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Tuesday, September 15, 2026

África não é Las Vegas: o “novo” jihadismo

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Vinte e cinco anos depois do 11 de Setembro, a leitura mais confortável que o Ocidente pode fazer da guerra ao terror é a de que ela, com todos os seus custos e todos os seus erros, acabou por ser ganha. A al-Qaeda continua a ser um nome que toda a gente reconhece, mas é um nome associado sobretudo ao passado, a uma época em que o grupo era a principal ameaça para a Europa e para os EUA. E, de facto, pelo menos à primeira vista, esta leitura parece acertada. Após mais de 20 anos de operações no Médio Oriente, onde os EUA gastaram mais de 8 milhões de milhões de dólares o Iraque e a Síria estão hoje num estado de estabilidade relativa que possibilitou, inclusive, a retirada das forças americanas da Síria, em abril deste ano, e do Iraque até 30 de setembro. Mesmo no caso mais difícil do Afeganistão, onde, após 20 anos de presença americana, os talibã voltaram ao poder em 2021, os medos de que Kabul se tornasse o centro de operações para o terrorismo global, como no passado, não se materializaram.

Mas, se os números mostram uma diminuição da atividade de grupos como a al-Qaeda ou o Estado Islâmico no Ocidente, é também verdade que a ameaça que este tipo de grupos representa não desapareceu e continua a ameaçar milhões de pessoas por todo o mundo, nomeadamente em África. O Sahel, que em 2007 representava menos de 1% das mortes por terrorismo no mundo, representa hoje mais de metade do total global, e cinco países, o Burkina Faso, a Nigéria, o Níger, a República Democrática do Congo e a Somália, concentram a vasta maioria dessas mortes. Desde o Sahel até ao Corno de África, a força de grupos terroristas como o Estado Islâmico, o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), o al-Shabaab, os Lakurawa, o Boko Haram ou o ISWAP tem crescido de forma exponencial nos últimos anos. A perceção de que o combate ao terrorismo é uma coisa do passado e circunscrito ao Médio Oriente não corresponde à realidade e tem apenas ajudado estes grupos a crescer. O que aconteceu nestes vinte e cinco anos foi a migração de um fenómeno, não o seu desaparecimento, migração essa que se deu para um continente onde o Ocidente não tem apetite político e, sobretudo, não tem atenção.

Perceber esta transformação e relocalização do terrorismo internacional exige olhar, brevemente, para trás. Imediatamente após o 11 de Setembro, Bin Laden estabeleceu-se como a cara do terrorismo internacional. Mas o seu grupo, a al-Qaeda, não nasceu em 2001. Foi criada por Bin Laden ainda nos anos 80, em grande medida integrada nos mujahideen no Afeganistão contra a ocupação soviética, e esteve bastante ativa durante toda a década de 90, com ataques terroristas em Nairóbi, em Dar es Salaam e até, pelo menos indiretamente, em solo americano, uma vez que Ramzi Yousef, o homem por trás do ataque ao World Trade Center em 1993, tinha ligações ao grupo.

Neste sentido, a al-Qaeda já era conhecida tanto pelos americanos como pelo mundo islâmico, mas foi apenas a partir de 2001 que passaram a ser vistos em Washington como uma ameaça existencial, tornando-se o grupo, quase por reflexo, o líder incontestado do movimento jihadista global.

Mas este aparente sucesso desintegrou-se rapidamente. Se Bin Laden imaginou que os ataques do 11 de Setembro catalisariam uma onda de protestos anti-intervencionistas como os que se viram aquando da guerra do Vietname, forçando os EUA a retirarem-se da região, o seu plano falhou de forma espetacular. Os americanos reforçaram a sua presença, agora acompanhados pelos seus aliados da NATO após a invocação do Artigo 5º, e fizeram-no com o apoio de esmagadoras maiorias eleitorais dos dois lados do Atlântico. Como consequência, a al-Qaeda perdeu a sua base de operações no Afeganistão e, consequentemente, viu a sua capacidade para realizar ataques em larga escala altamente degradada. Mais decisivo do que a perda de território foi, no entanto, o desgaste da legitimidade, e esse a al-Qaeda infligiu-o a si própria. A destruição trazida pelas intervenções ocidentais em resposta não uniu a umma contra o inimigo externo, como Bin Laden antecipara, pelo contrário: virou grande parte das populações locais contra aqueles que viam como tendo trazido esta destruição até às suas portas, e a incapacidade do grupo para responder militarmente às forças ocidentais retirou-lhe a aura de resistência de que dependia.

