do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João. Obrigado.
Olá, Miguel. Começamos pelo incidente perto da base aérea britânica de Fairford, que é utilizada pelos Estados Unidos. As autoridades estão a investigar uma possível ligação de Teerão a este atentado, em que cinco suspeitos foram detidos com explosivos. Trump diz que já estavam no radar dos Estados Unidos há muito tempo e que tinham intenções de causar grandes danos. Miguel, confirmando-se, é o sinal de que a guerra com o Irão já chegou ao coração da Europa?
Vamos lá, Maria João. Vamos lá destrinchar por partes as informações de Donald Trump. Donald Trump diz, efetivamente, que havia já uma investigação americana e britânica sobre estes alegados terroristas, partindo do princípio daquilo que Donald Trump disse. Mas, por outro lado, a polícia britânica diz que as investigações começaram há pouco tempo, depois de uma denúncia por razão das carrinhas que foram utilizadas. E, portanto, há aqui já uma diferença entre aquilo que Donald Trump quer fazer passar, que estariam a ser investigados há muito tempo e que havia esta ligação entre as duas agências de segurança, a britânica e a norte-americana. Os britânicos vêm dar uma informação diferente. Agora, ponto importante: a base de Fairford tem algo que é pouco comum na Europa. Ou seja, tem uma pista de cerca de 3 km, em que permite a utilização dos bombardeiros B1 e B52, que é extremamente importante, essa pausa técnica depois de cruzar o Atlântico, para efetivamente reabastecer, para estarem prontos para chegarem ao Médio Oriente. Portanto, esta base tem uma estratégia e um ponto militar extremamente importante. Ponto número três: a guerra. Nós não sabemos, até porque há informações de que está a ser investigado três pontos. A ligação ao Irão, uma ligação jihadista, no sentido de ser considerado um ato terrorista através da Jihad, mas que não seja exatamente ligado ao Irão, e há também uma terceira parte da investigação que pode considerar isto como uma parte da guerra híbrida da própria Rússia. Portanto, é sobre estes três pontos que a investigação se está a focar. Agora, isto representa duas coisas. Mais do que a chegada da guerra à Europa, demonstra que a Europa é um alvo, mesmo que diretamente não esteja envolvida.
Exatamente.
É um alvo porque diretamente não está envolvida na guerra entre a Ucrânia e a Rússia, mas acaba por ser um alvo e nós vemos, efetivamente, que continua a ser alvo desta guerra híbrida feita pela Rússia, seja a interferência nas eleições, o patrocínio a partidos de extrema-direita ou extrema-esquerda, ataques cibernéticos, invasão do espaço aéreo ou invasão do espaço marítimo, o que aconteceu em Leipzig com o drone e com explosivos que foi encontrado na pista desse aeroporto também tão importante, porque é um aeroporto, um hub que faz transporte militar para a Ucrânia e, portanto, tem essa vulnerabilidade. Relativamente ao Médio Oriente, nós já tivemos também a Europa não diretamente ligada a intervenções militares, mas depois a ser vítima de tentativas e de também ataques terroristas concretizados. Ou seja, a Europa não está diretamente ligada aos conflitos de uma forma proativa, não fez parte da intervenção no Médio Oriente ultimamente, mas é efetivamente um alvo por razão do seu apoio institucional através da NATO, ou seja, o apoio que tem dado à Ucrânia. Qual é que é o grande problema desta vulnerabilidade? É que a Europa ainda não disse aos europeus que tem esta vulnerabilidade, que está a sofrer este ataque híbrido, que tem esta situação de que deu quase um nim, se me permites, a Donald Trump naquilo que se passou no Médio Oriente. Nós não apoiamos, mas ok, abrimos as bases. Até na altura houve umas bases que foram fechadas e depois reabertas. E, portanto, está na altura de os líderes europeus dizerem também aos europeus o que é que está a passar, o que é que nós podemos ser alvo e quais são as consequências da nossa participação, mesmo que indireta.
O que é que está a ser feito. Exatamente. Entretanto, e sobre o Médio Oriente, Trump confirmou ter rejeitado a proposta de Teerão para reabrir o Estreito de Ormuz em sete dias. Depois disto, tivemos a reação do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, que disse que estão prontos para negociar, mas também para uma guerra devastadora. Miguel, como é que vês os próximos tempos? Pelos vistos, nem as eleições intercalares, nem o aumento do custo de vida são suficientes para a Casa Branca considerar tréguas.
