Gilmar defende para TSE uma depuração que sonega ao STF

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Gilmar Mendes esticou no fim de semana um mal-estar que eletrifica a cúpula do Judiciário. Num textão pendurado nas redes sociais, cobrou do TSE uma atuação apartidária. Anotou que magistrados que cultivam a pretensão de politizar a Justiça Eleitoral devem reavaliar a permanência em seus postos. Avisou que o Supremo agirá como instância revisora.
Na sua postagem, Gilmar não deu nome às togas. Mas quem sabe ouvir as entrelinhas percebeu que ele se referia aos desafetos Nunes Marques e André Mendonça. Indicados por Bolsonaro ao Supremo, os dois ocupam, respectivamente, a presidência e a vice-presidência do TSE.
A Justiça Eleitoral sempre gozou de enorme prestígio entre os brasileiros. E não é para menos! Do Oiapoque/AP ao Chuí/RS, de Mâncio Lima/AC a João Pessoa/PB, ela se faz presente. A cada dois anos, todos os municípios do país recebem urnas eletrônicas, confiáveis e auditáveis, que puseram fim às antigas práticas de fraude. Com atuação apartidária e fiel à Constituição, o TSE sempre garantiu a paridade de armas entre candidatos e a legitimidade das eleições. Os desafios, no entanto, continuam. O desenvolvimento tecnológico tem apresentado uma série de novas dificuldades à regularidade da formação da vontade popular. As ferramentas de inteligência artificial hoje existentes, ao mesmo tempo em que ajudam nas atividades do dia a dia, permitem a criação de vídeos, áudios e peças de propaganda capazes de enganar o eleitor e desequilibrar as disputas eleitorais. Matéria da Folha de S.Paulo dá a medida do problema: pesquisadores produziram quinze peças de propaganda eleitoral falsa com IA e tentaram veiculá-las como anúncios pagos por contas nos Estados Unidos, o que a lei proíbe. Treze passaram pelos filtros da Meta. Entre elas, uma imagem falsa do Presidente do TSE alterando a data do primeiro turno e uma convocação a "retomar Brasília, como fizemos em 8 de janeiro". E não é só. Relatório reservado da Abin, revelado hoje pelo mesmo jornal, aponta risco crítico de interferência externa nas eleições, movida pelo objetivo de assegurar controle sobre nossos ativos estratégicos e riquezas naturais. Mais grave, porém, é o risco que vem de dentro: o da politização da Justiça Eleitoral. Quem tenta engajar o Tribunal em proselitismo partidário deve avaliar se reúne condições de nele permanecer. E os partidos políticos e o Ministério Público Eleitoral devem fiscalizar atentamente se essas condições estão presentes, arguindo a suspeição nos casos em que ela se configure. É preciso, pois, que o TSE continue a coibir práticas abusivas e deturpadoras da vontade popular. Para tanto, é indispensável uma atuação altiva, imparcial e apartidária, cujo único compromisso seja com a Constituição e com as leis. O STF, por sua vez, continuará a atuar como instância de supervisão, com a firmeza que o momento exige, intervindo sempre que necessário à preservação de seus próprios precedentes e da Constituição. https://t.co/QYOJF8PYar
-- Gilmar Mendes (@gilmarmendes) September 19, 2026
A animosidade de Gilmar contra Nunes Marques e Mendonça ficou nítida na fatídica sessão do Supremo sobre o envolvimento de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro. Antes da sessão, realizada em 15 de setembro, Gilmar fustigou Nunes Marques e Luiz Fux no Zap. Em mensagem dirigida ao primeiro, escreveu: "Assumam que estão ferrados e saiam dos processos. Abram as contas".
No escurinho do Zap, Nunes Marques cobrou "respeito". Bloqueou Gilmar no aplicativo. Sob os refletores da TV Justiça, declarou-se impedido de julgar o caso Moraes-Vorcaro. Alegou que o julgamento poderia interferir no processo eleitoral.
"Então, na condição de presidente do TSE, eu não me sinto confortável para participar desse julgamento e afirmo o meu impedimento", disse Nunes Marques. Na mesma sessão, Gilmar atacou Mendonça. Com a língua e o dedo em riste, chamou o colega de "pixuleco" e "boneco eleitoral". Acusou-o de colocar a toga a serviço da candidatura de Flávio Bolsonaro. Tratou Mendonça como sub-mafioso: "Até a máfia tem ética".
Em aliança com Flávio Dino e Cristiano Zanin, Gilmar esgrimiu questões processuais para bloquear a abertura de investigação contra Moraes. Um pedido de vista de Dino adiou o debate para depois da eleição. Em consequência, Edson Fachin, presidente do Supremo, cancelou a sessão que deveria julgar na próxima quarta-feira o pedido de investigação formulado por Moraes contra Mendonça.
Quer dizer: junto com os integrantes da falange de Moraes, Gilmar contribuiu para sonegar ao Supremo a depuração que considera incontornável no TSE. Resta indagar: que legitimidade terá um Supremo politicamente conflagrado para revisar eventuais transgressões eleitorais da cúpula da Justiça Eleitoral?
Opinião
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