Talvez ainda mais relevantes para esta perda de popularidade foram as ações da própria al-Qaeda dentro de muitos países islâmicos, nomeadamente no Iraque. Se a invasão do Iraque em 2003 pelas forças americanas inicialmente levou a um aumento do apoio a Bin Laden, a violência e repressão do braço da al-Qaeda no Iraque, liderado na altura por Abu Musab al-Zarqawi, tornou a organização quase indistinguível dos supostos inimigos reais (os americanos) que dizia combater. al-Zarqawi instaurou uma política de perseguição acérrima a quaisquer muçulmanos não simpatizantes ou não suficientemente simpatizantes com a causa, com um foco particular nas populações xiitas do Iraque, acusadas de compactuar com a ocupação americana. Al-Zarqawi acabou por ser morto por forças americanas em 2006, sendo que, poucos meses depois, os seus seguidores proclamaram o Estado Islâmico do Iraque, revoltados por aquilo que interpretavam ser a moderação e a pusilanimidade das chefias, rutura que apenas em 2014 se tornou formal quando Ayman al-Zawahiri anunciou que o grupo, entretanto conhecido como Estado Islâmico ou IS, já não tinha ligações com a al-Qaeda.

No Médio Oriente, nem a al-Qaeda nem o ISIS recuperaram destas operações. Aliás, a falta de atividade significativa de ambos os grupos na região nos últimos cinco anos, apesar de todo o tumulto e desestabilização a que temos assistido, é talvez a prova mais irrefutável da diminuição da sua influência. Depois do 7 de Outubro, com a região em convulsão, com Gaza destruída e com o sentimento antiocidental em máximos históricos, estavam reunidas as condições para um ressurgimento jihadista em massa que acabou por nunca chegar. Temeu-se, por momentos, que a queda de Bashar al-Assad na Síria e a subsequente subida ao poder de Ahmad al-Sharaa, antigo aliado da al-Qaeda, pudesse voltar a colocar a organização no mapa, mas a presidência de al-Sharaa tem sido o oposto, marcada pela acomodação aos interesses ocidentais e pelo afastamento do seu passado militante.

Quer isto dizer que a ameaça está eliminada? Infelizmente, não. O que as intervenções e os esforços de nation building produziram foi a eliminação das condições estruturais que tinham permitido a proliferação do jihadismo, criando Estados mais fortes e centralizados, com forças armadas treinadas e com financiamento externo que se mostraram capazes de conter a ameaça (ela nunca foi extinta propriamente), o suficiente para relegar a al-Qaeda e o Estado Islâmico à condição de atores secundários. Sob ameaça de irrelevância, estes grupos foram obrigados a reinventar-se e, sobretudo, a relocalizar-se; relocalização esta que encontrou casa na região do Sahel, na África central e no Corno de África. Aqui, ao contrário do Médio Oriente, não há uma coligação internacional disposta a intervir, e os Estados locais, frágeis e com recursos limitados, são incapazes de conter a ameaça sozinhos.

Importa aqui dividir a análise em diferentes regiões, uma vez que as ameaças divergem e os intervenientes variam. Podemos olhar, em primeiro lugar, para o Burkina Faso, Mali e Níger, que entre 2020 e 2023 viveram golpes militares que derrubaram governos liderados por civis, instalando no seu lugar líderes militares. Em certa medida, o surgimento destas ditaduras militares foi um reflexo de um sentimento de insegurança profundamente enraizado na população, que sentia que os governos anteriores, apoiados pelos EUA e, nomeadamente, pela França, não estavam a fazer o suficiente para proteger as populações civis da ameaça de grupos extremistas armados, como o JNIM (a filial da al-Qaeda no Sahel) e o ISSP (Estado Islâmico no Sahel). Esta frustração levou à expulsão das forças francesas e americanas destes países a partir de 2022, e a abordagem ideológica e política partilhada levou os três a cooperar de forma mais profunda, dando origem em 2023 à Aliança dos Estados do Sahel (AES). Mas a retirada deixou os regimes enfraquecidos e com uma capacidade ainda mais reduzida para combater as organizações extremistas que proliferam na região. Como tal, estes governos procuraram proteção junto da Rússia, nomeadamente da sua divisão África Corps (o sucessor do Grupo Wagner). No entanto, estas forças têm-se revelado muito menos eficazes no combate ao jihadismo no Sahel, e foram, na prática, transformadas em garantias de segurança pessoal para as elites.

O mais recente exemplo desta dinâmica foi a tentativa de golpe de Estado no Níger, no passado dia 29 de agosto, quando soldados descontentes do sudoeste do país (nomeadamente de Dosso e Tillabéri, onde as unidades têm sofrido as baixas mais pesadas contra o ISSP e o JNIM) marcharam sobre a capital. O golpe foi suprimido por forças leais ao regime, com a ajuda das forças russas. Embora esta resistência possa parecer, à primeira vista, um sinal de força por parte do governo, a leitura correta é a inversa. O regime sobreviveu, em grande medida, porque foi salvo pelos russos. As regiões onde os jihadistas são mais fortes ficaram agora com menos capacidade de resposta, e o governo, agora ocupado a consolidar poder interno, não terá capacidade no curto-médio prazo para aumentar os seus esforços no combate às insurgências.

