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Saturday, October 10, 2026

“O contexto social molda a forma como sentimos a dor"

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Sónia Bernardes é psicóloga social, psicóloga clínica e investigadora no ISCTE, onde estuda há mais de duas décadas a relação entre fatores psicossociais e a dor crónica
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▲Sónia Bernardes é psicóloga social, psicóloga clínica e investigadora no ISCTE, onde estuda há mais de duas décadas a relação entre fatores psicossociais e a dor crónica

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

▲Sónia Bernardes é psicóloga social, psicóloga clínica e investigadora no ISCTE, onde estuda há mais de duas décadas a relação entre fatores psicossociais e a dor crónica

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

A dor não se resume ao corpo e mente. A psicóloga e investigadora Sónia Bernardes lembra que as relações, as condições de vida e os preconceitos interferem na experiência.

Este artigo faz parte da série “O que eu aprendi com a dor dos outros”, um conjunto de reportagens escritas por um jornalista a partir de entrevistas com profissionais de saúde que acompanham doentes com dor crónica.

As conversas sobre dor não são muito frequentes. No entanto, talvez porque faço investigação nesta área, muitas pessoas sentem uma liberdade maior para falar comigo sobre a dor que sentem. Ao longo dos anos, comecei a perceber que há muitas pessoas à minha volta que trabalham, cumprem as suas funções, fazem a sua vida e parecem perfeitamente funcionais, mas que sofrem com dor crónica. Só que, na maioria das vezes, não lhe chamam assim. Dizem apenas: “Tenho esta dor todos os dias há anos.”

Sou psicóloga social, psicóloga clínica e investigadora no ISCTE e estudo há mais de duas décadas a relação entre fatores psicossociais e saúde, nomeadamente na dor crónica. A minha investigação está muito focada em dois eixos: a influência dos estereótipos e preconceitos dos profissionais de saúde — nomeadamente relativos ao sexo e ao género — na avaliação e no tratamento da dor, e a influência do contexto, das relações e do apoio social na adaptação à dor crónica.

A maioria das pessoas já está familiarizada com a ideia de que há uma componente psicológica da dor. Mas é importante frisar que dizermos que a dor é — também — psicológica não significa que é imaginária. A dor é produzida pelo cérebro, quando lhe chegam sinais que lhe dizem que alguma coisa pode ser potencialmente perigosa. O cérebro precisa então de interpretar essa informação e perceber se existe perigo. Para isso, recorre não apenas aos sinais do corpo, mas também ao que vemos, ouvimos, pensamos e sentimos naquele momento, e é por isso que há uma componente psicológica.

No entanto, os nossos pensamentos e emoções não acontecem num vazio social: temos famílias, amigos, trabalhamos, pertencemos a grupos sociais e vivemos dentro de determinadas condições económicas e culturais. Portanto, também o contexto social molda a forma como pensamos, sentimos e vivemos a dor.

Duas pessoas com uma doença crónica semelhante podem ter vidas muito diferentes: uma consegue manter o trabalho, as relações, a participação social e alguma qualidade de vida; outra isola-se, deixa de trabalhar, fica deprimida, sente mais dor. E não podemos olhar para estas diferenças apenas do ponto de vista das características individuais de cada um.

▲ "Dizermos que a dor é (também) psicológica não significa dizer que é imaginária", diz a investigadora e professora do ISCTE, em Lisboa

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

É muito fácil falar de resiliência, otimismo, autoeficácia ou capacidade de controlo e esquecer o contexto em que uma pessoa vive com a sua doença, mas não é a mesma coisa ter dor crónica quando se tem um emprego estável, segurança financeira e uma rede de apoio, ou quando se está desempregado, se tem poucos recursos económicos, baixos níveis de escolaridade e nenhum apoio familiar. Os níveis de ameaça e de stress a que uma pessoa está sujeita, numa e noutra situação, são muito diferentes e isso influencia a experiência de dor.

“O corpo nunca era falado”

Fiz o 12.º ano numa altura em que só tínhamos três disciplinas. Eu tinha Biologia, Matemática e Química e a minha ideia era candidatar-me à licenciatura em Bioquímica. Mas como tinha algumas dúvidas e gostava de muitas coisas, a minha mãe sugeriu que fosse fazer uma avaliação vocacional. Feitos os testes psicotécnicos e a entrevista, o psicólogo disse-me que eu tinha um perfil muito abrangente — que incluía a Bioquímica — mas achava que, se fizesse essa escolha, talvez sentisse falta de pessoas.

