Investigação científica coloca em dúvida genes ligados à proteção contra o Alzheimer
Uma das linhas de pesquisa mais promissoras sobre o Alzheimer está no centro de uma controvérsia científica. A investigação publicada na última quinta-feira, 13, pela revista Science questiona parte das evidências usadas em estudos que identificaram mutações genéticas raras supostamente capazes de proteger o cérebro e retardar o desenvolvimento da doença.
A reportagem aponta dúvidas sobre dados clínicos, análises genéticas e imagens científicas utilizadas em pesquisas que ajudaram a impulsionar uma nova frente de investigação sobre prevenção e tratamento do Alzheimer. As equipes responsáveis contestam as críticas e afirmam que as conclusões permanecem válidas.
Os estudos analisados tiveram grande repercussão nos últimos anos ao descrever pessoas com predisposição genética para desenvolver Alzheimer hereditário precoce que permaneceram cognitivamente preservadas por décadas além do esperado. Os casos levaram cientistas de diferentes países a investigar se determinadas variantes genéticas poderiam oferecer proteção natural contra a doença.
Mutações raras mudaram o rumo das pesquisas sobre Alzheimer
As pesquisas acompanharam famílias colombianas portadoras de uma mutação no gene PSEN1, responsável por uma forma hereditária e precoce do Alzheimer.
Em um dos casos mais conhecidos, uma mulher com essa mutação permaneceu sem sintomas por cerca de 30 anos além da idade prevista para o aparecimento da doença. Os pesquisadores atribuíram essa resistência a uma segunda mutação rara conhecida como Christchurch.
Anos depois, outro estudo descreveu um homem com características semelhantes que carregava outra variante, chamada Reelin-COLBOS. As duas descobertas despertaram interesse internacional uma vez que sugeriam que algumas alterações genéticas poderiam proteger o cérebro mesmo diante de um alto risco de desenvolver Alzheimer.
Essa hipótese passou a orientar pesquisas em diversos centros científicos e inspirou o desenvolvimento de medicamentos experimentais voltados aos mesmos mecanismos biológicos.
O que a investigação encontrou?
Para elaborar a análise, a Science analisou mais de mil documentos, incluindo artigos científicos, registros de financiamento, pedidos de patente, bancos de dados e comunicações entre pesquisadores.
A revista também entrevistou especialistas independentes e integrantes do Grupo de Neurociências de Antioquia (GNA), responsável por acompanhar milhares de pessoas com Alzheimer hereditário na Colômbia.
Segundo a investigação, existem dúvidas sobre a identificação de algumas variantes genéticas consideradas protetoras e sobre alterações realizadas em registros clínicos utilizados para sustentar essa hipótese.
A análise também aponta inconsistências em imagens publicadas em estudos sobre as variantes Christchurch e Reelin-COLBOS. Especialistas consultados identificaram possíveis duplicações e reutilizações de figuras experimentais, levantando questionamentos sobre parte das evidências apresentadas.
A Science ressalta que erros em imagens podem ocorrer sem intenção. No entanto, afirma que os pesquisadores não forneceram todos os arquivos originais solicitados para esclarecer os questionamentos.
Dados clínicos também passaram a ser questionados
Outro foco da investigação envolve um estudo publicado em 2024 no New England Journal of Medicine. O trabalho concluiu que pessoas portadoras de uma única cópia da mutação Christchurch desenvolviam sintomas de Alzheimer, em média, cinco anos mais tarde do que outros pacientes com a mesma predisposição genética.
Segundo a análise, pesquisadores independentes questionaram alterações feitas nas idades registradas para o início dos sintomas de alguns participantes. Na avaliação desses especialistas, essas mudanças poderiam influenciar as conclusões do estudo.
Para a pesquisadora Yakeel Quiroz os registros foram atualizados após revisões clínicas mais detalhadas e que essa reavaliação permitiu identificar um efeito protetor que não havia sido observado anteriormente.
Pesquisadores defendem os estudos
De acordo com a revista, os cientistas citados recusaram entrevistas ou não responderam aos questionamentos enviados pela Science. Em comunicado, representantes das instituições envolvidas afirmaram que eventuais dúvidas relacionadas às pesquisas são tratadas por procedimentos internos e que não comentariam casos específicos.
O Grupo de Neurociências de Antioquia também declarou que as críticas envolvem um número limitado de estudos e não comprometem a autenticidade dos dados nem as principais conclusões produzidas pelo grupo.
Segundo a instituição, eventuais correções ou esclarecimentos serão apresentados pelos canais científicos apropriados.
O que muda para as pesquisas sobre Alzheimer?
A investigação não conclui que as mutações Christchurch ou Reelin-COLBOS deixem de exercer algum efeito biológico. A própria Science destaca que grupos independentes continuam estudando essas variantes e seus possíveis efeitos sobre proteínas envolvidas no desenvolvimento do Alzheimer, como a beta-amiloide e a tau.
Para os especialistas destacados, será necessário identificar novos casos, reproduzir os resultados de forma independente e fortalecer as evidências antes de confirmar que essas mutações realmente oferecem proteção contra o Alzheimer.
Embora a investigação questione parte das evidências disponíveis, ela não descarta que as variantes possam desempenhar um papel biológico relevante. A principal questão é que essas descobertas precisarão ser confirmadas por novos estudos independentes antes de servirem de base para futuras terapias contra o Alzheimer.
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