Montenegro aconselha Passos a esperar sentado

Alegam os mais próximos de Montenegro, Pedro Passos Coelho parte de uma primeira premissa errada sobre a vontade do partido: a de que os militantes e eleitores do PSD querem de facto uma aliança com o Chega que torne possível a tal concretização da maioria de direita. Para lá da avaliação empírica que se possa fazer, há instrumentos — as várias sondagens realizadas até ao momento — que podem servir de bússola nesta questão. Uma das mais completas, do ICS/ISCTE/GfK para o Expresso / SIC, de junho deste ano, era cristalina: simpatizantes do PSD acham o Chega muito pior do que o PS.
Aliás, nessa mesma sondagem, os inquiridos que se diziam simpatizantes do PSD colocavam o Chega como o partido menos apreciado de todos, atrás de Livre, Bloco de Esquerda e CDU. Muitos dos inquiridos (40%), onde se incluíam naturalmente os simpatizantes do PSD, referiam-se aos apoiantes de André Ventura em termos muito negativos, como ameaça real ou moral, e com direito a palavras como “mentirosos”, “ignorantes”, “extremistas“, “arruaceiros” ou “perigosos”.
Existe depois uma segunda premissa que a nomenclatura atual do PSD considera errada e que cruza diretamente com a anterior: a de que o país, como Passos sugere, deseja uma maioria PSD, Chega e, porventura, Iniciativa Liberal. A história nem sempre se repete, mas rima: em 2022, António Costa obteve a maioria absoluta porque muitos eleitores temeram uma aliança entre Rui Rio e André Ventura; em 2024, Luís Montenegro venceu as legislativas por uma unha negra porque disse “não é não”; em 2025, acabou premiado com um resultado mais robusto, ainda que o Chega tenha também crescido nas urnas. Está por provar que a vontade declarada em fazer um acordo com André Ventura servisse os propósitos do PSD.
Ao mesmo tempo, ou em cima disto, existe a experiência das eleições presidenciais: no mata-mata entre António José Seguro e André Ventura, não só existiu uma forte taxa de rejeição ao líder do Chega, como cerca de 69% dos eleitores de Luís Marques Mendes, candidato patrocinado pela atual liderança do PSD, assim como 60% dos de Cotrim Figueiredo ou 63% de Henrique Gouveia e Melo, que também tinha nas suas fileiras eleitores tradicionais do PSD, votaram num socialista para Presidente da República.
Existe outro ponto do raciocínio de Passos que os apoiantes de Montenegro se esforçam por tentar desmontar: a tal ideia de que há uma maioria funcional à direita do PS capaz de, no dia seguinte, e se bem liderada, fazer as reformas que o antigo primeiro-ministro julga necessárias. “É de quem não põe um pé no Parlamento desde 2017. Está desfasado da realidade“, insiste-se no quartel-general de São Caetano.
Primeiro, porque é evidente para todos os que estão com Luís Montenegro que André Ventura não quer derrotar o socialismo — quer derrotar e substituir o PSD. Imaginar que será Pedro Passos Coelho a fazer voltar a “passar o leão pelo aro” e domesticar André Ventura fazendo dele um parceiro confiável e construtivo “não lembra ao careca”, parafraseando Marcelo Rebelo de Sousa. Em segundo lugar, e mesmo admitindo que André Ventura faria parte da solução e não do problema, está por explicar que reformas seria possível desenhar entre Passos, que tem uma visão vincadamente liberal do Estado, e Ventura, que a cada discussão opta, ora pela via mais populista, ora pela via mais estatizante.
Por fim, há um dado que vai confortando os homens de Montenegro: o mito de Pedro Passos Coelho deve a sua força ao desconhecimento que existe sobre as novas ideias do antigo primeiro-ministro para o país. Isto porque toda a gente sabe o que o antigo primeiro-ministro fez num contexto exigente e reconheceu-lhe o mérito com duas vitórias eleitorais; mais de dez anos depois, é possível que as tais reformas de Passos, muitas delas deverão ser conhecidas até ao final do ano, não sejam particularmente bem recebidas pelos potenciais eleitores. E o mito desfaz-se rapidamente.
Quanto ao mais, até a equipa do atual primeiro-ministro dá razão a Pedro Passos Coelho num ponto: se as coisas correrem mal a Luís Montenegro, não há muito que se possa fazer para travar o regresso sebastiânico. Passos é o único protocandidato na corrida e é o único a dizer repetidamente que o rei vai nu. Se o PSD de Montenegro cair, é para Passos que se vai virar. Mas, e tal como sugeriu o atual primeiro-ministro, é como apostar que o Diabo, nas suas variadas formas, vem aí. E da primeira vez correu mal a Pedro Passos Coelho.
[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
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