Aquele comentário ressoou em mim. Pensei que, realmente, não me via a vida toda enfiada num laboratório a olhar para um microscópio. Escolhi, então, Psicologia. Fiz a licenciatura em Psicologia — ramo de Psicoterapia e Aconselhamento —, depois, iniciei a minha formação pós-graduada em Psicoterapia na Associação Portuguesa de Terapias Comportamental, Cognitiva e Integrativa.

Ao mesmo tempo, no fim da licenciatura, em 1999, fui contratada pelo então Departamento de Psicologia Social e das Organizações do ISCTE como assistente estagiária. Acabei por fazer aqui o mestrado e o doutoramento em Psicologia Social da Saúde, bem como todo o meu percurso académico e profissional. Estou no ISCTE há mais de 26 anos e, atualmente, sou professora catedrática no Departamento de Psicologia e diretora do Mestrado em Psicologia Social da Saúde e Bem-Estar.

Interessei-me pela dor logo quando estava a acabar a especialização em psicoterapia. Primeiro, porque comecei a ter esta sensação de que estávamos sempre muito focados na parte psicológica e o corpo nunca era falado, depois porque nas consultas surgiram algumas pessoas com dor crónica. Lembro-me que isso chamou logo a minha atenção porque era uma área em que a ligação entre corpo e mente, que tanto me interessava, era indissociável.

"Os nossos pensamentos e emoções não acontecem num vazio social: temos famílias, amigos, trabalhamos, pertencemos a grupos sociais e vivemos dentro de determinadas condições económicas e culturais. Portanto, também o contexto social molda a forma como pensamos, sentimos e vivemos a dor."

Quando estava à procura de um tema para o doutoramento, houve um acontecimento muito marcante na minha vida pessoal: a minha avó materna morreu na sequência de um cateterismo cardíaco. Foi um choque para mim. Era uma avó muito querida, foi uma coisa totalmente inesperada, ela não queria ir fazer o exame, mas foi e aconteceu isto.

Comecei então a ler sobre as disparidades de sexo e género no diagnóstico e tratamento de doenças cardiovasculares. Havia já muita investigação que mostrava, por exemplo, que a mortalidade por enfarte entre as mulheres era mais alta e a dor pré-cordial — a dor no peito — era menos valorizada nas mulheres que nos homens.

Acabei por escolher articular as questões de género e da dor e a minha tese foi sobre como na avaliação da dor de outra pessoa, o facto de ela ser homem ou mulher influencia os julgamentos clínicos. E, em especial, sobre como é que isso acontece, dependendo do contexto.

“A dor aguda e a dor crónica são ‘animais’ diferentes”

Uma das coisas que tenho aprendido com o meu trabalho é que aquilo que fazemos para ajudar alguém com dor nem sempre tem o efeito que imaginamos. Quando alguém está com dor, é muito natural que a família tente protegê-la: se lhe custa subir as escadas, alguém vai buscar as coisas; se custa fazer determinada tarefa, alguém a substitui.

Mas costumo dizer que a dor aguda e a dor crónica são “animais” diferentes. E dar esta ajuda a alguém que partiu uma perna ou a alguém que tem dor crónica há anos não é a mesma coisa. Apesar de a pessoa com dor crónica, no imediato, se sentir apoiada quando alguém faz as coisas por ela, se isso se torna sistemático, pode ter um efeito perverso: a pessoa vai perdendo funcionalidade, deixa de conseguir fazer certas tarefas, perde papéis sociais, acaba por se isolar mais, fica mais deprimida e sente mais dor.

Então, ajudar alguém com dor crónica nem sempre passa por substituir a pessoa, mas antes por encontrar uma forma de lhe continuar a permitir fazer algumas tarefas. Chamamos a isso suporte social promotor da autonomia funcional e os dados que recolhemos mostram que este tipo de suporte, que promove a autonomia, está associado ao bem-estar funcional e ao bem-estar psicológico.

