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Thursday, October 1, 2026

Filme premiado no Festival de Veneza, 'Naza' detalha as mortes de civis em Gaza

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Nos anos 1940, vários funcionários do Estado alemão seguiam ordens do governo nazista para ajudar no extermínio da população judaica na Europa. Muitas vezes, estavam tão distanciados física e emocionalmente das pessoas que auxiliavam a massacrar que, de certo modo, a crueldade de seus atos se tornava algo rotineiro e trivial —o que remete à noção que a filósofa Hannah Arendt descreveria como "banalidade do mal".

Oito décadas após a Segunda Guerra, o documentário "Naza" sugere que um processo semelhante acontece justamente no aparato estatal do país cujo surgimento foi impulsionado pelo Holocausto: funcionários israelenses estariam cometendo rotineiramente —e à distância— atos de poder destrutivo contra o povo palestino de Gaza. O controverso filme ganhou o prêmio especial do júri no Festival de Veneza deste ano.

"A força dos escritos de Arendt reside no fato de percebermos que isso pode ser aplicado ao longo dos séculos 20 e 21 a muitos sistemas de extermínio, a muitos casos de genocídio ou a crimes de guerra e atrocidades estatais. Indivíduos inseridos em uma sociedade que normaliza o sistema e vivem nele como se fosse a água em que nadam, sem perceber", diz Yuval Abraham, que, ao lado da compatriota israelense Rachel Szor, assina a direção de "Naza".

O filme causou enorme repercussão por trazer detalhes, a partir de entrevistas com 24 pessoas de dentro das forças de defesa de Israel, do quanto suas ações para dizimar o grupo terrorista Hamas têm resultado em um concomitante extermínio de civis palestinos.

Os depoentes dizem que um único ataque por vezes pode matar centenas de inocentes, mesmo quando o alvo é apenas um membro do Hamas —"naza" ou "dano colateral" é o termo usado para se referir a esses casos, em que a morte de civis já é esperada e até quantificada.

Também relatam que cidadãos comuns são confundidos com terroristas por serem localizados a partir de um reconhecimento criado por inteligência artificial que detecta padrões de comportamento. Quem porventura age de forma similar à do padrão pode dar o azar de ser lido como um terrorista e acabar morto, em ações que vitimam muitas vezes também familiares e vizinhos dos alvos.

Segundo o filme, a morte de palestinos inocentes tem sido sistêmica e parte de um projeto desde o início dos ataques a Gaza, em 2023. "Sentimos que, com o filme, fazemos o que é nossa responsabilidade básica, como jornalistas, como seres humanos e como cidadãos do país que está cometendo tais crimes: falar sobre o assunto", diz Abraham.

No longa, os depoentes surgem com o rosto e a voz alterados por inteligência artificial. Os cineastas chegaram a eles após muita investigação e garantem que a identidade de cada um foi verificada com "um milhão por cento de certeza".

"O que cada fonte diz no filme também é confirmado por outras fontes. Portanto, nada do que incluímos no filme foi dito por apenas uma pessoa", afirma Szor. "Eles descrevem o sistema e até a linguagem que usam é tão específica e detalhada que é impossível inventar tudo isso, quando se trata de quatro, cinco, dez pessoas diferentes. E, claro, também temos o The Guardian para demonstrar que tudo foi verificado", ela diz, referindo-se à publicação britânica, uma das produtoras do documentário.

Mas o que teria levado esses israelenses a falar, mesmo sabendo dos riscos que correriam? Peso na consciência parece a hipótese mais plausível, mas Abraham diz ter detectado também comportamentos menos óbvios. "Os seres humanos são muito complexos. Havia casos em que a pessoa parecia falar por vergonha ou culpa, mas, com o depoimento, o tom mudava e dá para ver um senso de orgulho pelo que tinham feito."

Os cineastas falaram com a reportagem em Veneza, diante de uma recepção bastante calorosa de críticos e do público. Dias depois, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, anunciaria planos para revogar a cidadania de israelenses que, como Abraham e Szor, "difamem as forças de defesa de Israel".

Antes da ameaça, os cineastas imaginavam que haveria represálias. "É claro que temos um certo receio, não sabemos o que nos espera. Estamos sempre monitorando a situação para ver se, por exemplo, o Exército disse algo, ou quem está falando sobre isso. Por outro lado, sentimos que não fizemos nada de errado", diz Abraham, já habituado a correr riscos.

Há dois anos, ele dirigiu com Szor e mais dois cineastas "Sem Chão", vencedor do Oscar de melhor documentário, sobre a destruição de um povoado palestino por forças israelenses. Na época, Abraham diz que um grupo chegou a invadir a casa de seus pais —sua mãe precisou se afastar do local por um tempo. Ele mesmo, porém, relata não ter sofrido nada pessoalmente.

"Pelo menos até agora, nenhum de nós apanhou nem nada do tipo. Ao menos até agora. Sabemos que, se fôssemos palestinos, teríamos sido assassinados ou presos. Por isso, entendemos que temos um certo privilégio, e isso também é algo que nos deixa menos preocupados."

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