A riqueza de amanhã começa na inovação de hoje

Porque são alguns países consistentemente mais ricos do que outros? Porque produzem mais valor, desenvolvem empresas competitivas, criam produtos e serviços que o mundo procura e transformam conhecimento em riqueza.
Não é apenas uma questão de recursos naturais, dimensão ou localização. É, cada vez mais, uma questão de capacidade para inovar.
Os países que lideram os índices de inovação tendem também a estar entre as economias mais desenvolvidas. Suíça, Suécia, Estados Unidos da América, Coreia do Sul e Singapura são exemplos recorrentes. A China, ainda longe dos níveis de rendimento das economias mais avançadas, já está entre os países mais inovadores provando que a inovação não é apenas consequência da riqueza, pode ser um instrumento para a alcançar.
A relação funciona nos dois sentidos. A riqueza permite investir em ciência e investigação e desenvolvimento; o investimento continuado em conhecimento e tecnologia aumenta a produtividade e gera novas oportunidades económicas.
A diferença entre países não se mede apenas pelo que produzem hoje, mas pela capacidade que constroem para produzir amanhã.
A Inovação não é um setor, é uma forma de transformar a economia
Quando falamos de investigação e inovação, pensamos frequentemente em laboratórios, inteligência artificial, semicondutores ou robótica. Mas a inovação não se esgota nos setores tecnológicos: o seu impacto está na capacidade de transformar praticamente todas as atividades económicas.
Por exemplo, na agricultura, sensores, drones, imagens de satélite e inteligência artificial permitem monitorizar culturas, antecipar necessidades de água e nutrientes e reduzir desperdícios. A biotecnologia pode desenvolver variedades mais resistentes a pragas e alterações climáticas, enquanto novos sistemas de gestão da água aumentam a produtividade e reduzem a vulnerabilidade à escassez.
Já na saúde, a inovação permite diagnósticos mais precoces e precisos, através da imagem, da análise genética e da inteligência artificial. Pode acelerar o desenvolvimento de medicamentos e terapias personalizadas e permitir tratamentos mais eficazes e menos invasivos.
A digitalização pode ainda assegurar a partilha segura da informação clínica entre profissionais e instituições, evitando repetição de exames, reduzindo erros e melhorando a coordenação dos cuidados e o acompanhamento dos pacientes, incluindo à distância. E tudo isso conjugado com a robotização permite intervenções cirurgicas mais eficientes, seguras e com mais fácil recuperação para os pacientes.
Nestes setores, como em todos os outros, inovar não significa apenas fazer melhor o que já fazemos. Significa tornar possível o que antes não era, com maior eficiência, menor custo e melhores resultados. É este efeito transversal que justifica uma aposta mais ambiciosa em investigação, desenvolvimento e inovação.
Não é apenas uma questão de fundos europeus
O debate sobre o orçamento plurianual da União Europeia para 2028-2034 permite discutir prioridades. A proposta da Comissão procura reforçar a competitividade, a investigação e as tecnologias estratégicas. Mas seria um erro reduzir esta discussão à distribuição dos fundos europeus.
A investigação e a inovação não podem depender de um programa comunitário. Exigem investimento dos orçamentos nacionais, das empresas, das universidades e dos centros de investigação. Exigem incentivos fiscais, capital de risco, mercados que valorizem a inovação e políticas públicas que favoreçam a experimentação e a adoção de novas soluções.
O financiamento europeu pode ser um acelerador, mas não substitui uma estratégia nacional nem desculpa o adiamento de decisões que cabem a cada país.
A Europa precisa de inovar para competir, reduzir dependências e controlar tecnologias essencias. Cada Estado-Membro tem de assumir a sua responsabilidade.
Portugal não pode continuar a defender apenas o passado
É neste contexto que discordo da posição de Portugal nas negociações do próximo orçamento europeu, alinhando-se com os Amigos da Coesão e privilegiando a defesa dos fundos tradicionais, em particular da coesão e da Política Agrícola Comum (PAC).
Compreendo as razões. Décadas de fundos criaram uma dependência económica, institucional e política. Portugal habituou-se a olhar para o orçamento comunitário como financiamento para infraestruturas, desenvolvimento regional e agricultura. Esses recursos foram importantes na modernização do país.
Compreendo também o receio de que mais financiamento para investigação e inovação se concentre nos países com universidades mais fortes, empresas competitivas e maior capacidade para preparar candidaturas. Os mais avançados poderão ficar ainda mais avançados.