Outra coisa que a investigação me ensinou foi a desconfiar das explicações demasiado simplistas. Trabalho há muitos anos sobre preconceitos e enviesamentos na avaliação e tratamento da dor, nomeadamente os relacionados com o género. É muito comum ouvirmos que a dor das mulheres é desvalorizada em comparação com a dos homens. Existem, de facto, estudos que mostram enviesamentos contra as mulheres. Mas a evidência é muito mais complexa: também há estudos que não encontram diferenças e outros que os encontram contra os homens.

O que me interessa hoje é menos perguntar simplesmente se existe ou não um viés contra as mulheres e mais perceber em que circunstâncias eles aparecem. Porque não acontecem sempre: dependem da conjugação de características do profissional de saúde, da forma como a pessoa apresenta a dor, do tipo de dor e das próprias regras e orientações existentes no contexto clínico.

Acho que um bom ponto de partida é lembrar que todos temos enviesamentos, só assim podemos tentar perceber quais são e estar alerta. Também eu tenho preconceitos. O facto de trabalhar sobre estereótipos não me torna imune a eles. A diferença está na capacidade de os reconhecer quando aparecem e de não deixar que determinem a forma como olho para a pessoa que tenho à minha frente. É isto que acho que devemos todos tentar fazer.

“Eu estava, de certa forma, a treinar o meu cérebro”

Há cerca de dois anos comecei a ter uma dor no ombro esquerdo, justamente o lado sobre o qual costumo dormir. Parecia que o ombro estava deslocado, mas fiz aquilo que muitas vezes digo às pessoas para não fazerem: ignorei.

Deixei passar mais de seis meses e só fui procurar ajuda quando a dor já interferia com o sono e estava presente constantemente. Fiz mais de 60 sessões de fisioterapia, mas mesmo depois de os músculos estarem fortalecidos e de não existir já nenhum problema mecânico no ombro, a dor continuava. A fisioterapeuta disse-me que tinha de continuar a mexer o braço quando ia ao ginásio. Ia doer, mas eu tinha de fazer os movimentos na mesma.

"Apesar de a pessoa com dor crónica, no imediato, se sentir apoiada quando alguém faz as coisas por ela, se isso se torna sistemático, pode ter um efeito perverso: a pessoa vai perdendo funcionalidade, deixa de conseguir fazer certas tarefas, perde papéis sociais, acaba por se isolar mais, fica mais deprimida — e sente mais dor."

Foi uma experiência muito curiosa porque, pela primeira vez, senti no meu próprio corpo uma coisa que conhecia intelectualmente. Eu estava, de certa forma, a treinar o meu cérebro. Durante algum tempo, ele continuava a interpretar determinados movimentos como perigosos. E eu precisava de lhe mostrar repetidamente que podia fazê-los sem que estivesse a acontecer nada de perigoso para parar de doer. Com a repetição, o cérebro foi aprendendo e, um dia, sem que eu saiba exatamente quando e como aconteceu, deixou de doer.

Esta foi uma experiência com dor crónica muito limitada, comparada com aquilo que vejo em pessoas que vivem com dor crónica intensa. Não quero generalizá-la, mas conto-a porque me mostrou, na prática, a importância do exercício físico para treinar o cérebro. E relembrou-me também a importância do tempo: os meses que demorei a pedir ajuda, provavelmente, acrescentaram tempo à recuperação.

Penso que uma das mensagens mais importantes para quem vive com dor crónica é que o tratamento raramente passa apenas pela dimensão médica. É preciso abandonar a ideia de que existe um comprimido ou uma intervenção que vai fazer desaparecer toda a dor. Por isso, pode ser necessário articular medicina, psicologia, fisioterapia e outras áreas. O problema é que o nosso sistema de saúde ainda tem dificuldade em fazer essa articulação.

▲ A tese de doutoramento da investigadora sobre avaliação da dor demonstra que o facto de se ser homem ou mulher influencia os julgamentos clínicos

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Para alguém que vive com dor intensa, é perfeitamente compreensível o desejo de ter uma solução rápida. O difícil é perceber que, em alguns casos, talvez a dor não desapareça completamente e que seja preciso aprender a viver com ela de outra maneira.

Isso não significa desistir de tratar, significa alargar a ideia de tratamento. Significa perceber que as emoções, os pensamentos, as relações, o contexto social e a forma como interpretamos aquilo que sentimos podem ajudar ou dificultar a maneira como vivemos com a dor.

Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a Ferraz Lynce (através da sua unidade, FAI Therapeutics) e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.

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