No Mali, a situação é de certa forma até mais grave. Em abril, o JNIM, em conjunto com a FLA (Frente de Libertação de Azawad, um grupo tuaregue separatista), lançaram uma ofensiva coordenada sobre seis cidades, mataram o ministro da Defesa Sadio Camara num atentado suicida com carro-bomba contra a sua residência em Kati, a poucos quilómetros de Bamako, tomaram Kidal, a capital regional do norte que o exército maliano e os russos tinham reconquistado em 2023, e o JNIM impôs um cerco a Bamako, que se mantém até hoje.

No Burkina Faso, sob a presidência de Ibrahim Traoré, cerca de 40% do país encontra-se fora do controlo do governo. O governo tem-se mostrado fundamentalmente incapaz de lidar com estas ameaças, sendo a melhor medida da sua irrelevância militar o facto de o JNIM e o Estado Islâmico dedicarem mais recursos a combater-se um ao outro pela primazia regional do que a combater o exército. Essa disputa fez das operações de ambos os grupos mais violentas e mais transnacionais, tornando a zona das três fronteiras entre estes países um dos lugares mais letais do mundo.

No Corno de África, a ameaça tem uma geografia particularmente óbvia. A Somália fica à entrada do estreito de Bab el-Mandeb, e o al-Shabaab, também ele filiado na al-Qaeda, tem vindo a ganhar terreno. Do outro lado do Golfo de Áden estão os Houthis, apoiados pelo Irão, que nas últimas semanas conduziram uma ofensiva relâmpago na costa do Mar Vermelho, e passaram a ter, pelo menos por agora, a capacidade de exercer controlo efetivo sobre um dos chokepoints mais importantes da economia marítima global. Em teoria, o al-Shabaab (um grupo Sunita ligado à al-Qaeda) e os Houthis (uma milícia Zaidi apoiada por Teerão) seriam inimigos quase naturais. Contudo, na prática, estes grupos têm vindo a aumentar a sua cooperação, com a lógica sectária a ceder perante a hostilidade partilhada aos Estados Unidos e a Israel e do interesse comum na pirataria e na perturbação do comércio no Mar Vermelho e no Golfo de Aden. Esta situação é ainda agravada pelo corte, comunicado pelos EUA à União Africana em julho, de 500 milhões de dólares anuais, fundos que ajudavam a sustentar a Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália (AUSSOM), o que deixa a força multinacional de mais de 12 000 peacekeepers sem condições para se manter operacional. Retirar esse apoio neste momento é criar um vácuo que o al-Shabaab, e, já agora, o Estado Islâmico na Somália, aproveitarão para consolidar as suas posições e expandir a sua influência.

Numa altura em que outros conflitos como no Sudão e na região do Tigray na Etiópia ameaçam desestabilizar a região e unir duas das guerras mais sangrentas do século XXI, todas as condições para uma presença ainda maior de organizações como a al-Qaeda e o IS em África estão reunidas. A Europa e os EUA podem continuar a ignorar estas realidades, mas isso não fará a ameaça desaparecer. África não é Las Vegas: o que acontece em África não fica em África. Em 2015 vimos como fluxos massivos de imigração devido a conflitos no Médio Oriente podem desestabilizar os países europeus e levar a ruturas profundas na sociedade. Um conflito alargado no Sahel e na bacia do Lago Chade, um reinício do conflito no Tigray e a sua junção com a guerra civil do Sudão, e o reforço do al-Shabaab na Somália e do Estado Islâmico na Nigéria, levariam a um influxo massivo de refugiados para o Mediterrâneo, uma crise que teria proporções potencialmente muito superiores às de 2015.

À dimensão humanitária acresce a questão geopolítica. Uma presença reforçada de grupos jihadistas em África servirá para dar alento a estas organizações, aumentando a sua capacidade de recrutamento e de aquisição de riqueza, aumentando por sua vez o risco para o Ocidente.

Há uma tentação natural em olhar para estes conflitos como disputas étnico-regionais distantes e de alguma forma endémicas, e em arquivá-los na categoria das realidades africanas, por mais trágicas, às quais já nos habituámos. Essa tentação, se compreensível, é um erro de consequências difíceis de medir. O 11 de Setembro resultou, em parte, de uma falha de imaginação dos serviços de segurança ocidentais, uma vez que ninguém foi capaz de imaginar que um grupo tão longínquo e com recursos aparentemente parcos pudesse executar uma operação daquela dimensão em solo americano. Essa falha de imaginação pode estar a repetir-se agora, com nomes diferentes, num continente diferente e numa escala que ainda não sabemos medir, mas com as mesmas marcas de sempre.

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