É um risco real, mas não é uma razão para resistir à mudança, é sim uma boa razão para nos prepararmos para ela. Não podemos defender os modelos do passado por receio de não competir nos do futuro. Temos de assumir a investigação, o desenvolvimento e a inovação como um desígnio nacional.
Isso exige definir prioridades, mesmo que implique investir menos noutras áreas e enfrentar críiticas e bloqueios dos respetivos grupos de interesse. Os fundos europeus devem ser um fator dessa estratégia, não a estratégia em si.
Não defendo o abandono das fundos de coesão ou da PAC mas considero necessário diminuir o seu peso relativo para dar mais espaço à investigação, desenvolvimento e inovação.
Não existe uma contradição entre ambos. A inovação pode modernizar a agricultura, tornar regiões competitivas e criar emprego qualificado. Não confundamos instrumentos com objectivos. O objectivo é a convergência e a prosperidade, já os instumentos podem e devem evoluir.
Quando a necessidade aguça o engenho
Israel, Coreia do Sul e Taiwan desenvolveram capacidades tecnológicas extraordinárias em contextos de vulnerabilidade estratégica. A necessidade de defesa e autonomia levou-os a investir em eletrónica, cibersegurança, inteligência artificial e tecnologias avançadas.
Singapura construiu uma economia especializada e competitiva, consciente de que a sua dimensão e localização exigiam diferenciação permanente. A Suíça seguiu outro percurso, assente numa economia aberta e orientada para atividades de elevado valor acrescentado.
Não são modelos diretamente transponíveis, nem a ameaça produz inovação por si só. Mas a necessidades estratégica pode catalizar investimento e transformação económica.
A Europa tem razões para sentir essa necessidade. A agressão russa evidenciou a importância da defesa e da autonomia industrial. A concorrência chinesa expõe dependências tecnológicas. A imprevisibilidade transatlântica exige maior responsabilidade europeia pela segurança e competitividade.
Por exemplo, na saúde, os cortes em determinadas linhas de investigação em vacinas e a incerteza regulatória nos Estados Unidos podem abrir espaço para atrair investigadores, empresas e investimento. Não significa que os Estados Unidos tenham deixado de ser uma potência científca ou deixado de investigar vacinas mas é uma clara oportunidade para reforçar as capacidades, influência e liderança europeias em vacinas, nomeadamente nas de mRNA, biotecnologia e preparação para crises sanitárias.
Vamos aproveitar este momento para acelerar a transformação ou continuar a defender os mecanismos que nos trouxeram até aqui?
Portugal não pode ficar à espera
Portugal não pode esperar que a prosperidade venha de fora. Tem de a construir, fazendo da investigação, do desenvolvimento e da inovação uma prioridade nacional. As universidades, os investigadores e as empresas são a base dessa ambição, o desafio é ligar o conhecimento à economia e transformar o potencial científico e tecnológico em capacidade para criar mais valor.
Isso exige investimento persistente em I&D, maior colaboração entre ciência e empresas e condições para que a inovação chegue ao mercado e transforme os setores tradicionais. Não basta produzir conhecimento, é preciso convertê-lo em novos produtos, serviços e processos que aumentem a produtividade, reforcem a competitividade e abram caminho ao crescimento. E exige escolhas, dar prioridade a este investimento implica rever a afectação de recursos, não apenas acrescentar uma intenção aos planos que já existem.
Os fundos europeus devem acelerar essa transformação, não substituir a estratégia que nos cabe definir. A coesão e a agricultura continuam a ser importantes, mas a sua defesa não pode servir de argumento para adiar a aposta na inovação que também pode modernizá-las. Portugal deve preparar-se para disputar os instrumentos europeus de investigação e inovação com ambição, em vez de se limitar a preservar a sua quota nos apoios tradicionais.
A Europa precisa de recuperar liderança científica e tecnológica. Portugal precisa de fazer dessa ambição uma oportunidade de convergência. A inovação não é um luxo reservado aos países ricos, é uma das vias para criar riqueza, gerar emprego qualificado e sustentar o crescimento que desejamos.
A escolha não é apenas entre receber mais ou menos fundos. É entre preservar os instrumentos de ontem e construir a capacidade de criar valor amanhã. Se queremos um país mais próspero, temos de investir em I&D, transformar conhecimento em inovação e inovação em crescimento. É aí que a ambição se torna futuro, porque para se distribuir a riqueza é preciso primeiro criá-la.
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