Araghchi, que é o ministro dos Negócios Estrangeiros, dizia que efetivamente não tinham recebido ainda proposta oficial dos Estados Unidos, pese embora Donald Trump, através da conferência de imprensa que deu à entrada do Air Force One, já ter dito que não aceitava. Os Estados Unidos estão desesperados por um acordo, já aqui falámos os dois. Os Estados Unidos precisam é do acordo que seja determinado por eles e não determinado pelos outros. Obviamente que isto é tudo muito curioso. Dia 16 de setembro, antes da visita de Xi Jinping a Washington e antes da Assembleia Geral das Nações Unidas, eles recebem a proposta e a proposta era muito baseada naquilo que era o memorando de entendimento. Ou seja, os Estados Unidos Aliviar as sanções financeiras, nomeadamente devolver os 12 mil milhões de dólares que estão bloqueados, que é só uma parte do valor que está bloqueado em várias instituições internacionais. Aliviar também os bloqueios aos portos iranianos, permitindo a venda dos hidrocarbonetos e o escoamento do petróleo. E havia também a questão da guerra no Líbano e no Irão, portanto, fazer um cessar-fogo geral. O que acontece? Donald Trump-- e depois deixava para segundas núpcias a discussão da questão do nuclear. Por que era difícil para Donald Trump aceitar isto? Primeiro, porque vê-se que há uma mão da China por trás. Ele pede a Xi Jinping para fazer um forcing com o Irão, Xi Jinping dá-lhe um nin, hoje estou a utilizar muito esta expressão, porque me parece interessante e muitas vezes em política é o que acontece. Nem sim, nem não, é um nin. Xi Jinping dá-lhe um nin e de repente aparece, antes da reunião, esta boa vontade do Irão em negociar, no mesmo dia ou na mesma altura em que depois na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente iraniano acusa os Estados Unidos de serem um Estado terrorista e de apoiarem outro Estado terrorista, sem eu mencionar que seria Israel. Trump não podia aceitar isto por uma simples razão, que é: como não partiu dele, e como este acordo mostrava a fragilidade dos Estados Unidos, porque iria atrás daquilo que era agora a oferta do Irão, e como não vai discutir a questão do nuclear, e para terminar, e neste momento os Estados Unidos quer criar um caos interno no Irão, sufocando completamente a economia. A economia iraniana hoje está um caos, inflação, custo de vida, o preço dos alimentos básicos está astronómico e, portanto, os Estados Unidos acreditam que depois das eleições americanas, um último forcing militar, juntamente com Israel, pode mesmo fazer cair o regime. E se anteriormente a questão do regime era secundária para a intervenção militar, agora parece-me que é o ponto mais importante que vai acontecer depois das eleições, é a queda do regime iraniano.
Sem dúvida, Miguel. Mesmo a fechar, temos só de falar da luz verde que Washington deu a Kiev para fabricar os seus próprios mísseis Patriot. Que leitura fizeste desta licença, Miguel? É o sinal de que a Casa Branca quer que a Ucrânia se defenda sozinha a longo prazo, em vez de depender da ajuda do Ocidente?
Eu acho que acima de tudo é Donald Trump, mais uma vez, a dar uma falsa esperança à Ucrânia. E eu explico por quê. Marco Rubio dizia, na intervenção que depois foi feita de Zelensky e de Trump, que os Patriots era a defesa militar mais procurada do planeta. É verdade, porque estes interceptores são os únicos capazes de atingir os mísseis balísticos russos, da Coreia do Norte e também os iranianos e os chineses, obviamente. Mas também é verdade, disse na mesma frase Marco Rubio, que entre a concessão da licença, a construção da fábrica, a verificação dos componentes, a distribuição, a preparação para serem utilizados, tudo isso vai demorar entre 18 meses e três anos. E depois há aqui outro ponto. A Boeing tem que também permitir a licença e a Lockheed Martin, que é outra empresa, ou neste caso, é a empresa que os constrói, a Boeing tem licença sobre o componente do radar interno do próprio míssil, ainda não deram luz verde. E a Boeing, da última vez, disse mesmo publicamente que não autorizava e que não permitia. Portanto, o que é esta ideia? Temos aqui um problema de licenças secundárias, temos um problema de que para eles estarem operativos é entre 18 meses e três anos, numa situação em que a Ucrânia está desesperada, como se costuma dizer, com pão para a boca, neste momento. Sendo que o inverno vai ser pesado e vai ser o inverno em que Vladimir Putin vai apostar todas as fichas no sufoco interno da própria Ucrânia em termos de cansaço de guerra. Parece-me a mim que é dar uma falsa esperança e, de alguma forma, continuar a dar esta ideia de que os Estados Unidos são determinantes para a defesa da Ucrânia e para a resolução da própria guerra. Mas não acredito que neste momento, esta boa vontade, entre aspas, de Donald Trump, vá surtir efeito a curto prazo, pelas razões óbvias que nós sabemos e que Marco Rubio nos disse, mas que não nos precisava dizer. Uma coisa é atribuir a licença, parece-nos muito bem, outra coisa é todo o processo de construção e todo o processo de licenciamento dos próprios mísseis, que vai demorar tempo e que certamente quando chegar, se chegar, já chegará tarde para aquilo que serão os próximos meses da guerra.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pelo teu análise. Boa semana, até segunda.
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