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Saturday, August 15, 2026

Cerâmica de 1900 mostra diferenças de hábitos alimentares entre grupos no Brasil

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A cerâmica usada por pessoas que viveram no litoral catarinense entre o fim do século 19 e o começo do século 20 traz pistas sobre a modernização desigual do Brasil há mais de cem anos. Os cacos do material, analisados quimicamente por arqueólogos, mostram como grupos de imigrantes e a população mestiça da região tinham hábitos alimentares e estilos de vida bastante distintos uns dos outros.

De um lado, havia um predomínio do consumo de vegetais e animais de origem europeia e uma maior integração com a produção comercial por parte dos recém-chegados, os quais, na região, tinham origem predominantemente alemã nessa época. Por outro lado, descendentes de indígenas, africanos e portugueses que já estavam na área havia séculos tendiam a depender mais dos recursos pesqueiros, além de caçar e praticar a agricultura de subsistência.

A análise, que levou em conta quatro sítios arqueológicos no entorno da baía da Babitonga (abrangendo municípios atuais como Joinville e São Francisco do Sul), foi publicada no mês passado no periódico especializado Royal Society Open Science. Coordenado por André Carlo Colonese, pesquisador brasileiro que trabalha na Universidade Autônoma de Barcelona, o trabalho também é assinado por especialistas da Universidade da Região de Joinville e do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville.

Tal como em outros sítios arqueológicos muito mais antigos, as diferentes comunidades rurais e urbanas que existiam na baía da Babitonga por volta da época do fim do Império e do começo da República podem ser estudadas com base nos artefatos e restos orgânicos que deixaram para trás, como utensílios domésticos (os próprios cacos de cerâmica são um exemplo) ou ossos de animais.

Além disso, porém, o avanço das técnicas de análise química permite que os pesquisadores obtenham resquícios moleculares de alimentos que foram cozinhados ou armazenados nas vasilhas. Isso traz dados ainda mais precisos sobre como era a dieta dos antigos moradores e permite associá-la a outros aspectos do padrão de vida e organização social. No caso do trabalho de Colonese e seus colegas, foram analisados tanto lipídios (moléculas de gordura) quanto, em menor grau, proteínas oriundas dos antigos mantimentos.

Diferentes tipos de cerâmica contêm esses restos, e a maneira como eles foram produzidos também pode ser correlacionada com os tipos de dieta. Alguns dos moradores da região nesse período tinham acesso a utensílios feitos em roda de oleiro (na qual a matéria-prima é girada constantemente, por meio da força humana ou de modo automático, enquanto vai sendo moldada). Na época, era uma técnica mais voltada para o comércio em massa de itens de cerâmica.

Outros, porém, não tinham acesso a esses artefatos, mais caros e de maior qualidade, tendo de se contentar com vasilhas de barro moldadas apenas com as mãos, provavelmente por membros da própria família. Nos sítios arqueológicos estudados pela equipe, isso fica mais evidente porque esse tipo de cerâmica inclui não só recipientes como também cachimbos de barro, ambos com padrões decorativos simples que remetem a tradições indígenas e africanas mais antigas.

E essa diferença se reflete justamente na comida armazenada e preparada em cada contexto. Usando o que se sabe sobre a composição de lipídios e proteínas dos alimentos, os pesquisadores perceberam, por exemplo, que os locais com cerâmica produzida industrialmente trazem os sinais mais comuns da presença de laticínios na alimentação. Ao mesmo tempo, apesar da proximidade do mar, há pouca presença do consumo de peixe. Por fim, há mais sinais do consumo de alimentos de origem vegetal classificados quimicamente como C3. Trata-se, por exemplo, do grupo ao qual pertencem os cereais da parte temperada do Velho Mundo, como o trigo.

Em comum, ambos os grupos sociais têm sinais do consumo de alimentos comuns ainda hoje à dieta de muitos brasileiros, como mandioca, arroz, feijão e carne de frango. Mas os sítios com forte presença da cerâmica caseira sugerem um consumo muito mais intenso de peixes e mariscos. Conforme mostram restos de fauna em um dos locais, um desses peixes parece ter sido a corvina (Micropogonias furnieri), e os moradores também parecem ter capturado baleias, golfinhos e animais terrestres, como pacas, veados e tatus.

Para os pesquisadores, uma possível explicação para as diferenças é o grau de integração que as diferentes comunidades tinham com os sistemas de comércio formal e propriedade privada da época.

Os imigrantes, com mais facilidade para ter acesso à propriedade da terra e se inserir na produção agrícola visando mercados, provavelmente orientavam sua produção agrícola em torno de um modelo europeu e adquiriam bens de consumo padronizados.

"Por outro lado, uma maior dependência em relação aos habitats costeiros, caracterizados por um acesso relativamente mais livre [a recursos pesqueiros], permitia que as famílias [de origem mestiça] encontrassem meios de subsistência sem precisar passar pelo mercado formal", escrevem os pesquisadores.

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