Na eleição mais afetada por IA da história, deepfakes vieram de onde menos se esperava
Relatório do projeto VigIA, da agência Lupa, mostra que mais da metade do conteúdo generativo foi feito por anônimos e usuários comuns; especialista chama atenção para o alto volume de memes

Publicado em 24 de outubro de 2026 às 10:47.
Última atualização em 24 de outubro de 2026 às 10:49.
RESUMO +
O uso de deepfakes cresceu mais de 308% entre 2024 e 2026, segundo o Observatório Lupa. Nas eleições de 2026, usuários comuns e anônimos responderam por 60% das 920 publicações com IA identificadas pelo projeto VigIA, da agência Lupa, e apenas 371 conteúdos estavam rotulados corretamente.
A expectativa era alta e não animadora. Desde que os modelos de IA generativa se popularizaram no Brasil, a partir de 2022, com o ChatGPT, as chamadas deepfakes — fotos ou vídeos criados e alterados por inteligência artificial — se massificaram. Se antes elas demandavam um conhecimento técnico, ainda que mínimo, neste novo contexto, para o bem e para o mal, elas passaram a estar acessíveis a qualquer pessoa digitalizada.
Outro relatório, do projeto VigIA, também da agência Lupa, mostra que mais da metade do conteúdo generativo foi feito por anônimos e usuários comuns. Do total de 920 publicações identificadas durante o primeiro turno das eleições de 2026, 60% vieram desse perfil de usuário. Entre as mais recorrentes, estavam vídeos em que jornalistas anunciam notícias inventadas e celebridades manifestam, falsamente, apoio a candidatos.
"Se a gente quer bloquear de toda maneira a publicação de deepfakes pelo risco que impõe ao entendimento das pessoas sobre os eventos políticos, a gente precisa considerar que a maior parte desses conteúdos tem partido de contas de usuários e de avatares anônimos. Aqui a Justiça precisaria trabalhar com as plataformas para tentar identificar essas pessoas", explica Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo mapeamento.
Bruno Sartori, pioneiro no estudo de deepfakes no Brasil, explica que, mesmo com a explosão no uso mostrada pelas pesquisas, o teor foi menos nocivo do que se imaginava. Em outras palavras, o brasileiro fez o que ele sabe fazer melhor: memes. "O acesso massificado às ferramentas de IA ampliou exponencialmente o potencial de uso dessas tecnologias, embora, na prática, o cenário atual seja marcado predominantemente por conteúdos de engajamento e humor."
O especialista explica que um exemplo claro (ou "emblemático") são os memes virais, "como os envolvendo o presidente Lula, que alcançaram até repercussão internacional de forma espontânea por parte dos eleitores, contrastando com a ausência de registros similares voltados a figuras como Flávio Bolsonaro e com a aparente escassez, até o momento, de aplicações com fins estritamente criminosos".
Entre o uso e a sinalização
O monitoramento realizado pelo VigIA analisou 972 imagens e vídeos, confirmando 920 casos de uso de IA entre os 1.941 conteúdos suspeitos coletados. A investigação utilizou três ferramentas automatizadas de detecção validadas por pesquisadores para identificar tanto deepfakes quanto conteúdos sintéticos que modificam aspectos visuais das publicações.
A legislação eleitoral exige a devida sinalização de peças criadas ou manipuladas por inteligência artificial, regra que foi desrespeitada na maioria das ocorrências mapeadas pelo levantamento. Dos 920 conteúdos confirmados, apenas 371 estavam rotulados corretamente, o que representa cerca de 40% do total, enquanto 549 publicações irregulares foram identificadas, sendo 75 delas impulsionadas diretamente por candidatos ou partidos políticos.
"Quando encontramos quase um conteúdo com IA por hora e vemos que a maioria não sinaliza o uso da tecnologia, temos uma dimensão do desafio que esse cenário representa não só para o eleitor como para os órgãos fiscalizadores", pontuou Cristina Tardáguila, fundadora da Lupa.
'Perguntas frequentes'
Quanto cresceu o uso de deepfakes entre 2024 e 2026? +
O uso de deepfakes cresceu mais de 308% entre 2024 e 2026, segundo o primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, do Observatório Lupa.
Quem produziu a maior parte dos conteúdos com IA nas eleições de 2026? +
Usuários comuns e anônimos produziram 60% das 920 publicações identificadas durante o primeiro turno, de acordo com o projeto VigIA, da agência Lupa. Entre os conteúdos recorrentes, havia vídeos falsos de jornalistas e celebridades.
Como o TSE define uma deepfake nas eleições de 2026? +
O Tribunal Superior Eleitoral define deepfake como conteúdo sintético produzido ou manipulado por IA ou tecnologia equivalente, com realismo ou verossimilhança, que crie, reproduza ou altere imagem, voz ou manifestação de pessoa viva, falecida ou fictícia.
As deepfakes eleitorais foram tão nocivas quanto o esperado? +
Não, segundo Bruno Sartori, pioneiro no estudo de deepfakes no Brasil. O especialista afirma que o cenário teve predomínio de conteúdos de humor e engajamento, como memes sobre o presidente Lula, e poucos registros de aplicações estritamente criminosas.
Quantos conteúdos com IA foram identificados pelo projeto VigIA? +
O projeto VigIA analisou 972 imagens e vídeos e confirmou 920 casos de uso de IA entre 1.941 conteúdos suspeitos. O levantamento utilizou três ferramentas automatizadas de detecção validadas por pesquisadores.
Quantos conteúdos com IA foram sinalizados corretamente? +
Apenas 371 dos 920 conteúdos confirmados estavam rotulados corretamente, cerca de 40% do total, segundo o projeto VigIA. O levantamento identificou 549 publicações irregulares, das quais 75 receberam impulso direto de candidatos ou partidos políticos.
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Pacete é jornalista, LinkedIn Top Voices, curador de marketing, tecnologia e inovação do Rio2C e SP2B, além de Consultor de Inovação, Conteúdo e Projetos Especiais da Exame.
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